diário - 9.dezembro.2011


           
Sexta-feira

 

Caríssimo amigo 

Inventei tempo, agora, para partilhar contigo o que de inédito até as mãos me queima. Acabei o projeto há umas duas horas apenas. Tive o tempo de comer, ligar o leitor de mp3, lavar o trombil e, numa investida relâmpago, descer ao café da frente para uma eficaz cafezada.
Não sei se te contei antes, provavelmente sim, que ando a escrever (há exatamente 12 anos e 3 meses) um livro cujo rumo me fascina. Provavelmente a mais ninguém… Ehehe. Inventei um mote que desenvolvo mensalmente. Tenho tentado variar na forma da intervenção usando as estratégias mais habituais disso da vivacidade de um texto, como a introdução de situações com diálogo, descrição, reflexões, explicações científicas, poemas, muita ou pouca ação, enfim, vario na forma, no conteúdo, em ambos, tento não aborrecer o eu próprio.
O texto inicial, o referido mote, foi entendido como a raiz de toda a história, sendo que tudo dele deriva. Logo no início decidi escrever a história na atualidade (para evitar o esforço de época, que não me estava nada a apetecer), ou seja, ainda que o mote provenha do início do séc. XIX, a história começou a ser desenvolvida no cenário da atualidade, ou seja, no nosso início do séc. XXI.
Aí uns 4 anos depois de ter começado a escrevê-lo, dividi o conto em três. Passei a desenvolver, à vez, um conto analéptico (a passar-se exatamente 200 anos antes, no início do século XIX, desenvolvendo o próprio mote), a história principal (no início do séc. XXI) e uma história proléptica (a acontecer duzentos anos depois, no início do séc. XXIII).
Ora, o acontecimento principal do meu dia de hoje foi o dar por terminada uma dessas intervenções literárias (em jeito de página de diário), nomeadamente uma proléptica, que me ocupou, em reclusão total, os últimos 5 dias. Desta vez não o fiz para filosofar em tempo real, nos sites que frequento, mas (pela primeira vez) para escrever. Normalmente cozinho a ideia uns dias e passo-a para papel apenas num. Desta vez quis experimentar outra coisa, outro tipo de envolvência.
Antes ainda destes últimos 5 dias clínicos fui visitar uns amigos a Pias. Pias é uma vila do concelho de Serpa, no distrito de Beja. A origem do nome advém de vários fatores possivelmente combinados para reforçar a ideia. Ou seja, na zona havia extração de granito e, ou o nome vem das saliências rochosas retiradas, usadas para dar de comer e beber aos animas, chamadas pias, ou vem dos próprios buracos que ficavam nas rochas provocados pelas extrações e que se enchiam da água das chuvas, que também se chamavam pias. Um dos pontos atrativos em Pias é a Ermida de Santa Luzia, associada a uma lenda religiosa. Conta-se que a água que lá existe (poço) rápida e eficazmente suavizou os efeitos de sol e poeira que queimavam os olhos de uns cavaleiros que ali passaram. De tal forma foi evidente o efeito curativo, que foi mandada ali erguer a dita capela por D. Nuno Álvares Pereira, associando a milagre a dita cura. Há outras atrações, como a gastronomia, com óbvio destaque para o cozido de couves, a sopa de poejos, a variada e abundante caça e, claro, o porco preto. Não podia deixar de referir o célebre dito de que me lembro sempre que ouço o nome desta localidade: “Lá vai Serpa, lá vai Moura e as Pias ficam no meio / em chegando à minha terra já não há que ter receio”.
Para além dos já referidos motivos de interesse em Pias, o vinho da região marca decididamente uma forma de estar, ou não fosse essa a razão que lá me levou: acompanhar um amigo a um encontro de escanções. (Nunca tinha assistido a nada do género, pelo que aceitei o convite na hora.) Tratou-se de uma prova de vinhos, em jeito de celebração desta arte e também de promoção de parte da economia local.
De referir que as palavras escanção e escansão são homófonas, o que por vezes provoca algumas confusões. Escansão, assim com S, é o nome técnico que, no mundo das literaturas, nomeadamente nas poéticas, se dá à contagem das sílabas métricas de um verso (que difere da outra contagem de sílabas, pois nas métricas une-se início e fim de palavras se terminadas e começadas por vogal e só se vai até à última sílaba tónica do verso). Ou seja, em vez de se dizer que se vão contar as sílabas métricas de um verso diz-se que se vai fazer a escansão de um verso. Já o outro escanção (o que nos interessa), o com Ç, refere-se a uma arte/capacidade de provar vinhos e de lhes identificar características tecnicamente predefinidas. Diz-se desta profissão que já há relatos da sua existência (noutros moldes, obviamente não tão sofisticados) desde o tempo de D. Afonso Henriques. Então eram cavaleiros de renome que tinham a função nobre de escolher e servir o vinho ao rei. Evoluiu, portanto, desde a corte aos restaurantes dos nossos dias, quando, desde as décadas de 1960 e 1970, se começaram a valorizar os restaurantes enquanto espaços de tertúlia, dando um fôlego nunca visto aos serviços gastronómicos mais luxuosos (entre eles o serviço de vinhos).
