Relatório de Ocorrências



Ocorrência nº: 1032

Fenómeno : passagem interdimensional

Local: sala de estar em casa de habitação, Duplex T4, Urbanização Leopardo Digital, Bloco 22M, nº 24, Vila Nova de Santo André

Ocorrências: novembro.2010

Intervenção: fevereiro a maio.2011 (10 visitas)

Denunciadores: casal Rui e Sandra (os moradores)

Pretensões: identificação do fenómeno - purificação dimensional

Resultado: fenómeno identificado; dimensão purificada sem intervenção

Data: 19 maio.2011

Equipa: (coordenador médium) Dra Francisca Ament Luis; Joana Tuchulcha Terrano, Carlos Itonde Mendes, Tiago Kala Danilo





Introdução:



No início de novembro (aproximadamente no dia 2), com a intensificação das chuvas, no teto da sala de estar do casal Rui e Sandra (RS) apareceu uma pequena mancha que estes atribuíram à humidade, até mesmo porque a casa onde habitam tem um historial nesse sentido. Mais ou menos a partir do dia 10, a suposta mancha de humidade desenvolveu-se em três formas distintas, uma forma redonda ao centro, ladeada de duas elípticas, semelhante a uma ventoinha de teto (prova 1). Nada, no entanto, levaria os denunciantes a imaginar que se trataria de mais do que de humidade. No dia 17 de novembro, quando o sr. Rui foi à sala logo pela manhã encontrou, mesmo debaixo da mancha do teto, um bocado de papel contendo uma lista de mercadorias (prova 2). No dia 22 de novembro, a D. Arminda (a empregada de limpeza) dos RS, tendo sido a primeira a entrar na sala, encontrou, no mesmíssimo local, uma lista de ingredientes (prova 3). Sem conseguirem encontrar justificação racional para, não só o surgimento das referidas listas, como a relação entre estas e a mancha do teto, os RS entraram em contacto com os nossos serviços no dia 26 de fevereiro. No dia 28 de fevereiro fizemos a primeira visita à casa.






Visitas

Nº 1 – 28.02.2011.Explicações. recolha de provas (1, 2 e 3).

Por ser a primeira vez que nos deslocámos à casa do casal RS e por nunca ter havido nenhum contacto entre nós, foi necessário proceder às apresentações. Fizemos uma breve, mas incisiva entrevista ao casal. Ficámos a saber que pediram uma avaliação de construção civil à mancha do teto e que foi negada qualquer possibilidade de ser humidade. Foi a inexplicabilidade do fenómeno que levou a que os RS decidissem seguir a opinião de um amigo que lhes aconselhou os nossos serviços. Ficámos igualmente a saber que os RS não só desconhecem por completo o nosso tipo de atividade, como também nunca tiveram nenhum tipo de contacto com qualquer informação espírita. Para além disso, a curiosidade que nos revelaram e algum ceticismo dão-nos a entender que vamos ter de explicar tudo muito bem. Desta forma decidimos ter uma conversa introdutória sobre nós próprios, cujos pontos fundamentais aqui resumimos:
YamaGIP – Grupo de Intervenção Paranormal.
(Yama - deus hindu da morte)
Antes de mais, parece necessário explicar que cada agente espírita deve (se bem que não obrigatoriamente) escolher um nome-avatar, normalmente extraído de mitologias da morte, e integrá-lo no seu. Desta forma:
-Francisca Ament Luis (Ament – deusa egípcia)
-Joana Tuchulcha Terrano (Tuchulcha – deusa etrusca)
-Carlos Itonde Mendes (Itonde - deus africano)
-Tiago Kala Danilo (Kala - deus hindu)
Somos espíritas neo-kardecistas.
Adotámos o termo espiritismo kardecista, não só para evidenciar respeito à doutrina codificada por Alan Kardec, mas também para nos distinguirmos de outras formas de espiritismo, como o Umbanda (culto afro-brasileiro); os Roustainguistas (seguidores da obra Os Quatro Evangelhos, de Jean-Baptiste Roustaing, onde se defende, por exemplo, que a matéria do corpo de Jesus Cristo é diferente da nossa); os Racionalistas Cristãos; o Ramatismo (de influência oriental mais visível); entre muitos outras formas de espiritismo.
O espiritismo caracteriza-se pela interseção das três formas clássicas de conhecimento: a ciência, a filosofia e a moral. Se somos neo-kardecistas é porque já houve uma evolução relativamente a Kardec e aos princípios fundamentais da Doutrina Espírita publicados em 1857 n’O Livro dos Espíritos. Ele continua a ser a grande referência terminológica e o exemplo unificador de todas as correntes espíritas mundiais, mas nós centramo-nos mais no binómio ciência/filosofia. A moral, enquanto variante a considerar na nossa atuação de grupo, dado o contexto de liberdade de culto e relativismo ideológico dos nossos tempos (e por nós adotados), não é pertinente, tornando-se, nalguns casos até, um obstáculo. No entanto, as opções dos membros do YamaGIP são questões pessoais. Para lhe dar um exemplo da diversidade dentro do nosso grupo, repare que, por exemplo, o Tiago Kala Danilo insere-se num contexto espírita-hindu, defendendo a reencarnação (enquanto processo evolutivo de aperfeiçoamento) e a metempsicose (possibilidade de reencarnação em animais ou vegetais, num processo involutivo).
Esta liberdade de crenças só é permitida dada a total ausência de hierarquia sacerdotal do espiritismo e da inexistência de culto a imagens, altares, locais, figurações em geral.
Quando o nosso mentor, Allan Kardec, ouviu falar das mesas que giravam e dos objetos que inesperadamente se animavam, disse: "Eu crerei quando vir e quando conseguirem provar-me que uma mesa dispõe de cérebro e nervos” e acrescentou: “fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão em todas as épocas da humanidade”. Foi com este espírito de fé raciocinada que Kardec iniciou as suas investigações e só após dois anos de pesquisas intensas, onde presenciou acontecimentos credíveis e conseguiu distingui-los de todos as outras falácias ou charlatanices, é que se convenceu da existência de espíritos, nome técnico para as entidades promotoras de fugas, possessões, assombrações, etc.
Além do mais, a formação humanista de Kardec não poderia circunscrevê-lo a uma pesquisa meramente naturalista: era necessário dar algum suporte científico à espiritualidade humana num século em que já se sentia o recuo da credibilização das religiões no discurso público. É claro que a cientificidade tem de ser entendida à luz dos progressos de então, hoje já não “contactamos” através de pancadas de pés de mesa convencionadas para “sim” ou “não”. Exploramos, por exemplo, a psicografia ou escrita automática – escrita produzida por um vivo possuído por um morto, um tipo de comunicação feita entre espíritos encarnados (vivos) e espíritos desencarnados (mortos).
Caso haja algum interesse em investigar explorações do tema, recomenda-se o departamento editorial da FEB (Federação Espírita Brasileira), que possui um catálogo de mais de 4000 títulos em livro (baseados na obra de Kardec, sob a forma de romances, mensagens, contos, crónicas, textos científicos e filosóficos), mas também em CD-ROM, CD, etc… Os 15 milhões de adeptos que o Espiritismo tem a nível mundial aconselham a editora da FEB como uma das melhores fontes.
Para além dos aspectos doutrinais, existe uma diversidade de práticas que vêm suscitando uma crescente curiosidade dos pesquisadores da área – a ectoplasmia, psicoquinesia, levitação, telepatia, clarividência, clariaudiência, pré-cognição via onírica, psicografia, psicopictografia, medicina e cirurgia mediúnica, etc. Tendo em conta que o espiritismo envolve objetos de interesse não abordáveis pelos métodos científicos, Kardec terá fundado a ciência espírita, adotando uma postura teórico-metodológica própria.
Uma das instituições espíritas que habitualmente nos contratam (importa frisar que somos uma empresa independente de purificação dimensional, trabalhamos muito oficialmente com variadas instituições espíritas, mas, a título individual, temos tido clientes de todos os credos…) adota a moral cristã, apesar de ter conceções teológicas diferenciadas do cristianismo formal. Para estes espíritas, Jesus Cristo é o espírito mais elevado a já ter encarnado na Terra, bem como o modelo de conduta para o auto-aperfeiçoamento humano, tendo provado, pela prática da caridade absoluta e pela sua própria encarnação, que o Homem pode suportar as provas necessárias para a sua elevação espiritual.
A sua afirmação como um movimento científico e cristão não é consensual no cristianismo, que contesta ambas as vertentes. Nós só defendemos o lado científico, não somos cristãos, se bem que os haja no Yama-GIP.
Para além das explicações, onde foram abordadas informações muito dispersas e variadas sobre a nossa atividade (não estamos muito habituados a ter de explicar coisas sobre o espiritismo em geral – normalmente as instituições que nos contratam ou são espíritas ou sabem muito bem o que fazemos), recolhemos as provas 1, 2 e 3, que analisaremos.


