diário - 16.novembro.2011


quarta-feira



Olá, companheiro

Há um mês fui contactada pela minha amiga Ana, de Vila Nova de Santo André, por causa de um familiar da minha avó adotiva (a segunda mulher do meu avô, a que nos criou, a nossa verdadeira avó de coração e sei lá de que mais patamares da existência). É irmão gémeo da minha avozinha, imaginem, separados à nascença.
Como me veio altamente recomendado pela Ana, por quem tenho uma estima imensa, lá me apresentei ao senhor, no facebook. Ele abriu uma conta só para me contactar e desde esse dia que mantemos uma conversa… longa e variada.
Trabalho numa editora sediada em Madrid, que atua essencialmente no mercado dos livros de arte. Editamos uma revista mensal (AdorArte) de 100 páginas, com algum impacto na divulgação e lançamento de artistas, obras e acontecimentos.
Foi justamente o conhecimento do sr Hans SW Bricks neste domínio que começou por me cativar e me convencer a manter este canal de conversação diariamente atualizado.
Já tinha ouvido falar (até foi pela Ana, ou melhor, pelo filho dela, que é DJ e expert na matéria) de um alemão misterioso e milionário, que transformava os jardins da sua mansão em Berlin naquelas que são consideradas as primeiras grandes Wild Private Raves (WPR) do mundo, as emblemáticas festas Love Paradise. Lembro-me de ter depois lido qualquer coisa sobre estas WPR, sobre os excessos que de lá se comentavam e de como a moda alastrou pelo mundo. É claro que quem já anda no mundo das artes e seus críticos há tanto tempo como eu, sabe que, quando se fala em excessos, poderemos estar num cenário fértil para a criatividade. Não faltam exemplos.
Pois revelou-me ser ele esse excêntrico anfitrião de alguns dos primeiros DJs do mundo, o que me fez imediatamente pensar no meu trabalho na editora e de como até poderia ter ali material para uma obra documental sobre Berlin e as WPR. No entanto, após algumas indicações nesse sentido, ele disse-me categoricamente que não estava interessado em tornar público nada do que quer que viéssemos a falar. Que agradecia a minha discrição. Que estava a gostar muito de falar comigo, mas que abandonaria imediatamente este convívio se eu não lhe garantisse a total privacidade dos nossos diálogos. Claro que sim, garanti-lhe. Assim o farei.
A nossa conversa tem viajado por muitos universos e ainda que ele vá tentando sempre saber a minha opinião sobre o que debatemos, eu é que tenho quase sempre tido o papel de entrevistadora, o que é natural (ainda que a minha vida possa ter um relativo interesse, ao pé de um titã como ele, sinto-me fascinadamente um inseto).
O meu campo de interesses, graças ao meu marido, que é jornalista científico, tem sido alargado com mais rigor ao universo da física quântica, sem me desligar da criatividade humana no desvendar do possível nessa imensidão que é o provável. Há muita arte na ciência contemporânea e ciência na arte contemporânea, por isso compreendo na linha editorial da nossa revista (que eu co-dirijo) portas sempre abertas à concetualidade atual e aos avanços tecnológicos.
É neste sentido que descobri um Hans Bricks que não sei se enquadraria numa secção de ficção-científica, se numa de concetualização iconoclasta. Não quebrarei o meu sigilo, mas deixo aqui um naco da conversa que temos tido no facebook. Faço-o por o achar significativo e se o meu diário for lido, ainda que possa não se compreender toda a envolvência, entender-se-á, assim espero, a importância do meu gesto.
(Corrigi alguns erros – compreensíveis de um alemão – para evitar distrações.)

(…)

Eva Zuse
Sobre o seu pai deve ter grandes recordações. O nome Joseph B. Bricks é um símbolo em ousadia empresarial com sucesso.

Hans SW Bricks
Saberá que o meu pai me deixou um império enorme, muito bem organizado, mas sempre e só me envolveu com os do nosso patamar existencial (entenda-se financeiro, social).

