diário - 21.dezembro.2011


Quarta-feira

Recebi hoje o resultado de uma consulta de descodificação que fiz a um grande amigo chamado Goncitro. Sei que ele não é descodificador, mas conhece o meio.
Há cinco dias fui contactado pela última vez pelo Valter (agora Valter Zuse Biningo), uma derivação dos vampiros de chão, uma estirpe tribal que ainda me era desconhecida. Digo última, porque faz parte do nosso plano o seu desaparecimento, para evitar: que nos relacionem, que o descubram e que alguém possa suspeitar sequer do nosso projeto. De qualquer forma, para ter as certezas absolutas que pretendo, ainda vou demorar uns meses, se não anos. Tenho de contactar entidades de variada ordem para confirmar os dados que hoje tenho em minha posse, por isso estabelecemos um prazo de 5 a 10 anos para voltarmos a estar juntos. Por enquanto já tenho o que preciso, a descodificação das palavras; a interpretação dos seus múltiplos sentidos demorará mais tempo. Julgo, contudo, ter tudo claro como água em menos de 10 anos.
O Valter (eu atribuo isso ao facto de nos conhecermos há pouco tempo) vê o meu título de Conde como um elemento distanciador e cerimonial. Mesmo depois de lhe ter explicado que não pertenço a nenhuma das linhagens humanas, mas antes a uma nobreza intemporalista (que tem muito pouco a ver com estratificação social), anterior a qualquer noção conhecida de monarquia humana. É claro que não me aprofundei na explicação de mim, apenas deixei bem claro que não precisa de me galantear como se faz habitualmente aos nobres. No meu mundo ninguém é nobre porque os pais isto ou aquilo, desde Ottmar que apenas se atribuem títulos por merecimento, o que faz uma enorme diferença.
Desde a sua transformação que a revolta é o sentimento dominante na vida do Valter. Conheci-o no primeiro dia da sua nova e longa vida. Senti as suas vibrações perturbadas. Entrei em contacto com ele e cresceu logo uma grande empatia. Mostrei-lhe alguns pedaços da nossa história vampírica comum e começámos a dar-nos com regularidade. A sua grande e angustiante raiva é fruto de ele ter percebido que o seu processo transformador foi apenas o resultado de um capricho. O seu vampai procurava um documento que pensava que ele possuía, chegou à conclusão (apressada) de que ele não o tinha, mas afinal houve foi um ruído na comunicação.
O seu desejo de vingança foi crescendo conforme foi interpretando leviandade e inconsistência no seu carrasco. Acha o Valter que se ele quisesse muito o documento (ao ponto de matar) teria aprofundado a intrusão telepática a que o sujeitou e tê-lo-ia encontrado. Não foi isso que aconteceu: aos primeiros fracassos o vampai Biningo desistiu da procura, apesar de a sua vida humana, nessa altura, já ser irrecuperável. Ficou, portanto, abandonado à sua sorte, sem razão nenhuma para se justificar vivo. Encontrou, na vingança ao seu vampai, o fundamento da sua existência. Na impossibilidade de lhe infligir um dano semelhante ao seu, resolveu criar obstáculos, se não impossibilitar de vez o projeto de vida do Crinto Biningo: a procura dos documentos que explicam a génese, a verdadeira.
Quando o Valter me confidenciou a forma como foi invadido mentalmente pelo Crinto e o tipo de procura a que foi sujeito, percebi que tínhamos de conversar melhor. Há séculos que espero pela parte 2. Desde sempre que me foi confiada a parte 1 do 5BYC (“5 Billion Years Cronology”) ou, como se chama vulgarmente em português, Crónica dos 5. É um documento que faz parte da história na nossa família, os Volada Fox. Foi-nos entregue em mão por Kain e desde então que nos treinamos para compreender os sinais. Foi-nos dito que um dia nos cruzaríamos com aqueles que querem reunir os dois pedaços do 5BYC. Kain sabia que, algures, nos tempos por vir, os 2 pedaços se uniriam de novo para “completar um ciclo de sabedoria sem tempo”, no entanto, não tinha qualquer suspeita sobre quem seria e quais as suas intenções. Passou-nos a informação do tipo de procura que se tem de fazer para que este documento se revele e é baseado nisso que nos temos treinado. Quando o Valter me descreveu o contacto que teve com Crinto apercebi-me imediatamente do que se tratava.
A Crónica dos 5 é um texto muito antigo e obscuro, há grande dificuldade em datá-lo enquanto linguagem escrita (será muitíssimo mais anterior enquanto linguagem emocional, telepática e oral) e uma quase total impossibilidade em determinar-lhe autores. Os gnósticos têm percorrido todas as pistas no seu encalce e referem-no como o primeiro do conjunto de fundamentações a que chamam A única lei. É um documento dividido em 2 partes. Cada uma delas divide-se, por sua vez, noutras duas partes, um texto enigmático e uma folha-rede que permitem, quando sobrepostas, a descodificação do pedaço em causa. No entanto, cada parte descodificada só contém metade de cada palavra escrita. Há que juntar ambas as frações e posicioná-las de forma a conseguir clarificar o texto. Em suma, falamos de 4 pedaços documentais para uma só leitura. Eu sou, portanto, o guardião de uma metade completa.
De acordo com as informações conseguidas pelo Valter junto dos seus, na ilha dos Samer (ilha de onde descende a linhagem Biningo) em São Tomé e Príncipe, teria estado depositada a segunda parte da Crónica dos 5. No entanto, em 1939, numa viagem aparentemente turística, Klaus Zuse, pai de Valter e grande explorador do mundo e das ideias, terá conseguido desviar a folha-rede da parte 2 do 5BYC, tornando a sua leitura impossível, inutilizando-o.
Tornou-se urgente, por parte dos seus guardadores, recuperar o pedaço em falta antes de se poder continuar a procurar o resto do documento. No entanto, a falta de contacto com o mundo exterior dificultou a vida aos Biningo, por outro lado, o receio de pôr em causa o secretismo da sua demanda impediu-os de pedir auxílio.
Percebi que, quando Crinto parasitou mentalmente o Valter, só não descobriu que ele tinha o documento porque nem este sabia que o tinha. O Valter e as irmãs, em noite natalícia, abriram uma certa caixa dourada e descobriram o espólio epistolar do pai. Pouco tempo depois esta passaria a ser gerida pela UNP, mas, antes disso, Valter decidira guardar 5 ou 6 para ele, como recordação – o critério de seleção que usou foi apenas a beleza dos envelopes. Chegou a abri-los, mas, principalmente este, por estar apresentado num enigma, ficou adiado para uma altura em que a decifração lhe apetecesse. Acabou esquecido no fundo de uma gaveta.
Em suma, com as entregas do pedaço que o Zuse tinha, o pedaço que furtou ao Biningo e os 2 que já estavam em minha posse, tenho, pela primeira vez (nunca pensei que fosse eu a completar o puzzle), o conjunto completo.
É claro que, ainda que não possa, nem queira, adiantar-me em interpretações, já dei uma lida (uma?, umas vinte!) à Crónica dos 5. Não é um texto muito extenso, por isso, para aqui o copio. Pelo título sempre pensei, durante este tempo todo, que seria uma cronologia que durasse 5 biliões de anos, agora acho que já percebi o nome: trata-se de uma cronologia do universo, em etapas com 5 biliões de anos cada. (O facto de o último ponto não corresponder a esta ordem pentabilionária, também pode estar relacionado com o facto de ter sido acrescentado ao original, como sugere o tradutor.) Está escrito como que a contar uma história e tem nomes de personagens que navegam entre o simbolismo e um certo tipo de alegoria.
Parece-me importante começar pela carta do Tradutor:
“Caro amigo, a dificuldade em assumir certo vocabulário como decifrado ou traduzido, fez-me proceder a algumas atualizações. Deste modo atualizei para o nosso linguajar a forma de entender a linguagem, presente no texto original. Se o não fizesse corria o risco de transformar um texto codificado noutro semelhante, que me parece não ser o que pretende. Devo referir que, a partir do ponto 6, as ideias aparecem escritas num vocabulário mais moderno, porém ainda suficientemente antigo para não se conseguir traduzir à letra com clareza. Ainda atualizei as datas dos pontos, em conformidade com o datar atual. Em termos comparativos à oficial noção de evolução cósmica, arrisco, na interpretação das palavras, o estabelecimento de dois paralelos: o ponto 5 será o Big Bang e o ponto 8 corresponde ao momento em que um corpo celeste embate no planeta Terra, no episódio conhecido como a Extinção dos Dinossauros.”

