diário - 18.dezembro.2011




domingo



Olá, meu caro

Domingo, hoje é domingo, ainda sinto que é domingo pois, apesar de estar desempregado, ainda não diluí a diferença entre dia de semana e fim da mesma. Só me despediram no dia 6.
A ordem de despedimento chegou-me personalizadamente pela mulher do patrão, a Dra. Jória Costa. Acabou por ser apaziguador falar com ela. Percebi pelas contas que me mostrou (o que é louvável, pois sei de muita gente que foi despedida assim sem água-vai, nem água-vem), que seria impossível manter toda a gente na tradutora. Por ter menos idade fui eu o selecionado, o que de certa forma me parece justo. É daqueles critérios que com o tempo acabam por se virar em nosso favor, já que nem sempre seremos o elemento mais novo.
Ela até me disse que, no caso de ainda não ter arranjado nada até fevereiro próximo, tenho um lugar garantido na florista que ela também administra. Parece que vão expandir o negócio com outras lojas. É claro que é uma atividade que não tem nada a ver com a de tradutor de livros de poesia (maioritariamente), a minha especialidade (e até terei de me munir de alguns conhecimentos que não possuo, pois, para dizer a verdade, não percebo nada de flores), mas não deixa de me confortar, pelo menos não fico sem fazer nada (ou seja, estou temporariamente desempregado, vou tentar viver a coisa mais como se fossem umas férias). Até pode ser que, antes disso, arranje algo mais próximo ou, quiçá, na mesma área (apesar de nem eu acreditar muito nisso).
Fiquei a gostar muito da Dra. Jória e marido, éramos tratados como se fôssemos todos familiares. Lembrar-me-ei sempre de uma frase que repetia bastante, que nos ofereceu uma vez no Natal em jeito de cartão de votos: "Que tenhamos sempre inteligência suficiente para distinguir o que podemos mudar daquilo que temos de aceitar como é.”
Acordei tarde (obriguei-me a ficar na cama – os dias de domingo devem ser curtos pois são extremamente depressivos – pelo menos assim achava quando pertencia à classe trabalhadora). Saí de casa depois de almoço e fui tomar café à Lagoa.
Lá vi a minha ex-professora de História do Desporto (foi uma cadeira opcional), a professora Érica Cortes. Acho que agora já não dá aulas, parece que trabalha na Centoze, já não a via desde o verão. Estava na companhia da D. Khalidah, a senhora do bar/restaurante vanguardista da biblioteca. Acho que têm um caso, pelo menos assim pensa a Mariana (a minha irmã), que trabalha lá. Coitado do Ivo (meu amigo de longa data) que já me confessou que até tem por ela um fraquinho. Eu já lhe disse para se apressar em informá-la, pois primeiro a moça tem de saber que ele gosta dela. Se ela nunca sequer desconfiar disso pode muito bem estar a preparar a sua vidinha por outro lado que não o inclua.
Da última vez que a vi presenciei um episódio de que jamais me esquecerei. Estava na paragem do autocarro com mais umas 10 pessoas. Mesmo coladinha à paragem há uma daquelas cabines telefónicas à inglesa, vermelhinhas, bonitas. O telefone tocou, o que é algo inesperado. As pessoas que como eu esperavam o bus olharam-se para ver se alguém reagia ao som do telefone. De tanto tocar, alguém haveria de lá ir. Nesse momento vinha a professora Érica a passar e achou graça, entrou na cabine e atendeu. Ficámos todos (mais ou menos explicitamente) a ouvir a conversa, claro. O mais inesperado de tudo é que quem ligou até a conhecia. Isto é daquelas coisas tipo euro-milhões. O quadro final desta sequência incluiu um olhar entre todas as pessoas em cumplicidade sorridente, quando se verificou o desenvolver de uma conversa aparentemente infrutífera. Tenho a certeza que todos nós contámos este episódio a pelo menos uma pessoa, que o terá contado a outra, que o terá contado a outra, até chegar a um nível anedótico em que ninguém já acredita (se a situação já é incrível, imagino os pontos acrescentados). Quanto a mim (eu, que nem ligo nada a estas coisas da vida alheia) fiquei curioso para ver a cara da pessoa com quem ela falou. Eles combinaram um café para o dia seguinte na biblioteca local e estive mesmo tentado a passar lá. Lembro-me de ter pensado que corria o risco de me encontrar lá com outras testemunhas que também tivessem ficado curiosas. Olhei bem para elas no intuito de as reconhecer posteriormente, mas acabei por não ir.