Eva Zuse
Considera que isso foi uma limitação?

Hans SW Bricks
Não posso considerar porque nós nunca saberemos o que nos teria acontecido se não tivesse acontecido exatamente tudo o que nos aconteceu.
O meu pai era uma pessoa muito prática. Dizia várias vezes que não só nunca se devia esbanjar dinheiro, como também nunca poupar em sorrisos: “Filho, se não tiveres inimigos, não tens de contratar seguranças, poupas dinheiro”.
Quanto à obrigatoriedade de me dar socialmente só com certas pessoas tinha a ver com uma teoria sua. (Recentemente referida numa tese dos Anualistas.)
Segundo ele, a relação entre uma necessidade e a sua satisfação define os graus de entendimento facilitado, os chamados estratos sociais. E porquê de entendimento facilitado? Porque é muito mais fácil entender-me com os que também funcionavam na mesma esfera social. Por exemplo, eu e o meu grupo de amigos mais chegados, todos os semestres, passamos uma semana numa casa de um de nós, mas sempre em países diferentes. Houve até o caso do Geraldo, que comprou uma mansão fantástica, só para nos receber. Vendeu-a depois. Isto dá-nos um humor peculiar, próprio. Raramente falamos de política, de dinheiro (proibidíssimo!), de desgraças. Enfim, acho que somos uma tribo.
Por exemplo, basta descermos um degrauzinho abaixo, que notamos algumas diferenças. O Akira chama-lhes os colecionadores. Compram o absurdo, coleções de Ferraris, de malas, de charutos, de jóias, de mansões, de ilhas, de sei-lá-o-que-mais. Nisso somos diferentes, nós não colecionamos nada de palpável. Não pertencemos ao sistema financeiro de nenhum país, pelo que a ninguém devemos impostos. Compramos um hotel, uns restaurantes, uma ilha, uma aldeia, onde vivemos durante um tempo e depois zarpamos a outro local qualquer e vendemos tudo. Neste momento tenho trinta e tal imóveis, mas não são os mesmos de há 10 anos. A minha agência imobiliária põe apartamentos, vivendas, mansões, discotecas, etc., à minha disposição, onde vou pedindo, depois passam para outras mãos, tudo vendido. A única casa que mantenho é justamente a das raves, em Berlin, a casa da família.
Voltando atrás, o seu marido, disse-me, é jornalista e tem trabalhado na área da física quântica?

Eva Zuse
Sim, tem abrangido as áreas menos doces do jornalismo científico. Calham-lhe sempre trabalhos que não trazem relevo por serem temas demasiado complexos do grande público. Coitado, nunca tem o reconhecimento que merece.
Agora, imagine, anda à volta de uma empresa qualquer espírita, que inventou uma máquina de nome Star Truque. Parece que dá para ir buscar objetos a outras dimensões. Ainda por cima é em Trás-os-Montes. Farta-se de viajar para lá. A sorte dele é que é um auto-motivado e adora o que faz.

Hans SW Bricks
Mas que coincidência. Eu sou um dos investigadores ligados à empresa espírita que o seu marido reporta.
Chama-se Alfé-GIP, somos um GIP, um Grupo de Intervenção Paranormal, de âmbito espírita, mas numa perspectiva muito tecnológica. Criámos uma marca (CoT-FeP – Controlo Tecnológico de Fenómenos Paranormais) para os nossos produtos de tecnologia de ponta no campo do paranormal, ou do interdimensional, como é menos conhecido. Para instalarmos toda a logística física (fábrica de componentes e laboratórios, escritórios, alojamentos, enfim) precisávamos de um espaço físico. Por isso comprámos uma quinta perto de Alfândega da Fé, escolha do João Falhuc, um dos nossos. Ele é que é o sábio na questão dos outros mundos e a razão da sua opção prendeu-se com as vibrações que afirmou sentir diretamente de São Pedro, o padroeiro adorado nesta zona de Trás-os-Montes.
O nosso amor pela fantasia levou-nos ao Star Truque, o mesmo que referiu na sua mensagem anterior, que é, por acaso, o ex-libris dos produtos CoT-FeP. É a nossa imagem para o exterior.