PONTO 1 -35 biliões de anos
Ariovaldo dormia um sono longo em uníssono. Em expansão de sonho, o fluido uno impeliu Ariovaldo a sonhar-se tripartido. Três pilares de um só. Ainda que mantendo a sua passividade, o desdobramento singularizou domínios nomeados: Ariovaldo com o espaço, Cremilde com o tempo e Adosinda com o movimento.

PONTO 2 -30 biliões de anos
No sono do Ariovaldo individualizado, o guardião do espaço, compreende-se uma galáxia estática. Todos os corpos que a compõem são o mesmo. Parado na imensidão do todo que só ele é. Apenas a consciência da sua existência lhe permite compreender a sua própria extensão.
Cremilde e Adosinda sem iniciativa, em tentativas de compreensão num processo de observação à capacidade expansiva de Ariovaldo.

PONTO 3 -25 biliões de anos.
Adosinda aproximou-se de Ariovaldo, fazendo flutuar a consciência em movimento. Ainda sem processos temporais, passou a dupla Ariovaldo e Adosinda a tomar diferentes consciências da sua própria localização. Solidificou-se a noção de existência física e das diferenças ocorridas nesse processo expansionista, mas sem a perceção do processo.

PONTO 4 -20 biliões de anos
Cremilde despertou e com ela a noção de tempo. Foram-se experimentando fórmulas em como o movimento e o tempo se concretizaram em etéreo, pensamento e envolvimento emocional. O movimento e o espaço geraram, por sua vez, naturalidade, memória e a multiplicação individualizante dos singulares.   

PONTO 5 -15 biliões de anos
A experimentação a três ocasionou inúmeras contradições moleculares, resolvidas com explosões reconstrutivas. Estas contradições gerariam um padrão de consenso molecular, no qual o trio se dilatou na imensidão incontrolável de tudo o que existe. A sintaxe de cada universo. Todos os universos.

PONTO 6 – 10 biliões de anos
Um acidente cósmico projetou um naco de Adosinda à deriva pelo vácuo. O movimento que gera vida. No seu encalce vai também um pouco de Cremilde, para temporizar, suavizando os ímpetos irrealistas de Adosinda em tudo fecundar.

PONTO 7 – 5 biliões de anos
Adosinda encontra um planeta com rota irregular e embate nele, regularizando o seu papel no sistema em que se encontra. Desse choque nascem os que provocarão o nascimento de outros e outros.

PONTO 8 – 65 milhões de anos
Cremilde encontra o rasto de Adosinda, provocando um embate no mesmo astro onde esta se fixou. O tempo excessivo levado na sua procura impediu a aniquilação total do já brotado.

Adeus
Conde Volada Fox

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