Nº 2 – 07.03.2011.As provas

Durante a semana que passou, procurámos inúmeras combinações destes ingredientes da lista (prova 3) em variadíssimas fontes e invariavelmente fomos ter à invenção da Coca-Cola, no séc XIX.
Descobrimos que há algumas histórias (daquelas que não se sabe muito onde acaba o mito e começa a realidade) à volta desta bebida, e uma delas tem a ver com uma questão mal explicada de uma lista onde dois de 9 materiais teriam sido excluídos para não facilitar a cópia (exclusão simbolicamente representada pelo facto de 2 materiais aparecerem com os números riscados - prova 2). Seria esta, supostamente, a lista do ingrediente secreto, o ingrediente “7x”, um cocktail de 9 materiais que teria sido fornecida, mas de forma incompleta. Esta questão do secretismo da Coca-Cola é um apanágio da marca (repare que ainda hoje só duas pessoas sabem como misturar o ingrediente “7x”, o que faz com que viajem constantemente de um lado para o outro).
Quanto à mancha que apareceu no teto (prova 1), todas as pesquisas relativas à configuração identificam a forma de uma ventoinha de teto.
Até aqui não parece haver quaisquer dúvidas, pois o afunilar de possibilidades conduziu-nos a objetos óbvios.
No entanto, apesar de percorrermos todos os relatórios de casos existentes no departamento editorial da FEB e nos nossos arquivos, não conseguimos estabelecer nenhuma relação entre as 3 provas.


Nº 3 – 14.03.2011.Hipóteses: Assombração e Orixá. Detector de Ectoplasma.

A nossa visita de hoje serviu para abordar as duas primeiras hipóteses com que costumamos trabalhar: Orixás e Assombrações. Para o segundo caso fizemo-nos acompanhar de um detetor de ectoplasma.
Numa das muitas hipóteses levantadas sobre o autor desta interferência interdimensional, chegou-se a pensar ser um Orixá (entidade importada do Candomblé), pois a sua manifestação assemelhava-se a uma parte do oráculo por eles usado (de nome Ifá), pois ao contrário dos espíritos em geral, os Orixás não falam diretamente com os vivos, deixando apenas mensagens simbólicas. A mancha poderia ser disso exemplo, mas as duas listas não encaixam no perfil, pois oferecem informação demasiadamente detalhada para um Orixá.
A ocorrência de certos fenómenos de efeitos físicos só é possível caso exista no ambiente o elemento energético conhecido como ectoplasma, oriundo geralmente de um médium que tenha a faculdade de fornecê-lo. Há casos em que estes fenómenos surgem de maneira imprevista e em qualquer local, fazendo com que risos, vozes e gemidos sejam ouvidos, objetos sejam deslocados, portas e janelas sejam abertas ou fechadas, etc... De forma genérica, dá-se o nome de assombração a situações como estas.
Nos lugares assombrados, há uma espécie de cortina etéreo-espiritual muito densa de fluido ectoplasmático, abrindo aos espíritos (sofredores, vingativos, brincalhões ou traumatizados) de planos inferiores a possibilidade de se fazerem ouvir, muitas vezes através de ameaças, gritos ou gemidos, causando pavor nos encarnados que ali estão. Se estes forem portadores de faculdades mediúnicas, tais fenómenos assustadores manifestam-se de maneira ainda mais perceptível aos seus sentidos.
A mente funciona em planos nos quais as oscilações estão muito acima do campo vibratório comum do ambiente físico. Enquanto a mente vibra no éter, a voz humana vibra no ar e quando os espíritos desencarnados querem falar com os encarnados, eles necessitam de um elemento intermediário que baixe o tom vibratório da voz etérica e faça com que ela se note de modo audível no ambiente do mundo material. Esse elemento é o ectoplasma.
A hipótese da assombração foi posta de lado quando verificámos, através dos nossos detectores de ectoplasma, que não haveria condições para que tais fenómenos se verificassem.