Lá na Lagoa tomei café com um cliente da tradutora, o sr. Duarte qualquer-coisa. Temos em comum o gosto por viagens de inverno e até nos cruzámos, acidentalmente há uns 2 ou 3 natais, em Istambul. Falámos de viagens e manifestei-lhe a minha necessidade (agora que estou desempregado) de gerir melhor isso de viajar todos os anos no Natal. Ouvi dizer que há uma agência que tem promoções de viagem para locais recém-fustigados por catástrofes (naturais ou não, caso de sismos, tsunamis, incêndios de verão, etc.). Ora, por receio ou por falta de infraestruturas, as pessoas quererão menos visitar esses locais (de forma compreensível, ninguém descansa nas férias, se não se sentir seguro, nem tiver conforto). A pouca procura faz, obviamente, baixar os preços da oferta. É ótimo para mim! Fiquei até de dar um toque a um amigo meu, o Gino, que sei que também foi despedido.
O caso deste foi diferente, foi negligência dele mesmo. O gajo concorreu com sucesso a um lugar de condutor de carros funerários. O problema é que ele é bastante (BASTANTE) distraído e por inúmeras vezes (não aconteceu mais porque foi despedido) esquecia-se que ia num cortejo fúnebre (pela lentidão de todo o processo – de referir que por cá acompanha-se o carro a pé) e acelerava. No início do aceleranço as pessoas ainda o iam acompanhando, a andar cada vez mais depressa, mas rapidamente abandonavam o cortejo, porque já o carro ia longe e rápido demais. Uma vez esqueceu-se que ia no cortejo e quando passou ao lado de uma farmácia, lembrou-se que precisava de comprar qualquer coisa. Não esteve com meias medidas: estacionou ali num parque e foi à sua vida. Quando voltou estavam as pessoas do funeral a inundar o parque com choros e protestos. Houve bastantes reclamações, principalmente porque se desviava a atenção do morto. Rua!
Voltei para casa e como o tempo não estava convidativo ao passeio fui à minha biblioteca buscar livros de poesia para ler durante a tarde. É sempre difícil escolher pela coleção imensa que tenho, por isso costumo começar a tirar livros motivado por um outro interesse que não o seu conteúdo. Desta vez escolhi os que estavam mais escondidos, por estarem arrumados mais atrás. Os primeiros que me saíram tinham em comum o período pós-25 de Abril português. Acabei por seguir essa linha temática e tirei uns 15 desse mesmo período.
Através daquilo que a leitura me permitiu conceber, não posso deixar de observar que nessa altura se tenham vivido algumas ilusões, motivadas por uma tremenda falta de hábito em viver nisso da liberdade. Para muita gente o sentido de ser livre aparecia associado a fronteiras desbragadas, onde o peso emocional/infantil das palavras associava, por exemplo, a todas as atitudes de autoridade (por mais legítimas que fossem) o adjetivo fascista. A diluição de campos de ação levou a que críticos literários passassem a fazer, dos seus documentos analíticos, autênticas obras de estilo, com lições de retórica até para os próprios criadores analisados.