O interesse desta viagem a Pias para o tema do dia de hoje prende-se com a viagem de regresso. Parámos em Beja para tomar uma cafezada e vimos um cartaz a anunciar, no Museu Regional da cidade, uma exposição “Descobertas e Conclusões de António Damásio”. Fiquei empolgado pois, para além do interesse do tema em si, serviu de inspiração científica para a página de diário que escrevi do Bluro O’Sor Hip.
António Damásio, este português residente no estrangeiro (California, EUA), nasceu em 1944 em Lisboa e é um dos mais conceituados neurocientistas do mundo, especializado no estudo das emoções humanas (em tomadas de decisão, conduta, linguagem, memória) na perspetiva do funcionamento do cérebro. Licenciado e doutorado em Medicina pela Universidade de Lisboa, já publicou algumas obras, autênticos best-sellers, como “O Erro de Descartes” e “O sentimento de si”. Voltou recentemente à carga com a obra “O livro da consciência”. A Honda Foundation, no ano passado, em 2010, atribuiu-lhe o prémio Honda (no valor de 80 000 euros).
Todo este materialismo ajudou-me a contextualizar melhor a parte científica do conto.
Ainda antes de incluir o diário no livro, quero falar com a Francisca Luis. Quero saber se ela pode ler o diário do Bluro a algum espírito para ele dizer se é completamente descabida a minha visão do futuro. Quero perguntar-lhe se, lá na organização espírita a que ela pertence, têm serviços relacionados com Adivinhação. Sei que contactam com pessoas já falecidas (mas não sei se atuam em relação ao futuro). Parece-me que sim, porque sei que se costumam consultar Orixás para previsões e eu tenho a certeza que ela já me falou de Orixás na sua prática profissional. Na Adivinhação tentam-se encontrar cenários de futuro, através da leitura de sinais. São inúmeras as possibilidades de adivinhação: Astrologia (pelos corpos celestes), Augúrio (pelo voo dos pássaros), Aurospicina (pelas entranhas dos animais), Cartomancia (pelas cartas), Cibermancia (recente – pelos computadores, não sei como…), Cristalomancia (pela bola de cristal), Geomancia (pelos pontos vitais da terra), Hepatoscopia (pelos fígados de animais ou de vítimas), Hidromancia (pelo movimento da água nos mar ou rio), Numerologia (pelos números), Oniromancia (pela interpretação dos sonhos), Piromancia (pelo fogo), Quiromancia (pela palma da mão) e, claro, a mais famosa, a Taromancia (pelas cartas de tarot), entre muitos, muitos outros.
Antes de passar diretamente ao que escrevi, refiro-te, a propósito, que fiz amizade com um médico há um tempo atrás, o Dr. Pacífico. Contei-lhe da ideia que estava a ter para esta intervenção literária e ele ofereceu-me uns comprimidos que servem para reduzir ao mínimo a capacidade emocional do indivíduo. Normalmente são administrados a pessoas com as emoções desreguladas.
Tomei-os durante 3 dias, ora hoje é sexta-feira, foi na segunda, na terça e na quarta. Ontem e hoje já não tomei para não deixar que a falta de emoções me toldasse o brain. Se o fiz foi para criar um diálogo entre “sábios”. Durante esses 3 dias só escrevi esse diálogo, reescrevi-o umas 20 vezes, cheguei a apagar tudo e a começar de novo, enfim. Nos dois dias seguintes (ontem e hoje) escrevi tudo o resto que não o diálogo propriamente dito. (Não desenvolvo a história dos “sábios”; porque a continuação da leitura o fará na altura certa.)
Em suma, hoje terminei mais uma extensão do livro que ando a escrever e desta vez fi-lo na forma de página de diário, neste caso, de um membro da família O’Sor Hip. O’Sor Hip é o nome da primeira família constituída de que há registos com descendentes do primordial big-foot – primordial, pois vários foram os cruzamentos até ao seu regresso à total inclusão social. Ficou-lhes, na herança genética, a notória superioridade física, seja no porte agigantado e forte, seja na destreza de movimentos e rapidez de execução. Sempre ruivos, eles e elas, forte e fogosamente ruivos.
Aqui vai portanto uma página de um diário numa página de um diário (as minhas desculpas pelo indefinido, caro amigo diário único, mas o estilo assim o exigiu), no dia em que nos entristecemos pela morte (em 1854) do escritor Almeida Garrett e nos alegramos pelo nascimento do ator Kirk Douglas (em 1916). 