Nº 4 – 21.03.2011.Hipótese: Possessão e exorcismo. Entrevista.

Na visita de hoje decidimos despistar outra hipótese: a possessão. A possessão demoníaca não é um diagnóstico psiquiátrico ou médico válido e reconhecido. Aqueles que professam a crença em possessões demoníacas por vezes descrevem sintomas que são comuns a várias doenças mentais, como histeria, mania, psicose, esquizofrenia ou transtorno de identidade. Além disso, há uma forma de mania identificada como demoniomania ou demonopatia em que o paciente acredita que está possuído por um ou mais demónios.
A ilusão de que o exorcismo funciona em pessoas com sintomas de possessão é atribuída por alguns ao efeito placebo e ao poder da sugestão. Algumas pessoas supostamente possuídas são realmente narcisistas ou sofrem de baixa auto-estima e agem como uma pessoa possuída por um demónio com o propósito (muitas vezes inconsciente) de ganhar atenção.
O psiquiatra M. Scott Peck pesquisou exorcismos e alegou ter realizado dois rituais do tipo em si mesmo. Depois das suas experiências e na tentativa de validar a sua pesquisa, ele tentou, sem sucesso, convencer a comunidade psiquiátrica a adicionar a definição de "Evil" nos seus glossários técnicos.
Segundo o espiritismo, a possessão não é um fenómeno sobrenatural, devido à atuação do demónio, mas sim, um processo que obedece a uma lei natural: a da sintonia mediúnica.
Mediante a lei da sintonia, as pessoas atraem os afins.
Esta atracão pode ir de uma simples influência sem sinais exteriores visíveis a um processo obsessivo de usurpação de personalidade, pela perturbação completa do organismo e das faculdades mentais.
Como qualquer entidade viva, também temos diferentes tipos de personalidade intrusa e a importância deste pormenor é de tal ordem que até há nomes para os tipos de personalidade como, por exemplo poltergeist (o mais famoso, devido à sua exploração cinematográfica), que representa um espírito barulhento e desordeiro, com manifestações ao nível da animação de objetos e comportamentos fisicamente impossíveis.
A maioria dos parapsicólogos nega qualquer possibilidade da ação de espíritos sugerida na ideia de poltergeist. Prefere a sigla RSPK (do inglês: Recurrent Spontaneous Psychokinesis), ou seja: "psicocinesia espontânea recorrente".
Noutras palavras, eles adotam uma posição materialista, isto é, atribuem os fenómenos da possessão unicamente à ação psicocinética de uma pessoa viva presente no local dos fenómenos. Essa pessoa acionaria inconscientemente os objetos, devido às suas faculdades paranormais psicocinéticas. Não aceitam a intervenção de agentes incorpóreos espirituais. A essa pessoa assim dotada e (in)conscientemente causadora dos fenómenos de poltergeist, dão o nome de epicentro.
No entanto, é possível problematizar esta certeza, pois há casos em que o epicentro não detém informações que demonstra conhecer quando está possuído.
É verdade que não falta obstinação aos parapsicólogos para criar as mais engenhosas teorias e assim enquadrarem tais factos dentro dos estreitos limites das suas crenças racionais. Todavia, diante dos factos, nós preferimos aceitá-los como eles são. Desse modo, ousamos propor uma tese que, com igual direito, inclui a existência do espírito imortal, a sobrevivência da personalidade após a morte do corpo físico, e a possibilidade da comunicação do morto com o vivo, bem como de um ponto em aberto, chamamos-lhe o desconhecido inimaginável.
Os espíritos que se manifestam dominam as leis que regem o mundo atómico, desagregando e tornando a agregar moléculas. Não nos podemos esquecer que matéria é energia em estado condensado.
No processo da possessão há sempre alguém que é possuído, manifestando comportamentos fora do comum. Na sessão de hoje fizemos nova entrevista ao casal RS e concluímos que nenhum deles tem mostrado comportamentos representativos de qualquer forma de possessão. Já suspeitávamos do resultado desta entrevista pois nenhuma das 3 provas nos remete para qualquer tipo de contexto de possessão. No entanto, o despiste era necessário.


Nº 5 – 28.03.2011.Hipótese: Passagem Interdimensional.

