diário - 21.novembro.2011


21 de novembro de 2011

            Amigo diário (amigo sim, diário pouco)
            Hoje concretizou-se o casamento da minha irmã. Digo concretizou-se pois já ando a tratar da coisa há um tempo - voluntariei-me para tal e de tal forma foi mais complexo do que imaginara que até me sinto bastante aliviado pela sua conclusão. Amanhã já regresso ao meu monte e retomo a atividade agrícola a que me dedico profissionalmente. Nestes últimos dias pedi ao Zezito para ir lá controlar alguns pormenores, uma vez que precisei de me poder dedicar a este casamento como se fosse meu e nada, mas mesmo nada, podia falhar.
            Como ocupação posso dizer que valeu aquilo que sempre vale aquilo que de extraordinário se faz: pensar o impensável. Ou seja, fui confrontado com a necessidade de decidir sobre o que normalmente não faço, ou seja, tive de refletir sobre o que normalmente não reflito, ou seja, tive de me informar sobre detalhes disto do mundo a que normalmente nem me debruço. Foi, portanto, enriquecedor.
            Havia três frentes a dinamizar: a boda (não tanto a parte da oficialização, mais a da celebração); os convidados (escolhê-los, contactá-los, alojá-los e entretê-los); o after-party (lua-de-mel). A parte da lua-de-mel foi surpresa, pois os noivos decidiram-se por uma opção barata. No entanto, eu e mais alguns familiares conseguimos fazer uma angariação de fundos pela família, para lhes proporcionar o prazer de uma viagem a dois.
            Bem, vamos por partes.
            Comecemos pela família, esse conjunto encruzilhado de conexões. Não deixa de ser curioso pensar que, ao contrário do que acontece na maioria dos grupos sociais (onde a interação se faz em momentos pontuais), tirando casos extremos de família desfasadas, as decisões de qualquer membro acabam sempre por não deixar indiferentes os restantes. Com a capacidade de manter os laços durante tempos infinitos, mesmo que haja uma transnacionalidade em causa, a família é uma sociedade com sub-grupos ordenados por questões de poderes de decisão e de persuasão internos, afinal não esquecer que a etimologia da palavra "família" está associada à ideia de escravatura doméstica. Normalmente é um pequeno grupo com um apelido comum, herdado de ascendentes comuns e com exigências constantes, requeridas por pedido direto ou por chantagem emocional. De tal forma a família, com os seus carimbos existenciais, marca cada indivíduo que, por exemplo, na escolha de parceiro, entendido nas noções de conforto e amparo, há sempre a base do exemplo familiar, quer seja para a procura de alguém que seja o oposto dos exemplos parentais, ou que seja o mais próximo possível. (A propósito, conheço um caso de uma família comunitária onde a responsabilidade pedagógica se deve não aos familiares diretos, mas a todos os membros adultos, mas este é um caso bem diferente do nosso. Os nossos pais sempre primaram por serem só eles a decidir o que era bom para nós.) Na constituição familiar entende-se não só a nuclear (pais e filhos) mas também a alargada (outros graus de parentesco), se bem que a proximidade e o poder de influência se devem muito a fatores geográficos (morar na mesma casa, morar perto, noutro país, etc.). No nosso caso, os parentes que se afastaram para outros países acabaram por não voltar, a não ser de férias, e foram aos poucos perdendo influência. Ainda por cima, com a morte dos nossos pais, eu e a minha Ana ficámos sozinhos já há alguns anos. No início toda a família se reuniu para nos ajudar, mas, aos poucos, fomo-nos afastando e, na ausência de grandes tragédias e alegrias coletivas, acabámos por até perder o contacto de alguns. Talvez por isso, e por termos gente espalhada por todo o lado, enviámos convite apenas a 11 pessoas que, a juntar a mim, ao meu sobrinho e aos noivos, deu um grupo simpático de 15 bem-dispostos. (Sei que há uns que vão ficar de birra, mas paciência...)