E assim me fico, Carlos Barbosa de Cunha e Silva
 

Amigo Diário, 5 de maio de 2227

Como sabes, a minha relação contigo tem a ver com a necessidade de deixar registadas as informações (devidamente documentadas) que o governo impede que circulem. Deixo-tas aqui por saber que nestes formato e alojamento dificilmente algum político lhes conseguirá ter acesso para os alterar ou apagar. A palavra-passe que permite o acesso a este banco de dados, é criada de forma aleatória e só daqui a 100 anos o acesso ao “cofre online” ficará desimpedido (o sistema assim funciona: 100 anos de proteção e depois acesso imediato, mas os documentos ficam sempre lá, podem-se descarregar, nunca apagar).
Se hoje te cá venho deixar uma página deste diário confidencial (até às mais altas esferas) é porque a considero da máxima importância. Faço parte de um grupo de ativistas cibernéticos (E-Snail) que pretende que a verdade não seja posse de alguns, quando a sua importância se estende para lá do raio de consequência dos seus universos privados. Ou seja, se um ministro for apanhado na cama com a mulher do vizinho, é-me indiferente. Já se o vizinho for o cabeça de lista do maior partido da oposição as coisas mudam de figura.
Ora se hoje cá venho é porque tenho, de facto, algo de muito importante a deixar. E tenho. Trago um dos relatórios filosóficos proibidos pela administração central.
Desde o início do séc. XXII que se conseguiram isolar, até ao mais ínfimo detalhe, as partes do cérebro que orientam tudo o que fazemos, sentimos, enfim. É importante lembrar isso, pois essa descoberta está na origem de um dos fenómenos que caracteriza os nossos tempos: o Pentágono dos Sábios (PdS). Se antes havia noções como deus, deuses e qualquer outro tipo de mitologias e sobrenaturalices e essa era a característica principal desses tempos, hoje tudo isso foi substituído pelo PdS (a supervalorização do intelecto humano) e essa é a nossa marca na cronologia. Desde que os materialistas ultrapassaram a velha questão entre o hemisfério esquerdo (lógica e comunicação) e o hemisfério direito (simbolismo e criatividade) e entraram nas subfunções de todos as partes do corpo (sem exceção), que conseguiram descobrir tudo o que nos orienta… e desorienta.
Desde essa grande avalanche de descobertas e do período de euforia intelectual que se seguiu que as atenções se viraram para os componentes químicos que despoletam ou bloqueiam essas funções, até que se criaram as EC (Entradas Cerebrais), medicamentos que têm justamente essa função, a de abrir e fechar portas no cérebro. Hoje temos a possibilidade de, pensando na competência que precisamos ver mais ativada, consultar o médico responsável e em seguida basta tomar a EC certa. As EC que nos são disponibilizadas têm uma eficácia de 30 horas aproximadamente. Estas são as que nos autorizam tomar, no entanto, há outras que só podem ser administrados em ambientes controlados e que têm uma eficácia previsivelmente avassaladora. Sabe-se pouco. Há muito secretismo nisso e parece-me que é para continuar. O Panspermia Project (PansP) já veio anunciar um quadro legislativo que promove características humanas recomendadas. A desculpa, nos últimos tempos tem sido sempre a mesma: como vamos deixar a Terra temos de nos unir como Humanidade e, portanto, pôr de lado, idiossincrasias desviantes.
Somos governados por uma partilha de poder. Ou seja, temos uma liderança política bicéfala: os dois partidos governantes foram os únicos, dos milhares que havia (e ainda há), com visão, primeiro transnacional, depois transplanetária: o POR e o PansP, liderados por Ronnie Santos e Carl Sagan, respetivamente. Apesar das divergências processuais, mais do que ideológicas, ambos os líderes estão unidos desde a inauguração da Angelo Secchi, a primeira Base de Terraformação Marciana. Depois desta, já outras foram instaladas noutros locais de Marte e até noutros planetas.