Durante a semana que passou que nos temos andado a debruçar sobre a última e a mais rara das hipóteses com que habitualmente trabalhamos: a passagem interdimensional. Daí que a nossa visita de hoje tenha como funções dar a conhecer a evolução do nosso trabalho e saber se houve, no entretanto, mais alguma movimentação estranha na casa ou nas pessoas que a frequentam.
Há dois tipos de passagens interdimensionais. Em ambos os casos temos uma via de comunicação entre a nossa realidade e mundos suprafísicos, quer provenham de uma estado post-mortem, quer provenham de outros mundos: mundos paralelos-desintegrados (de outras realidades exteriores à nossa) ou mundos paralelos-localizados (de realidades histórica e localmente verosímeis). Nesses locais forma-se um epicentro magnético, à volta do qual se gera uma zona de influência onde todas as leis naturais são substituídas pelas suas equivalentes supranaturais, pois normalmente ocorrem dilatações ou contrações da coordenada espaço-tempo.
Um tipo de passagem, a fuga, implica um ato de vontade tão intenso que exerce domínio sobre as leis que regulam os planos concretos da existência e do seu campo magnético, interferindo em coordenadas específicas; o outro tipo, portal, mais raro, acontece em ciclos especiais da evolução planetária, é como se de repente se abrisse uma porta – estas passagens são muito efémeras e de localização absolutamente imprevisível. É o caso do Triângulo das Bermudas, onde durante algum tempo, objetos e pessoas entraram inadvertida e irreversivelmente noutras dimensões. Há quem se refira às fugas e portais como ferramentas usadas por outras civilizações para estabelecer contacto com a nossa realidade, mas para nós isso não passa de mitos, pois não temos qualquer prova que suporte essa ideia.
Independentemente dos mitos, todos os técnicos concordam que só um certo silêncio interior avassalador permite, não só criar o quadro fértil para o surgimento dessas portas para outros mundos, mas também revelar a sua existência.
Para haver uma passagem entre dimensões tem de haver uma brecha no espaço/tempo (como uma porta) que permita esse contacto. As brechas têm algumas leis de funcionamento:
-para haver intromissão de um mundo noutro, tem de haver pontos de contacto;
-os pontos de contacto aproximam coordenadas de espaço e tempo: dois mundos com coincidências;
-há uma grande imprecisão nas orientações geográficas das entidades;
-uma entidade decide abandonar a sua coordenada porque vive nela uma situação desagradável;
-quando uma entidade procura outra coordenada, procura cenários que normalmente são: apaziguadores (coordenada pacífica que motiva à mudança, já que a fuga é provocada por uma situação não apaziguadora), acolhedores (havendo pessoas ou contextos culturais de abertura de espírito, que permitam o reconhecimento e identificação deste fenómeno e, por conseguinte, auxiliem na passagem) e aglomeradores (muitas pessoas num mesmo espaço, com mistura de credos, valores e formas de estar, ex.: momentos festivos, locais de fronteira, aglomerados populacionais em geral) – neste último caso os arcanjos (Anubis e Persefone) baixam a guarda;
-Anubis e Persefone controlam a separação de todos os mundos paralelos e só situações excecionais os distraem;
-uma fuga implica uma vontade em mudar, mas uma capacidade de receber (daí ter de ser um cenário acolhedor);
-quando um período de instabilidade emocional e espiritual atinge proporções exageradas, os arcanjos têm de se esforçar para que se mantenha a ordem; imediatamente a seguir, quando a bonança se instala, passamos por uma fase de bastante permissividade por parte dos arcanjos, também conhecido por período de apaziguamento exagerado (necessário para contrabalançar e alcançar, posteriormente, a fase da maturidade, assim chamada por criar um equilíbrio de forças). Este período de apaziguamento exagerado é ideal para fugas.
Pensava-se até aqui que as passagens interdimensionais só eram usadas para permitir a condução de seres vivos, criaturas e entidades individualizadas, mas este caso põe-nos algumas questões que ainda temos de resolver. As listas poderiam até encaixar na passagem de uma entidade, por serem obra direta de alguém, no entanto a presença da ventoinha abre-nos um campo por explorar: remete-nos para uma ideia mais alargada de vida, que ainda temos de perceber melhor antes de avançar com uma hipótese.


Nº 6 – 04.04.2011.Recolha de documentação sobre V N Sto André.

Voltámos a visitar o casal RS para os informar das novidades. Desde o início que temos sentido algo de estranho relativamente a este trabalho particular. O facto de nenhuma das hipóteses já rejeitadas encaixar neste caso torna-o, só por si, estranho, pois 95% de todos os casos que já tivemos são Assombrações, Orixás ou Possessões. A hipótese de Passagem Interdimensional é sempre um momento de insegurança pois nunca sabemos até onde pode ir tal evento, dado o desconhecimento que ainda há sobre este fenómeno, por ser tão raro.
Considerando a necessidade de haver pontos de contacto, e uma vez que as listas apontam para um acontecimento do séc XIX, altura da invenção da Coca-Cola, necessitamos de estudar Vila Nova de Santo André no séc XIX e tentar encontrar elementos que permitam (de acordo com as leis de funcionamento de brechas) estabelecer algum paralelo. Não sabemos exatamente que data nem que local deveremos investigar, pois ainda que a manifestação só tenha sido visível agora, o processo pode ter começado em data anterior (muito anterior). Ou seja, manifestou-se agora de forma visível, o que não quer dizer que não tenha havido outras tentativas (não identificadas como tal e por isso não reconhecidas neste processo).
Juntamente com o casal RS, que tem acesso a muita documentação sobre o local, conseguimos reunir imensa informação histórica sobre a zona, que nos permitirá estudar a época. Vamos levar connosco toda a documentação disponível e tentaremos perceber esse momento da passagem tentando compreender as correspondências históricas que possam ter derivado nesta brecha interdimensional, sem esquecer que só o silêncio existencial, uma certa pausa de vida, uma rutura na linearidade do tempo dinâmico, permitem, não só que a fuga se inicie, mas também o reconhecimento da sua existência e o auxílio necessário à sua receção.


Nº 7 – 18.04.2011.V N Sto André e o cenário de brecha.