Eva Zuse
Quer dizer que, para além de tudo o que já soube de si, espantosamente, ainda o encontro envolvido nos limites mais radicais do tratamento da realidade?
Paranormal? Vibrações de São Pedro? Star Truque por amor à fantasia?
Desculpe, mas acho que estou meio atordoada.
Podia-me ajudar a integrar isto em tudo o que já me contou?

Hans SW Bricks
Ehehe
Compreendo a sua perplexidade. Compreendo em si, também, uma capacidade de não isolar a criatividade humana do rigor.
Não deixe que o racionalismo que lhe foi ensinado e confirmado ao longo da vida a impeça de compreender a existência de algo para além do compreensível. Entenda-se incompreensível (ensina-nos isto a História) como apenas uma questão de tempo na biografia do Homem.
Antes de continuar…
Preciso de voltar a falar-lhe da confiança que estou a fazer na promessa que me fez em manter secreta esta nossa conversa. Por isso me tenho aberto consigo e falado abertamente do impensável.
Confirma?

Eva Zuse
Sr. Hans, pode confiar na promessa que lhe fiz. Não contarei a ninguém do que falamos. Não é a jornalista de artes que está a falar consigo, mas a Eva, a neta da sua irmã. Eu sei que nunca sequer nos encontrámos e que este abstrato grau de parentesco que nos une pode ser de pouco em matéria de confiança, mas eu tenho falado consigo abertamente também, pondo nisso o sinal de retribuição da confidencialidade.

Hans SW Bricks
OK.
Como já lhe disse, tenho um grupo de amigos que funciona como uma verdadeira família. Gostamos e podemos desaparecer de onde quer que seja sem deixar rasto. Gostamos de explorar…
Não vou ligar às suas interrogações individualmente, pois nem é delas do que se trata. A Alfé-GIP é apenas a fachada do nosso verdadeiro trabalho.

Eva Zuse
Uma fachada? Então, as minhas interrogações, cito-me: “Paranormal? Vibrações de São Pedro? Star Truque por amor à fantasia?” são meros detalhes de algo ainda mais extraordinário? Maravilhe-me.

Hans SW Bricks
Pois bem, começámos nisto em 1997.
Será preciso mencionar-lhe os desenvolvimentos do teletransporte quântico, ocorridos no início da década anterior. A Partícula de Luz foi a inspiração inicial. Progredindo, conseguimos enviar um foco inteiro, imediatamente e sem perda de informação e aí aventurámo-nos em sólidos.
Antes de continuar, está por dentro destes conceitos ou precisa que lhe explique melhor algum contexto terminológico antes de continuar?

Eva Zuse
Acho que consigo acompanhá-lo, no entanto, não se esquive a explicações.