            O meu cunhado diz que não é religioso, por isso, não houve nenhuma igreja a abençoar o momento. No entanto, também não é um materialista ferranho, pois tem uma adoração por Zeus, ao ponto de tatuar na perna a sigla CRAT (Carvalho, Relâmpago, Águia, Touro - os símbolos do rei dos deuses gregos, homólogo do romano Júpiter). Da árvore genealógica de Zeus, compreendemos que é o filho mais novo de Cronos e Réia e, das suas esposas e amantes. há registo de inúmeros descendentes como Afrodite, Perseu, Hefesto, Atena, Apolo, Dioniso e Hércules. Encontra-se relacionado com fenómenos naturais, como o raio, o trovão, a chuva e as tempestades. Uma das maravilhas do mundo antigo é, justamente, uma estátua sua em Olimpia sendo em sua honra que se realizavam os Jogos Olímpicos. Quanto à sua biografia, é interessante revelar o contexto de violência e morte em que este rei dos deuses surge, longe dos ambientes acolhedores de seios familiares tradicionais. Seu avô, Urano, foi destronado por seu pai, Cronos. Como vingança, o seu avô profetizou que um dos filhos de Cronos o destronaria, por sua vez. Para evitar a concretização da profecia, Cronos devorava os seus filhos à nascença. Quando Réia estava grávida do seu sexto filho, com a ajuda de Gaia (a Terra, mãe de Cronos) decidiu salvá-lo. Depois de dar à luz às escondidas, Réia regressa ao palácio onde viviam e substitui o recém-nascido por algo que engana Cronos, que o devora a pensar ser o sexto filho. Assim sobrevive Zeus. Quando cresceu conseguiu que o pai tomasse uma bebida que o fez vomitar os irmãos (já adultos), com os quais acabou por conquistar e partilhar o todo conquistado, derrotando os titãs (nos quais se inclui o seu pai). Assim, Zeus ficou rei do céu e da terra e os seus irmãos Poseidon e Hades ficaram com o mundo dos oceanos e o mundo dos mortos, respetivamente.
            Desde que decidimos e confirmámos as presenças na comemoração que comecei a procurar restaurante. O primeiro a que me dirigi correu mal. Caí no erro de dizer que era para um casamento e tive que levar com tudo aquilo que nós não queríamos para este momento: luxo desnecessário. (O meu cunhado sempre me disse que queria comer bem, e que isso para ele se resumia a comida suficiente e saborosa. Várias vezes me contou a história de alguém seu conhecido que apesar de já se ter divorciado ainda continua a pagar as prestações do empréstimo que pediu para pagar a boda.) O gerente do restaurante mostrou-me logo uma enormidade de menus para "momentos especiais" onde abundavam produtos gourmet. Esta mania do gourmet está como uma praga por todo o lado. Atualmente há uma generalização do conceito gourmet a qualquer produto alimentar associado à ideia de autenticidade e de qualidade, com a consequência, de tornar tudo mais caro. O problema é que, por vezes, é apenas uma questão de design comercial, ou seja, o mesmo queijo pode custar 10 vezes mais se mostrar orgulho na sua origem e na sua forma tradicional de fabrico e se estiver mais atrativo (ao nível da embalagem - lembro-me de uma linguiça que era comercializada num saquinho de pano). No entanto, o termo gourmet nem sempre foi assim tão banalizado. Palavra francesa, inicialmente usada para designar os bons apreciadores e conhecedores de vinho, desde cedo alargou a sua aplicação. mas apenas a momentos de cozinha elaborada, a chamada haute cuisine. É claro que, por se aproximar de um certo ideal cultural-gastronómico, um patamar inquestionável de qualidade, as refeições gourmet sempre foram muito mais caras que as restantes.