Após algum tempo de interpretação de dados, decidimos reunir-nos com outros GIP que conhecemos e marcar algumas sessões de trabalho para, em conjunto, identificar os elementos que permitiriam uma brecha interdimensional. (Daí termos demorado duas semanas a regressar.) Desta forma elaborámos um relatório sobre V N Sto André que aqui apresentamos.
Vila Nova de Santo André, que fica a 12 km de Santiago do Cacém e a 15 km de Sines, foi elevada a cidade em 26 de Agosto de 2003, tendo permanecido inserida no município de Santiago de Cacém. Dada a pouca idade da cidade, uma vez que foi criada apenas na década de 1970, não nos parece haver qualquer ponto de contacto entre esta e o momento da fuga.
No entanto, o passado da zona é abundantemente marcado por presença de vida, remontando ao tempo do neolítico como o atestam os materiais arqueológicos recolhidos no lugar do Areal. A idade do Bronze também deixou vestígios de ocupação nas Casas Novas e Cerradinha, margem este da Lagoa de Santo André.
Foram identificados na freguesia, pelos arqueólogos Joaquina Soares e Carlos Tavares da Silva, sítios romanos, como a Figueirinha e Cascalheira.
A formação da freguesia é de origem medieval, devendo-se à Ordem de Santiago.
Além da aldeia de Santo André, a freguesia compreendia, já no séc XVIII três pequenas aldeias: aldeia de Azinhal, com 10 vizinhos, aldeia do Giz com 20 vizinhos e a aldeia de Brescos com 24 vizinhos.
Acontecimentos no séc XIX que poderão ter alimentado a brecha:
1 Com o terramoto de 1755, a freguesia "padeceu muita ruína", especialmente nas casas dos moradores, na residência do pároco e na própria igreja, que ficou por consertar até princípio do primeiro quartel do séc XIX. Este facto é mais do que suficiente para uma situação de instabilidade emocional que ainda durou algum tempo. Quando foi concertada a igreja de Sto André criou-se o cenário para um certo apaziguamento espiritual, nestes momentos há brandura na atenção de Anubis e Persefone, os arcanjos.
2 À volta da igreja realizava-se anualmente uma feira no dia 30 de Novembro que chegou a render, segundo o padre António Macedo "24$000 réis de terrado, que se aplicava para a fábrica". Essa feira gerava ambientes de uma certa confusão interpessoal, nomeadamente havendo até uma localidade chamada Deixa O Resto que, sendo uma localidade de passagem, recebia forasteiros que ali gastavam o resto que lhes sobrava da feira e do comércio da aldeia, nas tascas, cafés, restaurantes, etc. Aqui teremos um cenário de aglomerado, outro momento que seria facilitador de uma brecha, já que também aqui os arcanjos ficam desatentos.
3 Por volta de 1855 pescadores de Ílhavo e respectivas famílias chegaram à Costa de Santo André, "no recenseamento da população do ano de 1863, existiam na praia de Santo André 6 fogos com um total de 18 pessoas. Havia 9 homens que se dedicavam à profissão de pescadores" relata os "Annaes do Município" de 1869, e construíram cabanas e armazéns de colmo e caniço. Devido à abundância de sardinha no mar (no Verão) e outro peixe na Lagoa (no Inverno) terão estabelecido duas campanhas com lavradores da região, praticando a arte xávega. Esta movimentação de populações (com toda a diferenciação dos seus credos e valores) aliada ao convívio com a população já residente, gera outro quadro de desatenção dos arcanjos.
4 A Lagoa de Santo André constitui, desde sempre, um ponto estratégico para a estadia, passagem e nidificação de muitas espécies de aves migratórias. Esta informação é de extrema importância, pois pelas suas características gera um quadro apaziguador. Como quem foge, normalmente, fá-lo porque se encontra numa situação desagradável, um cenário apaziguador, ainda por cima natural, é sempre importante numa fuga.
5 No séc XIX, precisamente nesta zona, temos o registo de alguém com uma forte presença de espírito, que poderá ter encabeçado um contexto de abertura, portanto, acolhedor.
Refiro-me ao padre António Macedo, que nasceu em Santiago do Cacém no ano de 1823, tendo sido ordenado padre em 1846. Com 24 anos de idade iniciou o sacerdócio em S. Bartolomeu, donde se transferiu depois para a Abela, fixando-se em Sines dois anos antes da sua morte, ocorrida em 1887.
De entre variados escritos, deixou-nos como obra cimeira da sua produção literária os «Annaes do Municipio de Santiago de Cacem», onde podemos ler que a instrução pública, sendo «uma das primeiras necessidades sociaes, o pão do espirito, tão essencial como o alimento que nos vivifica, tem sido e é distribuído no nosso paiz como os viveres em praça assediada. Não dizemos bem; tem sido recusado a milhões de famintos que tinham e teêm um direito incontestavel a este viatico da intelligencil». Quanto à sociedade em que se encontrava, nunca se coibiu de lhe apontar os excessos, desvarios e iniquidades que pratica e gera. Podendo "gerir" a religiosidade/crendice de uma sociedade inculta e estagnada, em vez de fomentar a manutenção e cega obediência, convoca-a para a mudança, o progresso das técnicas e das ideias, a abertura a um futuro mais livre e de maior participação na coisa pública.
Aliás, a zona acaba por se renovar no séc seguinte, o XX, com a presença breve, mas significativa de uma outra personalidade, o padre Jesuíta Amadeu Pinto, que insistia na ideia de não haver verdades absolutas e que não perdia (segundo os seus contemporâneos) uma oportunidade para criticar as injustiças do sistema de ensino, apontando o dedo às suas causas. Chegou a dirigir um dos melhores colégios do país e desenvolveu trabalho pastoral em V N de Sto André, tendo ensinado em Santiago do Cacém.
Resumindo: temos três situações excecionais de distração dos arcanjos, (pontos 1, 2 e 3), um quadro natural apaziguador (ponto 4) e uma personagem histórica que encaixa no cenário acolhedor, pela abertura de espírito demonstrada (ponto 5).
Nos próximos dias iremos investigar alguns nomes relacionados com o surgimento da Coca-Cola para tentarmos estabelecer alguma relação, não só com o contexto de Santo André, mas com os fatores que possam ter desencadeado essa necessidade de fugir.
A mancha no teto em forma de ventoinha, contudo, cria algumas dúvidas quanto ao facto de ser apenas um espírito a querer aproveitar uma brecha.