Hans SW Bricks
Certo!
Sem microscópios atómicos, nunca teríamos acesso comprovado às realidades não visíveis a olho nu, dramaticamente pequenas. Nem lhe falo já dos quarks, quer os neutros dos neutrões, quer os positivos dos protões, ou seja do mundo nuclear já confirmado, mas de outra realidade ainda não completamente confirmada pelo mundo científico oficial (digo oficial, pois no nosso underground investigador já os consideramos da família… ehehe), os fotões (a que carinhosamente chamamos Fotinhos), mais difíceis de localizar que qualquer espião profissional, como o confirmaria Heisenberg no seu princípio da Incerteza.
Deste mundo nuclear temos átomos (incluo aqui todos os seus já referidos componentes) que desaparecem de um local para aparecerem imediatamente noutro. Desta assumida indeterminação vem a primeira cientificidade teletransportável. Mas há outros comportamentos bizarros como átomos que explodem inexplicavelmente, que deixaremos para outra altura.
De Einstein ficaram-nos algumas heranças, como a importância de não revelar aos políticos as nossas descobertas (veja-se o caso das bombas da II Guerra Mundial), mas também a obsessão em tudo compreender, diria ele metaforicamente que “Deus não joga aos dados”.
Não me vou demorar (o seu marido ajudá-la-á nisso) em todos os episódios que levaram, passo a passo, ao atual estado do conhecimento. Cito-lhe apenas que depois de passarmos pela Constante de Planck (que arruinou completamente a física clássica) movida pelas interessantes leis de Rayleigh e Wien, chegamos à Teoria da Relatividade einsteiniana (sem esquecer determinantes como as equações de Maxwell), o que na prática redunda comercialmente em controlos remotos, o próprio computador, as ressonâncias magnéticas, etc, na chamada ressonância eletromagnética, para a qual o vazio é o meio ideal de amplificação.
Mais tarde viajámos para um campo muito específico, o da mecânica quântica (associada muito a posturas filosóficas) com o imortalista Amit Goswami a aterrorizar os defensores da vida mortal e finita. Grande inspirador para o nosso trabalho na Alfé-GIP. Outros se lhe seguiram, menos revolucionários mas assinaláveis, como Fritjof Capra e Eugen Wingner. Todos juntos contribuíram para a ideia de que só o que observamos é real, por isso criaram mecanismos de observação dessas entidades microscópicas, confirmando as suas perplexidades.
A perplexidade maior sempre veio da ideia confirmada de Heisenberg, que a incerteza do seu local é um facto e que pode viajar sem qualquer dispêndio energético ou temporal para distâncias assinalavelmente longínquas.

Eva Zuse
Compreendo que esteja a tentar ser resumido, que me quer afunilar o pensamento até à possibilidade do teletransporte. Falei com o meu marido sobre algumas destas noções de que me fala – na sua resposta encontro algumas contradições terminológicas.
Confunde propositadamente algum rigor nos autores que refere na sua última mensagem?

Hans SW Bricks
Compreendo as suas palavras.
Terá, para me creditar, que saber que não lemos muitas revistas científicas oficiais, que o que lhe falo, falo-lhe com o conhecimento dos bastidores, muito diferente do que sai para o público. Ao mesmo tempo misturado com obsessões de criaturas caprichosas, nós.
Há um desfasamento entre o mundo do conhecimento e os nossos saberes. Dou-lhe um exemplo, quando o húngaro Eugen Wingner recebeu o prémio Nobel em 1963, fez o que muitos fazem: fingem que estão radiantes pela sua descoberta, quando na altura, nos bastidores, já ele próprio tinha de alguma forma descoberto razões para desacreditar a sua teoria e avançar noutro sentido.
Nós misturamos tempos e ideias, num cocktail que usamos sem tempo nem nexo aparente, numa fórmula de conhecimento que, propositadamente, junta épocas e contradições. Mais não lhe sei dizer, talvez a nossa forma de funcionar (tribal, como lhe já referi) seja muito nossa e de difícil compreensão, o que é certo é que não fazemos distinção entre o conhecimento atual e o conhecimento antigo. Saberá que, antigamente, houve experiências que não puderam ser postas em prática por falta de meios tecnológicos e entraves ideológicos – o que não quer dizer que não seguissem rumos válidos.
Mas passemos ao que lhe quero verdadeiramente contar.
Só no episódio suíço do teletransporte de luz é que eu comecei a prestar atenção a esse mundo – apesar de ainda pouco se falar do assunto e de ainda não ter sido complemente assumido publicamente (imagino que o seu marido já lhe tenha dito qualquer coisa sobre isso) – nos bastidores já a coisa roda já desde os anos 80, inícios.