É também projeto dos dois partidos, a criação do PdS. Este projeto, como o nome indica, é composto por cinco Sábios e funciona basicamente assim: são selecionados cinco pessoas (nunca é consensual a escolha dos nomes) a quem, através de EC são completamente bloqueadas as competências emocionais (para promover a completa racionalidade) e individualistas (impedindo o desejo exacerbado de vencer) e ampliadas ao máximo as competências racionais (para permitir o pensamento argumentativo científico) e cooperativas (promovendo a vontade de chegarem coletivamente a uma ou várias conclusões). Depois colocam-nos num espaço reservado e dão-lhes um tema (que pode ser um título, uma pergunta, uma lista de pontos, etc.) para debaterem. O processo filosófico em curso pode demorar algumas horas ou até dias seguidos. No fim, quando os Sábios acham que já chegaram ao fim da discussão, elaboram um documento em jeito de relatório filosófico. Todos os anos são escolhidos novos Sábios cujos nomes se mantêm em anonimato, sendo apenas referidos por números.
Agora, o que me fez aderir aos E-Snail foi a forma como esses relatórios chegam ao grande público. No início era tudo transparente. O PdS emitia os seus documentos filosóficos e a população tinha acesso, havia debates, faziam-se alterações sociais, encaravam-se os problemas de frente e com consciência. É claro que, de vez em quando, saíam relatórios polémicos, que mexiam com os poderes e as verdades estabelecidas. Houve principalmente dois que marcaram a decisão de os censurar: o da igreja e o das heranças. Rapidamente, o da igreja foi tão forte que está na origem do fim dos credos (hoje são apenas elementos museológicos): o das heranças, onde se chegava à conclusão que era imoral, até criminoso herdar fosse o que fosse (hoje só se pode herdar até 10% do património herdável graças à legislação que foi elaborada a partir do relatório do PdS).
É claro que começava já a haver demasiadas mexidas no poder por causa do PdS e os governantes decidiram: primeiro, serem eles a levar os temas aos Sábios, que antes eram propostos por grupos de cidadãos independentes; depois, deixaram de exibir os relatórios crus, como lhes chamavam. Criou-se a Comissão de Acompanhamento pela Calma Social (CACS), que não faz mais do que censurar os relatórios. Ficou legislado que esta comissão só pode retirar até 20% do material linguístico, mas como ninguém os controla, não se sabe bem qual a diferença entre o texto original e o publicado.
De vez em quando zangam-se as comadres e descobrem-se as verdades. Já há uns anos a esta parte que começaram a sair alguns relatórios crus, apesar da apertada vigilância que rodeia estes meandros. Foram presas já 80 pessoas ligadas à obtenção, armazenamento e divulgação desses relatórios (apesar de continuar a haver a possibilidade de os conseguir). Assim, agora o sistema funciona de outra forma. Temos estes novos cofres online, que não nos permitirão abri-lo em vida, mas que asseguram verdades para o futuro. Se nós não podemos usufruir das verdades alcançadas, pelo menos que os nossos descendentes tenham essa possibilidade e alterem o que vai estando mal.
Mas vou-te deixar com o relatório que me traz aqui. É claro que, antes de o guardar por 100 anos, li-o e fiz umas cópias (tenho de as distribuir cuidadosamente para que o meu nome não surja associado a elas). Mesmo assumindo o risco que é grande (os envolvidos capturados apanharam 20 anos de prisão cada um) acho que tenho de o fazer pois este parece-me até mais bombástico que qualquer um dos outros. Com este, sim, as estruturas até vão tremer. 