Mas o que verdadeiramente caracteriza este período de ilusão libertária é a quebra do tema unificador dos seus autores. Ora vejamos, antes do 25 de Abril o que dava sentido ao grupo de criativos existente era a posição comum anti-regime e só pelo facto de ousarem afirmar-se de forma mais ou menos explícita por essa liberdade sonhada (com o risco de verem até a sua integridade física posta em causa – só comparável aos pintores de graffitis modernos, com as devidas distâncias temáticas) já eram tidos em conta, ainda que as suas produções poéticas pudessem não ser da qualidade que emocionalmente se lhes atribuía. Então, a seguir à revolução perdeu-se a solidariedade temática exigida pelo contexto social e agora havia que fazer justiça à liberdade exigida, sendo, portanto, livre. Essa liberdade acaba por ser gerida, quer num contexto de euforia social-política (levando, em muitos casos ao empobrecimento do texto), quer num contexto de assunção da própria possibilidade ilimitada do universo criativo. (Na fuga ao tema revolucionário, mas no desejo revolucionário de viver, encontramos obras de autoras, grandes promotoras da revolução sexual tardia portuguesa, onde o erotismo se impõe como necessidade de cisão com o mundo puritano do regime. Exemplos há assinados por Fátima Maldonado, Isabel de Sá, Maria Teresa Horta, Olga Gonçalves, Rosa Lobato Faria, Wanda Ramos, etc.) Há também, no meio destes dois quadrantes opostos, os que sabiamente os conjugam, revelando que é possível ser ideologicamente comprometido e manter um nível de qualidade poética elevado. A liberdade como ex-libris teve dois expoentes de grande qualidade em movimentos como o Experimentalismo e a Poesia 61, deliberadamente afastados das heranças poéticas do Neo-Realismo e até do Surrealismo. Temos exemplo disso em livros como As palavras só-lidas de Melo E Castro (também em obras de Casimiro de Brito e Gastão Cruz), onde a própria pesquisa que leva à novidade se torna, pela coragem cultural, nova ela mesma, sem nunca perder de vista a concetualidade do momento revolucionário, associando-se (pela revolução que em si é) a ele na mesma medida radical. Estes casos acabam por ser também paradigmáticos por explorarem uma faceta altamente experimental, justamente num contexto onde o académico supostamente elitista se opõe à atitude best-seller do texto popular, valorizado simbolicamente pelo desígnio democrático da revolução. Curioso não deixa também de ser o facto de não haver praticamente textos poéticos dedicados exclusivamente ao tema da guerra colonial (ainda que vocabulário associado se faça representar em variadíssimos autores) sendo o seu fim, como sabemos, uma das mais significativas motivações do 25-Abril. Outros, ainda, marcam esta época numa atitude significativa de silêncio, quer retórico (na ausência tentada de retórica), quer presencial, descrevendo o todo que nunca acontece em nadas permanentes. Vazio perante o todo: humildade ou receio?
É claro que, se numa primeira fase o tema anda à volta das possibilidades de viver de novo e dos seus como e porquê, a partir de 1979-80 já se sentiam sinais do desencanto que isto da democracia representativa realmente representa: o afastamento da vida política por desmotivação (em que participar na vida governativa passou a ser ritualizado em dias certos – o dia de votar - e depois qualquer tentativa de interação não é bem vinda) e a inconsequência da atitude política (como a minha voz de qualquer maneira não tem peso, então posso dizer o que me apetecer–tornando-se o texto destrutivo num adereço inalienável do estar alienado). Sem se poder mover e sentindo-se de novo sem voz, passamos de um extremo em que tudo o que se dizia podia ser consequente até à total irresponsabilidade do poeta, aceite auto e socialmente como tal. A noção desvalorizada da sua existência dá-lhe uma vontade enorme de desvalorizar o todo circundante, numa lógica de olho-por-olho. Estava criado o punk cultural português, niilista como os outros, que se auto-parodia e que se assume sem sentido nem rumo, em autores como Paulo da Costa Domingos, bandeira de um internacionalismo porno-pop - contágio dos EUA e Europa, onde se disseminara. Nem chegamos a cimentar os hippies e já levamos como os punks, poder-se-ia dizer. De facto, apesar das contradições do sistema parlamentar que poderão ter levado às convulsões anti-sistema das décadas de 1960 e 1970 (exemplo do Maio de 68) não chegarem a ter forma consistente por cá, pois pouca era ainda a experiência nesse campo, não impediu que tivéssemos já a consciência suburbanamente emanada de um “no future” moral a descambar no fim de uma qualquer utopia futurista em que alucinadamente se vivia.