Eva Zuse
Sim, o meu marido referiu-me o facto de terem conseguido a notável distância de 25km num teletransporte controlado.

Hans SW Bricks
Vejo que ele está por dentro, deve ter aberto alguma brecha no muro quase impenetrável do underground científico. Quem sabe até um dia nos possamos vir a encontrar os três.
Pelos meandros por onde me disse que o seu marido anda, acredito já se tenha cruzado com “factos interessantes”.
Imagino que ele não dirá a muita gente o que sabe, sob risco de recuperar dos tempos a morte das bruxas.

Eva Zuse
Como assim?

Hans SW Bricks
Se a Eva ou o seu marido, ou quem quer que seja, falarem abertamente daquilo que ninguém sonha que possa existir e que a comunidade científica se recusa a comprovar, serão crucificados em termos de credibilidade. A metáfora que usei das bruxas, tem a ver com o facto de elas saberem de factos que não se imaginava e que, nalguns casos, ainda hoje, se recusam. A sua morte ardente teve a ver com o medo provocado pelas suas autonomia e segurança.
Se o seu marido, jornalista científico como me disse, editasse algo neste sentido, provavelmente, nunca mais seria visto com seriedade e, aí sim, os seus trabalhos só seriam publicados por revistas light-science ou, quanto muito, inspiração para obras de ficção-científica.

Eva Zuse
Compreendo o que me quer dizer, mesmo os artistas que o fazem de forma sistemática, já que a arte permite a exploração de tudo, são considerados loucos visionários, nunca passando disso em termos de consideração crítica.
Senhor Hans, fazendo um ponto da situação, já percebi que se sentiram estimulados a investigar o teletransporte desde que tomaram conhecimento da possibilidade aberta pelas descobertas de Genebra. 
Entendi que integra uma equipa de investigadores espíritas (ainda que tecnológicos) e que isso afinal é uma fachada.
Já partilhou comigo os ingredientes, nomeadamente nomes-referências do mundo das ciências, que consideram indispensáveis ao vosso trabalho.
Já sei tudo isto e até já prometi secretismo às suas confissões, mas ainda não sei o que é que conseguiram afinal com o vosso trabalho, o que é que está por detrás da tal fachada.

Hans SW Bricks
Vamos então ao assunto.
Durante este processo de experimentação constante e rigorosa fomo-nos deparando, aqui e ali, com resultados inesperados. Sempre com o teletransporte em mente, conseguimos surpreendentemente congelar a realidade. Ou seja, conseguimos perceber que afinal os fotões (com que temos trabalhado especificamente) não saltam de um lado para o outro instantaneamente.
Com a nossa obsessão de tudo medir, decidimos, entre milhões de outros dados, incluir a idade do elemento teletransportado, antes e depois do fenómeno.
Lá fizemos as primeiras 100 experiências e parámos para analisar os dados.
Conseguimos separar o espaço do tempo e congelar apenas um deles, supostamente o espaço. Certo?
A ideia é: teletransporte: o tempo continua normalmente, mas o espaço sofre uma interferência física, a que chamámos o Nó, dobramos o espaço.
Isto será teoricamente o teletransporte.
Conseguiu-se?
Não! Nem pensar.
Os nossos instrumentos de medição ainda não tinham conseguido perceber o inevitável: só a linha do tempo pode ser dobrada, mas (ainda) não a do espaço.

Eva Zuse
Agora acho que preciso de uma ajudinha para compreender o que me conta. Podia-me objetivar um bocadinho a vossa descoberta?