            Fui a um segundo restaurante e era ainda mais caro do que o primeiro, mesmo sem referir a palavra casamento. Pensei que, se calhar, era melhor escolher um espaço menos formal. Enquanto nisto meditava passei por um estabelecimento chamado Pastafarianismo. Associando o nome à ideia de "pasta", pensei tratar-se de um restaurante italiano, pizzaria ou assim, o que até podia ser uma ideia interessante. Entrei. Não era. Era uma coisa completamente diferente. COMPLETAMENTE!!! Tratava-se da Igreja do Monstro de Esparguete Voador ou Pastafarianismo. Começando por ser uma reação à obrigatoriedade do ensino do Criacionismo nalgumas escolas, toda a fundamentação do Pastafarianismo (trocadilho com "pasta" + "rastafarianismo") cria as condições argumentativas para que, tal como a teoria do Design Inteligente, também o Flying Spaghetti Monsterism (o nome original) não deva ser ensinado nas aulas de ciências. Tendo como fundador (em 2005) Bobby Henderson e como profeta o Capitão Mosey Monesvol (CMM), apresenta um registo de crenças paralelas às do Design Inteligente dos Criacionistas, mas ironicamente transformadas, como por exemplo, o universo ter sido criado por um invisível Monstro de Esparguete Voador (MEV), tendo tudo começado por árvores, uma montanha e um anão; todas as catástrofes naturais serem diretamente uma consequência da extinção massiva dos piratas, no séc. XIX (denegridos que foram pelos hare krishnas e cristãos); o inferno ser um local onde só há cerveja sem álcool, mas com strippers, só que todas com doenças sexualmente transmissíveis. O seu profeta CMM, ele próprio pirata, recebeu diretamente do MEV 8 condimentos (eram inicialmente 10, mas houve uma queda e 2 perderam-se) não apresentados na exigência como os demais mandamentos religiosos, mas pelo singelo "Realmente preferia que não fizesse (isto ou aquilo)", como por exemplo, " Realmente preferia que não enfrentasse os malvados (fanáticos, machistas, etc.) de estômago vazio". Instauraram, para os milhares de seguidores, o dia 19 de setembro como o dia internacional para comunicar com piratas.
            O restaurante seguinte cativou-me. Não referi uma única vez que se tratava de um casamento, falei apenas em refeição. Fazia um ano apenas que o dito estava aberto ao público e como comemoração do seu aniversário tinham convidado durante uma semana (a que chamaram Semana Temperada) uma série de chefs para elaborar pratos fora do (nosso) comum. Ou seja, para além da qualidade do próprio restaurante, em termos de conforto, elegância e preço, tivemos a oportunidade de provar pratos extraordinários. Acho que, entre todos os presentes, acabámos por pedir todas as sugestões da Semana Temperada, a saber: Escorpião frito (Singapura - como é cozido a altas temperaturas o veneno do animal é neutralizado); Filete de Fugu (Oriente - o cozinheiro, especializado e oficialmente autorizado, retira a bolsa do veneno poderosíssimo deste peixe, depois fura-a e espalha um pouco sobre o próprio peixe para dar um certo efeito alucinogénio a quem o comer); Farofa de Formiga (Brasil - é mais apreciada uma variante de formiga chamada içá, pois tem um sabor semelhante ao do amendoim); Morcego à Caçarola (China e Vietname - neste guisado com vegetais e batata, são só usados os morcegos frutívoros, que têm um baixo teor de gordura e uma textura que os assemelha a frango - recomenda-se também a lasanha de morcego); Canguru ao Vapor (Austrália - com bacon, sal e pimenta, este é apenas um exemplo do uso tradicional que os nativos sempre deram ao canguru, do qual tudo se aproveita e cuja carne se assemelha à de avestruz); Sopa de Cachorro (Hong Kong, Coreia do Sul - esta sopa com cão, açafrão, cravo e canela é considerada bastante energética); Omeleta da Larva do Bicho-da-seda (Tailândia, China - servida às crianças nas escolas, permite apreciar o lado tenro do recheio da larva frita ou saborear a textura crocante da casca); Cérebro de Macaco (África - rico em fósforo, proteínas e vitaminas, pode ser cozinhado de inúmeras maneiras, mas tem de ser sempre limpo e preparado com vinagre e salmoura - o cérebro de gorila é muito procurado pelo seu lado afrodisíaco); Caldo de Turu (Brasil - primeiro há que explicar que o Turu é um molusco de corpo gelatinoso, parecido com uma sanguessuga, que vive em árvores podres na Amazónia, tem um sabor semelhante ao dos mariscos e come-se ou em caldo de farinha, ou vivo e cru); Caranguejeira Frita (América do Sul, Austrália, África do sul - este aracnídeo peludo não é venenoso, apesar do seu aspeto aterrador - é a espécie mais consumida do mundo, por ser das maiores, mas pouco mais se come para além do abdómen, pois tudo o resto fica apenas estaladiço e crocante).