Nº 8 – 25.04.2011.A ventoinha – saloon.

A pesquisa que fizemos durante a semana sobre o autor da Coca-Cola, remeteu-nos para o local onde teriam sido elaboradas as listas que apareceram na casa dos RS: um saloon do séc XIX, de nome Azrael.
Tivemos acesso a bastantes documentos escritos sobre este saloon. Ao que parece, o seu último gerente era um apaixonado por crónicas e todas as semanas elaborava uma, bastante extensa, onde dava conta de tudo (com detalhes impressionantes) o que se passara por lá. Apesar de ainda não termos conseguido interpretar devidamente todos as crónicas que se referem ao Azrael, precisámos de vir cá para fazer um ponto da situação.
a) A presença das listas está intimamente relacionada com uma figura humana, o autor da Coca-Cola
b) Há condições para que no séc XIX de V N Sto André tenha havido uma brecha interdimensional.
c) A presença da mancha em forma de ventoinha empurra-nos para um saloon: Azrael.
A juntar ao que conseguimos saber sobre a época, começa-se-nos a desenhar uma questão bizarra: e se, em vez de ser uma pessoa a tentar a fuga, for uma coordenada espaço-tempo inteira (incluindo pessoas, incluindo um saloon) a querer romper a sua linearidade histórica? Nunca na nossa experiência enquanto GIP nos deparámos com uma fuga que fosse gerada pelo desconforto de uma coordenada cénica, de um espaço, e não só de seres vivos. A confirmação deste fenómeno põe em causa toda a teoria espírita, que só se refere a seres vivos, nunca a cenários. Precisamos de contactar novamente outros GIP para perceber se há cabimento nesta nossa hipótese.


Nº 9 – 02.05.2011.Cizin.