Um abraço, Bluro O’Sor Hip



 

Relatório Filosófico nº312
Tema: A democracia existe?
Pentágono dos Sábios, 2227
 

1 - Da forma como eu vejo, é assim: há um processo eleitoral, certo?
5 - OK, que eu saiba, ninguém está preso a isso de votar, o que quer dizer que nem vivemos num país onde só alguns podem votar, nem vivemos naqueles países onde é obrigatório votar.
1 - Entendamos que a população é convidada a votar e exerce esse direito se o quiser ou não.
2 - Certo, até aqui tudo bem, vivemos num país suficientemente moderado para ser interessante.
5 - Então se está tudo bem, porque há manifestações? Quem são esses que se manifestam? E com que legitimidade moral o fazem?
1 - Assim de repente parece-me que são as pessoas dos outros partidos, os que não ganharam as eleições.
4 - Mas fazem barulho porquê? Mau perder (birra institucional-partidária)?
1 - Houve corrupção nas eleições? Os resultados não são legais? Não é nada disto?
3 - Então expliquem-me com que objetivo é que alguém vem para a rua fazer barulho contra a opinião da maioria?
5 - Vamos ver a coisa de outro prisma. O que reivindicam as pessoas que se manifestam?
2 - Pelo que tenho observado, há duas reivindicações sempre nas manifestações: A demissão do governo (contra o ato eleitoral em que foram democraticamente eleitos?); Que esta ou aquela política sejam alteradas (contra a vontade expressa do povo que elegeu aquele partido para governar sufragando as políticas que lhe são inerentes?)
4 - Tanto uma como outra parecem-me uma falta de respeito pela população que democraticamente exerce o seu direito de voto e quer ver a coisa respeitada.
5 - Além do mais, os partidos contra quem há manifestações são sempre os mesmos a regressar ao poder, pelo que ainda mais me parece que estas são apenas expressões de minorias ruidosas, as chamadas gritarias populares (contra a maioria silenciosa que acaba sempre por votar nos mesmo partidos).
2 - É um gritar por gritar, pois raramente tem o efeito pretendido.
4 - Será apenas o prazer de gritar que está em causa? Será por isso que estas pessoas levam com o epíteto de profissionais da gritaria?
3 - Ainda voltando às reivindicações. Se o governo se demitir, vai para lá outro. (o que quer dizer que continua a haver gente na oposição e, portanto, vai continuar a haver manifestações); se a política mudar, vamos continuar a ter pessoas descontentes (é a eterna história da dificuldade em agradar a gregos e a troianos – o que quer dizer que irão continuar as manifestações).
2 - Ou seja, se as reivindicações de uma manifestação tiverem efeitos práticos, será apenas o trampolim para novas manifestações (com as pessoas que não se manifestaram antes).
1 - Mas eu ainda não perdi a esperança de um dia participar numa manifestação. (I have a dream.) Um dia vai haver uma manifestação a exigir mecanismos de controlo aos partidos que estão no governo (sejam eles quais forem) e nessa eu vou entrar.
5 - Vai haver uma manifestação a exigir a possibilidade de votar esta ou aquela política (e nessa eu também vou entrar).
4 - Vai haver uma manifestação que não fale mal deste ou daquele político (pois está a ofender as pessoas que neles votaram e está a ofender o próprio processo democrático), mas que exija a possibilidade de o cidadão intervir, não só de quatro em quatro anos (lembro que quatro anos tem 1460 dias e nós somos chamados a intervir em apenas 1), mas sempre que for necessário (e nessa é que eu vou entrar).
1 - Além de tudo o referido, todos nós conhecemos pessoas que votaram neste ou naquele partido e depois se desiludiram.
4 - Porquê?
1 - Porque votaram na abstração que é o partido e não votaram nas medidas concretas.
2 - O que as desilude não é o partido, mas tão só o seu comportamento legislativo. O que elas gostariam que tivesse sido diferente, não são as pessoas sequer, mas tão só as leis que regem o todo em que nos movimentamos.
5 - Parece, por isso, que seria de bom tom exigir mudanças no regime que temos em vigor.
4 - Democracia representativa, sim, mas apenas q.b. Sempre que alguma questão se tornar polémica, deve ser referendada.
1 - Devemos, temos essa obrigação moral, de exigir processos de democracia direta, a única verdadeiramente democrática. (Nessa manifestação eu entro.)
3 - Temos alguns casos exemplares de aplicação da democracia direta, como o são a Suíça e os EUA (só para citar estes dois, mas há mais). Na Suíça basta reunir 20.000 ou 50.000 assinaturas (conforme o caso) para que uma pergunta seja levada à população com efeitos vinculativos. Nos EUA, por exemplo, juntamente com a última eleição presidencial, os eleitores votaram dezenas de referendos.
5 - De referir que nestes países, a maioria das manifestações que têm lugar são manifestações de campanha a favor desta ou daquela causa a ser referendada. Ou seja, as manifestações não são abstratamente contra o governo, mas concreta e assumidamente a favor de uma determinada alternativa (assumida publicamente, não como por cá), que estará na calha para ser votada.