            Uma vez escolhido o restaurante, perguntei ao gerente se nos podia receber apenas às 16:00 (já que antes estava marcada a sessão no tribunal para oficializar o casamento). Perante a sua concordância lá marcámos o spot e pronto. A coisa correu como suposto: os noivos assinaram o documento e depois fomos em procissão até ao restaurante. É claro que para o número minúsculo de convidados bastaram 4 carros para nos transportar. É tradição que se faça barulho com as buzinas durante o percurso e o nosso cortejo não foi exceção. Para tal fui a um shopping da zona onde sei que há daquelas que se usam nas claques de futebol e apetrechámos cada carro com uma - consegui daquelas sul-africanas, as vuvuzelas. Uma vez que o percurso nos levaria apenas uma meia-hora não nos preocupámos com as questões auditivas. Sei que a partir de 8 horas de exposição, qualquer som que exceda os 85dB pode provocar danos. Por exemplo, um estádio de futebol com um número significativo de vuvuzelas pode chegar aos 140dB (tal como, em média, uma discoteca), mas uma simples avenida cheia de trânsito também atingirá facilmente os 85dB. O curioso é que os danos provocados no ouvinte podem até nem ser ao nível auditivo, mas ao nível do bem-estar, stress, enfartes e até úlceras.
            Chegámos ao restaurante, almoçámos, convivemos e comentamos muito os pratos que faziam parte do menu que eu escolhi. Apesar da resistência inicial, algumas explicações dadas pelos próprios chefs e o ambiente de predisposição à festa fizeram com que acabássemos por saborear deliciadamente as iguarias.
            É claro que, se começámos às 16, por volta das 19 já estávamos mais que terminados nisso da comezaina. Tal como em tudo o resto, coube-me a mim decidir o que fazer com os familiares que de tão longe vieram e que, se não fosse o nosso programa, ficariam completamente perdidos no resto do tempo, dado desconhecerem a zona por completo. Este foi outro problema que tive de resolver e que me levou algumas noites de sono: era um grupo de um heterogeneidade impressionante - é importante lembrar que o que nos une são laços e experiências familiares, mas que culturalmente (nestas coisas do lazer) nem sei o que os satisfaz. Não deixa, contudo, de ser engraçado isto de conviver com pessoas de outras zonas culturalmente diferentes e de como, na sua presença (por contraste), nos apercebemos de como realmente somos. Um dos tios reparou, passados os primeiros minutos, que um dos sobrinhos alentejanos dizia "quem" sempre que queria dizer "quê" (na concretização, disse "queres o quem?" em vez do suposto "queres o quê?").
            É óbvio que não ia baixar a fasquia de qualidade que sempre defendo para os momentos de ócio, por isso, corri agências de entretenimento de norte a sul e percorri com a maior atenção os programas que nos ofereciam para esse dia. Inicialmente pensei em organizar uma atividade qualquer que me incluísse e ao Zezito no DJing, mas não consegui pensar em nada em especial e os presentes, provavelmente, não iriam gostar. Acabei por me deparar com um espetáculo relativamente perto (uma horita de viagem) e que me pareceu (e verificou-se!) reunir ingredientes que agradariam a todos os convivas, uns mais, outros menos, mas nenhum indiferente.