Para facilitar o relatório e também para personalizar o fenómeno, decidimos dar um nome à coordenada espaço-tempo onde o saloon Azrael Sleep (Azrael) originalmente existia e onde Pemberton e os seus amigos passaram grande parte das suas vidas. Chamámos-lhe Cizin, em homenagem ao deus maia da morte.
1 – Azrael Sleep
Sobre o saloon em causa, de seu nome Azrael Sleep, podemos dizer que começou por ser um saloon absolutamente normal e típico dos saloons do velho oeste. Frequentado por comerciantes de peles, cowboys, garimpeiros, mineiros, jogadores, aventureiros, etc, o Azrael Sleep fazia na sua funcionalidade jus à realização da sua própria função, harmonizando-se com os tempos.
Tal como muitos outros (bastante populares na época, chegando mesmo a haver zonas com 3 saloons por cada cem habitantes), também este estava aberto 24 horas por dia, sete dias por semana. Apesar de ser um espaço modesto e humilde, fundado por um sujeito simpático e gorducho, filho de pai muçulmano e mãe luterana, o Azrael Sleep aspirava ao sucesso de tantos outros seus contemporâneos, como o First Chance Saloon (Montana), o Bull’s Head (Kansas) e o Arcade (Colorado), a julgar pelos imensos cartazes e ilustrações destes, que decoravam as paredes do espaço. Nos elementos decorativos e funcionais do espaço encontravam-se também o balcão com os seus bancos de pé alto, um tapete de corda no chão, mesas e cadeiras, um piano desafinado já com falta de teclas e… claro, a ventoinha de teto.
2. Contexto social
No séc XIX havia um clima de puritanismo religioso, que fazia frente a todos os locais que vendiam bebidas alcoólicas, tendo o Kansas sido o 1º estado a adotar uma emenda constitucional nesse sentido. Nenhuma mulher ou homem decente poderia ser visto em lugares que fornecessem esse tipo de bebida.
O fim do comércio de álcool levou a que o Azrael fechasse e reabrisse, mais tarde, com nova gerência, desta feita, por um português, João Plutão. Por ser bastante insatisfeito, o novo gerente investiu na necessidade de criar outras bebidas, o que criou um ambiente de experimentalismo, tendo, aos poucos, mudado bastante a clientela habitual. Ainda tentou vender bebidas alcoólicas, tendo pedido a um dos seus clientes que criasse uma, a que chamaram Pemberton's French Wine Coca, anunciada como uma bebida intelectual, vigorante do cérebro e tónica para os nervos, consistindo numa mistura de folhas de coca, grãos de nós de cola e álcool. Rapidamente a intervenção das autoridades o fez mudar de ideias e abandonar o comércio do álcool.
A necessidade de criar outras bebidas vem do facto de as bebidas alcoólicas terem sido proibidas e de o novo proprietário ser um radical anti-tradições, pioneiro de um certo abstracionismo gastronómico. De salientar que as limitações estimulam a criatividade e, na altura, a existência de ingredientes mais ou menos exóticos dependia muito das políticas externas e das capacidades de transporte. A dada altura desapareceram alguns ingredientes chineses, pois o congresso dos Estados Unidos aprovou o Chinese Exclusion Act, proibindo a imigração de chineses no país, o que diminuiu o fluxo de especiarias exóticas. Apesar desta limitação, o reconhecimento da independência da Coreia, bem como o tratado de amizade e comércio assinado entre os USA e a Coreia acabou por introduzir novos ingredientes exóticos, igualmente desconhecidos. Hoje havia produtos italianos, amanhã já não havia, mas havia indianos, no outro dia só havia franceses: esta era a incerteza com que os criativos tinham de lidar – tendo de desenvolver capacidades de ilusão sensorial que fizessem com que, independentemente de haver ou não uma certa especiaria, o seu sabor estivesse presente.
Gradualmente as personagens mais criativas, bizarras, mas simultaneamente, as mais desintegradas socialmente e afastadas do centro intelectual do puritanismo vigente, tornaram-se na maioria e posteriormente na única clientela do Azrael.
Na procura de ingredientes e produtos bizarros com que saciar os desejos da sua peculiar clientela, Plutão comprou um livro de apontamentos do séc XVIII aos descendentes da família Flanagan, a família que inventou os cocktails. Era um produto pouco apreciado, por isso Plutão convidou alguns dos seus clientes a reformular as ideias de short drinks (de aproximadamente 6cl) misturadas e multicolores do caderno dos Flanagan.
Também no Azrael os cocktails eram decorados, já não com penas de galo, mas com elementos diferentes, conforme o cocktail em causa: havia o cocktail verde, à base de sumos agri-doces, com o copo forrado com bocados de relva fresca (para a tipologia before-dinner); o cocktail coff-dead, com café e natas com ossos de frango moídos (para a tipologia after-dinner). De salientar que, apesar de haver uma carta de propostas, havia uma grande margem de liberdade e manobra que permitia aos clientes inventar o seu próprio cocktail.
3 Vontade própria (livre arbítrio)
Independentemente de todas as variantes que decerto influenciaram Cizin, há uma questão determinante que é o facto de ter decidido fugir ao seu destino, assumindo, nitidamente, uma posição anti-fatalista, a conceção de que se é agente de mudança, não aceitando passivamente os acontecimentos que nos envolvem.
Esta posição anti-determinista é única tratando-se de toda uma coordenada, pois acontece, por norma, a seres vivos, principalmente, humanos.
O que a faz única também é o romper da tradição (fatalista, enraizada no nosso pensamento desde as tendências estóicas greco-romanas até à Divina Providência cristã). É o querer comandar a sua própria vida, o alterar a sua sorte e, num claro desafio às Moiras, o assumir-se farto de ter o seu fio da vida na Roda da Fortuna sempre em baixo, como se a roda não andasse, quebrando o ciclo de bons e maus momentos, estagnado que estava no cenário lúgubre da tristeza.
Talvez lá se tenha debatido Nicolau Maquiavel (pressupõe-se ter sido um autor lido várias vezes no Azrael, pois encontraram-se alguns exemplares da sua obra, nomeadamente alguns exemplares repetidos d’O Príncipe). Pensamos que a influência de Maquiavel poder-se-á ter-se feito sentir ao nível da ideia de que a sorte (destino) é consequência, até certo ponto, de trabalho e não de acaso, pela quantidade de vezes que a palavra “virtu” aparece sublinhada (lembremo-nos que Virtu não quer dizer virtude, mas virilidade, característica de quem se entende como ativo da sua vida e não passivo dos acontecimentos que o rodeiam).
O facto de os frequentadores serem adeptos de mudanças levará a que terão usado muitas vezes vocabulário associado com essa ideia e poucas palavras de tema conservador. A importância, neurolinguística, relaciona-se com a possibilidade de haver uma contaminação comportamental provocada por um uso exagerado de palavras temáticas, por ex.: se me quero lembrar de algo devo dizer “tenho de me lembrar”; se, ao invés, repetir insistentemente que “não me posso esquecer”, é mais provável que me esqueça; o mesmo acontece com as pessoas que dizem muitas vezes a palavra “azar”…
Na mesma senda de influências, um outro livro encontrado foi a “Teoria da probabilidade”, de Pascal, atestando este dinamismo de pensar a sorte como pensável.
Outros elementos decorativos do Azrael correspondiam a um temática circunscrita de superstição, com objectos relacionados com as ideias populares de crendices, como ferraduras, patas de coelho, trevos de quatro folhas. Da superstição retiramos a crença de que é possível intervir no destino alterando-o. Poderá esta ter sido também a sementinha da grande fuga.
4 Quadro humano
Para que se entenda de que forma o quadro humano do Azriel terá contribuído para a sua necessidade de fugir, foquemo-nos nos seus elementos, principalmente depois da posse do português Plutão, onde poderá ter começado o processo de frustração de Cizin, enquanto saloon tradicional. Apesar de sabermos apenas generalidades sobre os restantes frequentadores, conseguimos informações detalhadas sobre alguns, talvez os mais emblemáticos. Os seus frequentadores eram diversificados, mas unidos na estranheza: deles saiu um grupo mais pequeno, talvez os primeiros provadores especializados, gente pioneira em experimentar, autêntico corpo de elite de separadores de sabores: pessoas com sentidos bem desenvolvidos, com capacidades fora do comum, promotores de perversões culturais aos tempos.
Alguns dos elementos deste grupo sofreram acidentes na guerra civil americana que os fez, tendo perdido algumas, desenvolver outras capacidades de uma controlada estranheza sinestésica notável.
Diz-se a este propósito que os membros do grupo de amigos do Azrael conseguiam identificar, nas suas experiências, diferenças mínimas ocasionadas por envelhecimento, tanto pelo olfato, como pelo paladar. Têm fama de terem sido férteis em propostas culinárias (bebidas & comidas). Pela semelhança no modus operandi e data de origem são-lhes atribuídas imensas receitas com ingrediente secreto, um pouco espalhadas por todo o mundo. É disso exemplo a receita protegida pelas Rebuçadeiras da Régua, que para além de incluir limão, mel e manteiga, nada mais se sabe da composição destes famosos rebuçados.
Passemos então aos cinco principais frequentadores:
a) Alexander Graham Bell era um dos frequentadores do saloon, o homem que inventou o telefone. Sofria de DC.KR (disfunção nos corpúsculos de Ktause e Ruffini), fazendo com que não conseguisse sentir qualquer noção de frio e calor.
b) Um dos assíduos no Azriel, era Charles Julius Guiteau, o homem que assassinou o presidente James A Garfield, alegando obediência a uma vontade divina. Reza a crónica que seria detentor de um invejável conhecimento teológico, bem como praticante de um certo tipo de bruxaria adoradora de Hades, mas pouco conseguimos saber sobre isso.
c) J S Pemberton, o homem que inventou a fórmula da Coca-Cola e que foi encontrado morto no Azrael. Pemberton era farmacêutico e voltou da Guerra Civil viciado em morfina, mas com uma capacidade hiperdesenvolvida de paladar (capaz de identificar os mais ínfimos elementos de composição de um alimento ou bebida). Para tentar resolver o seu vício fabricou uma bebida alcoólica que tinha coca nos seus ingredientes chamada Pemberton's French Wine Coca. Mais tarde, devido às pressões contra as bebidas alcoólicas, o químico refez a receita sem álcool, mas manteve a coca na sua composição. Nasceu assim a Coca-Cola. A versão actual da Coca-Cola continua a conter extracto de folhas de coca, mas já sem a componente activa da planta.
Diz-se que foi a sua personalidade vibrante que atraiu em certo tipo de alquimistas sensoriais e insatisfeitos, enquanto que, simultaneamente, foi afastando os clientes habituais de um saloon. Não se sabe por que razão apareceu enforcado no saloon, apenas que tudo aponta para suicídio.
d) Há dúvidas quanto ao nome deste outro, pois em todos os documentos que conseguimos consultar sobre este assunto, apenas vem referido como A L. Sabemos que foi camarada de guerra de Pemberton e que num acidente de guerra, perdeu o olfato e o paladar. Nos anos de isolamento que se seguiram desenvolveu um certo tato interior no estômago que lhe permitia identificar textura, temperatura, o binómio doce/salgado e todas as variantes possíveis de identificar através do paladar, como o ácido, o amargo, etc., numa precisão cortante.
e) Os inúmeros amuletos que decoravam o Azrael terão sido conseguidos num negócio com uma das poucas mulheres que o frequentavam, Catherine Deshayes, uma nómada cega, filha de pai branco e mãe índia. Há referências das suas extraordinárias capacidades de previsão e diz-se que para compensar a falta da visão, desenvolveu de tal forma o tato que era capaz de distinguir as diferentes cores dos objetos pela temperatura. Andava sempre descalça pois conseguia sentir a aproximação de objetos pela vibração.