Houve, nestes últimos exemplos de atitude, o contrário da velha expressão que diz que o hábito faz o monge. Digo isto porque parece-me evidente que houve aqui na punkização literária portuguesa um estar de revolta que em nada beneficia a manutenção, a conservação, rompendo até com a forma já estabelecida do rejeitar, normalmente associado a noções cheias de pó e de validade duvidosa (questões como a esquerda e a direita, os sindicatos e os governos, enfim, certas podridões institucionais contra outras certas podridões institucionais). Felizmente que assim foi, porque o que costuma acontecer é as pessoas acharem normal e (na maioria dos casos) quererem que se mantenha aquilo a que se habituaram (bom ou mau). Até há quem, na política, costume vestir a roupinha do hábito quando profere pensamentos como “Com este, ao menos, já sabemos com o que contamos”, para impedir que outro venha ocupar o seu lugar, mesmo considerando a hipótese ínfima de ser melhor. Concluímos que nisto dos (bons ou maus) hábitos o que interessa é começar. Depois é só manter e quanto mais tempo se mantiver, maior será depois a resistência à mudança. É assim com tanta coisa, sem ser só na política. O pior é que, como diz um amigo meu tradutor de História, com bastante graça, na origem de muitas das grandes medidas de todos os tempos, alguém dormiu com alguém. Tudo se resume, portanto, a… sexo! Ehehe.
É claro que esta reflexão, a que o livro de Manuel Frias Martins “10 anos de poesia em Portugal, 1974-1984”muito contribuiu e serviu de inspiração, me envolveu de tal forma com o assunto que me senti com vontade de escrever um poema (veremos, com o carimbo do tempo, se dá em poesia). Toda esta temática fez-me apetecer explorar o quinhão revolucionário vivido por cá. De todos os quadros mentais, o que me pareceu mais envolvente corresponderá a um virtual formado por operários fabris, com os respetivos uniformes azuis com letras iguais em todos, os capacetes de proteção, numa manifestação de rua, em desfile. Uma imagem forte de cores semelhantes, movimentos semelhantes, protestos semelhantes. De destacar que a força fabril nestas sociedades industrializadas é vital.
Comecei por pensar como se estivesse a ver uma fotografia tirada a esse movimento contestatário, a seguir nublei-a ao estilo poético do dizer, depois acrescentei-lhe opinião devidamente fundamentada e, finalmente, atafulhei-a com os meus caprichos retóricos. Saiu-me um poema dividido em duas partes, uma nitidamente de um passado, histórico porque hermetizado em si próprio, e a outra nitidamente de um futuro, histérico porque embriagado de si próprio.
E com eles te deixo.

Uma aventura histórica de uma histeria em stereo

I

Evade-se o operário
Que cisma
Outorgado pelo cessar do tópico
Em que se sustenta
Para nutrir o quilate

Desliza negligente
Pela inércia do íntegro
Para se equivaler às sedes e mínguas
De cada vivente
Secreto

Só numa órbitra
Penetrante
De domínio
Se enlaça no acalentar
Do
Ínfimo


II

Foi naquele luar sintético que a
Digitalização dos ossos carbónicos
Se equacionou de forma lógica em
Algoritmos da monstruosidade virtual

Após o que resultaram estranhas
Órbitas mentais protagonistas de
Sinuosas trepidações on-line que
Permitiram, então, ratificar

O despropósito galáctico de sofrer
Na quinta estrela como se os vulcões
Das ventoinhas dos sistemas de ondas

Se projetassem nas vagas nipónicas
De cyber-atitudes em 380K ou mesmo
Nos modelos mais avançados


Edgar Xisto

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