Hans SW Bricks
Se calhar fui depressa demais.
Pois bem, em vez de explorarmos o teletransporte como o imaginamos, uma passagem imediata no espaço, sem gasto de tempo, percebemos que afinal estávamos a ir na direção errada.
Algumas experiências levaram-nos a concluir que o que tínhamos de explorar era a distorção do TA (Tempo Alheio) - que distinguimos do TS (Tempo do Sujeito).
Fomos sempre criando novos equipamentos, para os quais convidámos poucos, mas os mais proeminentes cientistas do underground e, como não temos dificuldades em pagar o que quer que seja, rapidamente fomos evoluindo na nossa própria maneira de pensar. Chegámos à noção de produto ingerível, em vez de equipamento aplicável.
Conseguimos um líquido, pequenas estruturas vivas manuseadas já numa abordagem neo-quântica), que permitiu, a quem o ingeriu, deslocar-se num tempo não contado pelos que o não ingeriram.
Percebemos isso, porque houve envelhecimento do sujeito ativo que ingeriu o líquido.

Eva Zuse
Não sei se percebi bem a diferença entre TA e TS.

Hans SW Bricks
Os primeiros psicólogos radicais da antiguidade tinham razão quando afirmavam que o mundo psicológico era diferente do tempo cronológico. Não sabiam explicar de outra forma, não seria possível então fazê-lo. Se não fossem os poetas a manter vivo o conceito, nunca ele teria mantido a intensidade intemporal e chegar-nos a nós, hoje. (E vivam os poetas!)
Sabe com certeza das linhas do tempo e do espaço. O que provavelmente não saberá é que há várias linhas simultâneas de espaço e tempo (e que nada têm a ver com as OMI). Até agora descobrimos duas linhas para cada uma das modalidades. Temos a linda do Alheio e a do Sujeito. Ambas com leis próprias que ainda estamos a compilar.
Tanto no tempo como no espaço temos a vivência do sujeito e a vivência alheia, o que dá 4 linhas. Através dos avanços físicos, percebemos que isto é um facto. Passa-se é que nunca o fizéramos de forma controlada como agora. Nunca congeláramos nenhuma dessas linhas com consciência, pela embriaguez de se ter conseguido dobrado o espaço.
Fizemos a experiência com um fotão (A). Conseguimos determinar a sua idade antes da experiência e a idade de outro (B) que não foi submetido ao mesmo processo. Fizemos o A “beber” o nosso preparado. No momento imediatamente a seguir verificámos ambas as idades e o A, supostamente teletransportado, estava de facto noutro local, mas tinha um desgaste etário de 3 nanossegundos relativamente ao B, não submetido. Envelhecera durante a deslocação, o que quer dizer que para A a deslocação não foi imediata, mas durou os tais 3 nanossegundos que só ele viveu. Tal facto só pode ter acontecido porque para A o tempo não foi congelado – só para B .
Acompanhou?

Eva Zuse
Sim, desta vez sim.
Já percebi o potencial de maravilhamento envolvido no que me conta. Sinto-me entusiasmadíssima por tudo o que acabei de ler.
Imensamente grata pela partilha.

Hans SW Bricks
Então posso continuar?

Eva Zuse
Há mais?

Hans SW Bricks
Há, sim, quase que lhe poderia dizer que ainda só vamos no hall de entrada.
Pois bem…
O processo de investigação continuou. Começámos a ter resultados cada vez mais interessantes ao nível do controle das linhas, nomeadamente as do tempo.
Como prevíramos, quanto maior fosse a distância entre os locais de partida e chegada, mais envelhecido se encontrava o nosso sujeito, comprovando o tempo necessário do percurso.

Eva Zuse
Então, explique-me, comprovaram a existência dessas linhas a funcionar de forma autónoma?
E avançaram nalguma direção?

Hans SW Bricks
Sim, era impossível não avançar, ou pelo menos não tentar, tal o entusiasmo.
Não lhe posso, honestamente, nunca lhe subestimar a ideia de que o nosso pequeno grupo é completamente desprovido de limites éticos, morais ou outros que tais. A importância deste facto é determinante para que se compreenda que, neste estado de entusiasmo, não conseguimos sequer fruir os patamares de sucesso conseguidos, o nosso imediato desejo foi (comum a todos) o de continuar, sempre mais, sempre mais à frente.
Nem tínhamos pensado nesta direção de pensamento quando iniciámos as nossas investigações, pelo que o inesperado, sobre inesperado e sobre cada vez mais inesperado, nos impediu de parar. Era inevitável o avanço, principalmente porque nem nós sabíamos onde íamos dar e isso era o verdadeiro motor.