1 - Em suma: as pessoas aí manifestam-se, não para destruir, mas para convencer.
4 - Mesmo assim, mesmo conhecendo estes exemplos, parece-me que ainda se podia ir mais além na verdadeira democracia que, neles, já é excelente em comparação com o nosso caso.
5 - Uma vez instaurado um sistema verdadeiramente democrático (e não a perpetuação desta oligarquia democrática, farsa social chamada de democracia representativa, representativa, representativa, mas pouco!), acredito que deixasse de haver a capacidade de mobilização contra certas políticas, pois essas mesmas estariam reguladas pelo voto popular.
1 - No entanto, a razão que me parece a mais interessante de todas é uma que advém da memória que tenho dos (míseros dois) referendos realizados cá em Portugal: a informação da população.
5 - Lembram-se do referendo à Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG)? Alguma vez a população esteve tão informada sobre esse assunto do que nessa altura?
1 - No que me toca, depois dos imensos debates a que assisti e dos artigos de opinião que li, fiquei com uma opinião mais fundamentada para votar.
4 - É de crer, por isso, que cada referendo fosse despoletar debates semelhantes e manifestações de opinião que nos permitissem estar mais por dentro do assunto e decidir em consciência.
1 - Este processo de informação da população e o facto de ser chamada a intervir, torna-a mais responsável, mais envolvida e, portanto, menos propensa a dizer disparates, como acontece no nosso quotidiano.
2 - Podemos pensar na analogia entre a maturidade de uma criança a quem nada ou pouco é exigido e a de uma outra a quem muito se pede de opinião (com a devida relação causa/efeito).
5 - Há, no entanto, um elemento perverso na sociedade que tem uma relação direta com o clubismo. Quando os adeptos de um clube vão ver um jogo da sua equipa só aplaudem as jogadas dos seus, independentemente de serem melhores ou piores do que as do adversário. Num jogo, onde o elemento lúdico é preponderante e inconsequente, qualquer opção comportamental é justificada, quanto mais não seja, porque o espetáculo (enquanto realidade) permite o capricho.
2 - Daí compreender-se que haja pessoas inscritas num determinado clube, fãs de uma determinada banda rock ou DJ, seguidores atentos de um determinado escritor ou pintor, etc., numa lógica de capricho, uma certa sustentável leveza do ser (contraponto da outra).
3 - O que é perverso no nosso mundo é que haja pessoas que sejam filiadas num determinado partido e que tenham o mesmo comportamento dos sócios de um clube de futebol, ou seja, que sejam incapazes de ver as boas ideias de outros quadrantes políticos e acabem sempre por votar no seu. Isto não é inconsequente, é perverso.
5 - Não respeita a consciência individual (que é a única que verdadeiramente existe, tudo o resto são abstrações), mas promove o carneirismo partidário, cego, portanto.
4 - Costuma haver uns mitos quanto à envolvência da população nos referendos. Diz-se que cá em Portugal não há cultura de referendo e por isso as pessoas afluem pouco.
5 - Mas eu pergunto: quantos referendos é são necessários para criar essa cultura? (2 ou 3 não chegará certamente, há que fazer mais).
4 - Um outro é o facto de as pessoas votarem mais emocionalmente do que racionalmente. Mas eu pergunto: não são as mesmas pessoas que escolhem os governantes? (E aqui, já não são irresponsáveis?)
3 - Até acho que os governantes tinham tudo a ganhar em referendar as sua próprias medidas – ajudá-los-ia a legitimá-las e a descredibilizar as arruaças.
2 - Mas alerto para uma questão: não se pode negligenciar o resultado de um referendo. Digo isto porque me lembro da vergonha que foi o que aconteceu com o referendo da IVG. Falo contra mim, porque prefiro o resultado do segundo referendo, ou seja, a vitória do SIM à liberdade de escolha por parte da mulher. No entanto, parece-me deplorável que o resultado do primeiro só tenha vigorado até à mudança de governo. Que depois outro governo tenha voltado ao mesmo referendo, em desrespeito pelos resultados obtidos, desrespeitando, por sua vez, a liberdade de escolha da população.
4 - Por fim, em nome da transparência da vontade popular, sugiro ainda que os deputados sejam eleitos por número de votos conseguidos e não pela percentagem.
3 - Os deputados têm de aprender a cativar as pessoas. Não se podem encostar à questão da percentagem, se não, qualquer dia, votam 5 ou 6 pessoas e isso chega.
1 - A abstenção é uma expressão muito significativa porque imensa.
5 - Aliás, excetuando as pessoas que votam em partidos, todos os outros (quer se abstenham, quer votem em branco, quer votem nulo) não se sentem devidamente motivados para escolher uma cor política e por isso não aceitam o convite para participar nesta palhaçada. 

 
 
 
 
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