Nº 10 – 09.05.2011-Conclusão: não é necessário limpar!

Resumindo: temos em Cizin um saloon que se frustrou na sua funcionalidade orgulhosa e pessoas desintegradas do seu tempo que viram na hipótese de fuga uma oportunidade de realização existencial. Ou seja, é como se Cizin tivesse procurado um momento de glória antes da sua própria decadência, se tivesse fixado nele e enquanto elemento autónomo tivesse iniciado este processo de fuga, com vista a reeguer-se numa outra dimensão. Quando falamos de Cizin, referimo-nos ao conjunto de todas estas forças, humanas, físicas e circunstanciais.
O momento que despoletou o desespero no saloon aconteceu no séc XIX e foi no séc XIX em Sto André que tivemos de encontrar pontos de contacto, para perceber o porquê de aqui acontecer. Quando se diz “aqui” deve entender-se na zona, pois a imprecisão geográfica espírita é notória, há espíritos que aparecem em locais a alguns kms de distância daqueles que identificam como sendo o certo.
Achamos que a localidade chamada de Deixa O Resto (no séc XIX) reunia as condições que normalmente se associam a um saloon. De referir que o nome da localidade foi-lhe atribuído justamente por ser um local onde se ia beber um copo e conviver com amigos, enfim, deixar o resto do dinheiro que sobrava da feira de Santo André. É a sua ambiência de bar, festa e alegria que lhe atribui o perfil de ponto de contacto com o saloon.
Finalmente a questão do silêncio. Pelo que o casal RS nos disse, a sua casa esteve praticamente sempre desocupada, pois nunca foi mais do que casa de férias, tendo passado de proprietário em proprietário sem que alguém a tenha efetivamente habitado.
Esse silêncio existencial a que a casa foi votada, terá estabelecido uma empatia e um outro ponto de contacto com Cizin. Esse silêncio existiu em Cizin quando, após o suicídio de Pemberton, o Azrael fechou de vez, desapareceram os seus frequentadores, o gerente, a vida.
Acreditamos que o surgimento das listas, bem como do perfil da ventoinha de teto tenham sido um último suspiro de tentativa na procura de um ambiente acolhedor, de silêncio e de reconhecimento. Acreditamos que desde o séc XIX que estas tentativas de fuga interdimensional se tenham vindo a verificar, mas sem efeito, pois era necessário que alguém as identificasse e com elas se identificasse.
Em suma, apesar de estarem reunidas as condições sociais e históricas para uma fuga, era necessário haver o complemento humano de acolhimento.
Uma vez que a casa está agora a ser habitada efetivamente, acreditamos que tenha sido perturbado o ciclo de silêncio, por isso não vai haver mais contactos, pelo que da nossa parte nada mais temos a fazer por aqui. Voltaremos daqui a um mês e se o casal não se importar daqui a um ano para, com o detetor de ectoplasma, verificar se não houve alterações. Acreditamos que não, pois as 2 listas e a mancha apareceram todas no mesmo mês, seguidas de uma ausência total de fenómenos paranormais.
Quanto a nós, depois deste episódio, temos de reformular o conceito e incluir coordenadas de cenários totais (com tudo o que há neles de circunstancial), como é o caso de Cizin, a primeira coordenada espaço-tempo registada a intentar uma fuga.
Dado o ineditismo da coisa, fomos até aconselhados por colegas a diagnosticar o fenómeno como um portal. Chegámos a pender para essa solução, mas quando analisámos o enquadramento histórico e verificámos as leis que presidem ao fenómeno das brechas interdimensionais apercebemo-nos que estávamos perante uma fuga.

… sempre a aprender!








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