Eva Zuse
E agora, em que ponto se encontram?

Hans SW Bricks
Ainda preciso de lhe explicar alguns momentos antes do presente.
Como lhe disse, conseguimos transformar um processo que envolveu máquinas e processos fisicamente até dolorosos, num outro que se resumisse a beber um produto, em completa sintonia de objetivos.
Concluída a fase da constatação da existência de linhas temporais, passámos a uma nova preocupação: outros sujeitos, desta vez macroscópicos. Começámos por pequenos objetos inanimados, fizemos misturas que acabaram mal. Fizemos novas misturas que voltaram a acabar mal. Mediante alguns sucessos, relativos, decidimos avançar.
Dizimámos gerações inteiras de ratos brancos. Desistimos.
Fechámos o dossier dos registos. Desesperámos no sentido do vivo e ficámos concluídos neste ponto, ou seja, chegámos a um beco sem saída.

Eva Zuse
Mas, mesmo não conseguindo avançar, deviam ficar satisfeitos com o que conseguiram. É notável o que me conta.
Além disso, saberá, com certeza, que qualquer avanço científico permite novos passos às gerações vindouras.
Sempre assim foi.

Hans SW Bricks
Sei sim, sabemos, aliás.
Mas, sabe, o que as gerações vindouras farão com o conhecimento conseguido é problema delas. Não nos motiva a paragem e o desânimo da estagnação quase nos fez desisitir.

Eva Zuse
Então quer dizer que não desistiram?

Hans SW Bricks
Quase. Decidimos dar-nos uma última hipótese e fazer a derradeira experiência: pessoas.
Com acesso privilegiado a bancos de DNA, conseguimos recolher amostras únicas de DNA humano de diferentes séculos, de vários territórios e de várias condições físicas. Algumas das amostras eram de facto únicas, irrepetíveis. Investimos tudo nesta última bebida.
Usámos o conhecimento dos efeitos psicotrópicos de drogas como o LSD e criámos um super produto, um que iria ou ter um sucesso estrondoso ou arrasar de vez com o nosso percurso científico.
Procurámos por voluntários, não podíamos experimentar nós próprios sob risco de não conseguir monitorizar a experiência, já que o grupo era pequeno e éramos todos necessários para controlar eventuais desvios.
Tínhamos uma agravante, não podíamos revelar ao mundo o que fazíamos, por isso a seleção de um voluntário ou voluntários teria de ser feita com níveis de secretismo e confiança muito elevados. Este dado revelou-se bastante dificultador, ao ponto de não conseguirmos arranjar ninguém.
O nosso nível de amoralidade não chegou ao ponto de enganarmos alguém sobre o que lhe iria acontecer – até mesmo porque nenhum de nós fazia a mínima ideia do que, realmente, poderia resultar da ingestão do preparado.
Após alguns dias de procura, o prazo para que o líquido se mantivesse com as condições apropriadas terminava e não havia qualquer hipótese de conseguir tudo de novo. Lembre-se que, por ter sido uma última hipótese, usámos tudo o que tínhamos. Não havia hipótese de fazer outro, pelo menos não com as mesmas características.
No último dia do prazo, ainda fizemos alguns contactos, mas nada. Ninguém se voluntariava, nem com pagamentos astronómicos. Perante a pergunta: Vou continuar vivo depois da experiência?, nunca conseguimos dar nenhuma resposta satisfatória.
Finalmente, tivemos de tomar a decisão de destruir o líquido conseguido. Deparei-me, angustiado, com o tubo na mão para despejar no incinerador. O resultado de tudo o que tínhamos feito nos últimos anos e que nos tinha dado sentido à vida. Não consegui virar o frasco. Deitei-o à boca. Perante o assombro geral deitei-o à boca e bebi tudo de uma só trago, antes de a precaução tomar o lugar do risco e da aventura.

Eva Zuse
E então?

Hans SW Bricks
Tudo parou à minha volta.

Eva Zuse
Como assim? Não me diga que…

Hans SW Bricks
É isso que está a pensar.
Resultou.

Eva Zuse
Então podemos dizer que consegui parar o TA?

Hans SW Bricks
Exatamente.
Fundamentalmente, consigo apreender tudo. Parar o tempo para conseguir observar cada fração de cada movimento, como se víssemos cada imagem de uma película cinematográfica, mas verdadeiramente em 3 dimensões e com possibilidades interativas.
Preciso, novamente, de lhe pedir, a cada linha que lhe escrevo, um cada vez maior secretismo. Deste sucesso, nem aos meus colegas de trabalho falei.

Eva Zuse
Os seus colegas não chegaram a saber que teve sucesso?

Hans SW Bricks
Não, disse-lhes que, tirando uma indisposição, nada acontecera.

Eva Zuse
Mas porquê?

Hans SW Bricks
Inicialmente, entrei em pânico. Posteriormente, acabei por ficar envergonhado por não ter dito nada. Agora, simplesmente deixo andar. Logo se vê se digo alguma coisa ou não.
O que ainda não lhe disse é que, no início, de repente, o tempo parava, sem que conseguisse controlar, quer o início, quer o fim dessa paragem.
Agora, volvido algum tempo (de investigação solitária), já percebi os mecanismos mentais que preciso de desenvolver para congelar e descongelar o TA.  
Mas voltando à sua questão, por outro lado, foi bom termos chegado a este beco sem saída, pois permitiu-nos, finalmente (por obrigação das circunstâncias), conseguir teorizar sobre tudo o que foi conseguido. Para que as tais futuras gerações, como referiu, possam ir mais adiante.

Eva Zuse
Pelo que sei do mundo das investigações, haverá com certeza novos termos, novas palavras, os neologismos da ciência. Interessa-me muito esse campo. Tem alguma coisa a dizer sobre isso?

Hans SW Bricks
Pois sim, temos o Dininho.
Não se preocupe, não é o termo científico, mas o nome carinhoso que atribuímos ao fenómeno. (Somos muito dados a estas coisas de dar nomes familiares ao que nos circunda com frequência, como que um vocabulário próprio, nosso.)
Ora bem, o Dininho é um fenómeno conhecido nas ciências não racionais como Êxtase Temporal. O nome científico, atribuído por nós, já que somos os pioneiros na matéria é bastante extenso, daí também a abreviatura. Trata-se do CoTAMATeS Congelamento do Tempo Alheio e Manutenção Animada do Tempo do Sujeito.
É uma experiência que, por enquanto, só eu conheço.

Eva Zuse
Imaginará que me surgem imediatamente inúmeras questões que lhe gostaria de colocar, sendo que, assim de repente…
Como é a sensação de conseguir parar o TA e viver durante toda a imobilidade geral?

Hans SW Bricks
Parar o tempo, no fundo, é apenas parar o movimento. Durante esse período tenho todo o mundo material ao meu dispor.
Vou a todo o lado e faço o que me apetece.
Dou-lhe um exemplo. Se quiser ir a algum local e deixar marcas da minha estadia. Gerará suspeitas da minha atividade durante o congelamento, podem-se até recolher indícios fortes de que eu alguma tenha estado nesse determinado local, mas nada deteta o momento da minha passagem por lá, nem câmaras, nem sensores, nem nada, sendo, em contrapartida, a minha presença confirmada noutros locais… o álibi perfeito para o desconcerto de quem me quiser seguir a pista.

(…)

Beijinhos, Eva Zuse

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