            Lá fomos para o espetáculo "Alegria" do Cirque du Soleil. Até eu que já assistira a um espetáculo seu há uns anos fiquei arrebatado. Apesar de a palavra circo estar associada a um certo tipo de espetáculo e de este conter elementos que o justificam, lembro-me de, desde sempre, achar que este seria um circo para a nobreza (circo gourmet) enquanto o outro serviria para entreter o povinho. Aliás, este grupo com sede em Montreal (Canadá), foi fundado em 1984 por dois artistas com experiência de artes de rua (Guy Laliberté e Daniel Gauthier), tendo Laliberté vindo a adquirir a parte do sócio. A partir logo de 1986, a intervenção do Guy Caron ajuda à recriação da arte circense e a desenvolver a linguagem que caraterizaria o Circo do Sol, a partir de ingredientes próprios como contar uma história durante todo o espetáculo (aqui influência do circo russo), o cenário, o vestuário (roupas coloridas e maquilhagem forte destinado a cada elemento, que as deverá manter inalteradas até ao fim do espetáculo) e a música interpretada ao vivo. Para além disso bebe influências de imensos universos culturais, como a ópera, o rock, o próprio circo (contorcionistas, palhaços, malabaristas, trapezistas), o ballet, o teatro, o período medieval, o barroco, etc. Ainda usam uma linguagem própria durante o espetáculo a que chamam "cirquish". Até ao ano 2000 o Circo expandiu-se a um nível global, passando de 73 a 3500 pessoas, oriundas de 40 países, com 15 espetáculos simultâneos. Chegou a ser classificado pela Interbrand como o 22º nome de maior impacto global e está representado da Calçada da Fama (no Canadá). Com a intenção de centrar o espetáculo nas capacidades físicas dos seus membros, o circo do sol prescinde de animais. A Comedia Dell'arte, com todo o seu universo figurativo, foi introduzida no circo do sol nos anos 1980 por Franco Dragone, que daí em diante dirigirá artisticamente a esmagadora maioria dos espetáculos. Uma outra característica do circo é a sua independência, de tal forma que até recusaram propostas da Columbia Pictures para gravar um vídeo (em troca de direitos de autor). Nouvelle Expérience foi o seu espetáculo mais lucrativo de sempre, tendo sido apresentado continuamente durante anos a fio no Mirage Resort em Las Vegas.  
            A noite aconteceu, os convidados adoraram o espetáculo, enfim, foi um dia de sucesso - o que me deixou altruistamente satisfeito, a minha irmã merece tudo o que puder fazer por ela. Tudo o que ela já fez por mim, todo o amparo que me deu quando precisei, todo o carinho, todo o respeito. Mais lhe agradeço a confiança que sempre depositou em mim (e que sempre tentei honrar) em deixar-me tomar conta do meu Zezito (meu sobrinho, seu filho). Não tenho filhos nem perspetivas de constituir família, de modos que esta relação que tenho com o filho da Ana me preenche de um êxtase existencial que me faz senti-lo como meu filho. Dava a vida por aquele puto. Acabei de escrever que não tenho perspetivas de constituir família e estou a pensar que este pensamento faria todo o sentido há uns meses atrás. No entanto, desde junho que ando aí emocionado com um reencontro e até já tenho pensado nisso da conjugalice. Aliás, todo este processo, algo repentino, do casamento da minha irmã e do amor que, por isso, anda no ar, tem-me feito pensar em mim também e em quanto a Érica me tem posto a sonhar.
            Quando acabámos de assistir ao espetáculo do circo e nos dirigíamos para os carros, os noivos despediram-se de nós, pois tinham um quarto alugado num hotel próximo. A ideia deles era pernoitar lá uma noite apenas e no dia seguinte começar uma viagem de 15 dias pelo país. O que eles não sabiam é que nós, a família, já tínhamos contactado uma agência de viagens para que no dia seguinte pudessem voar para um dos destinos propostos. O serviço desta agência permite que a pessoa escolha (mediante um pagamento extra) num dia o destino que quer seguir no dia seguinte. Só terão de ligar até 12 horas antes do voo para um número que funciona durante 24 horas. Ou seja, durante esta noite eles vão apreciar a lista de possibilidades e assim que ligarem para a agência a informar da decisão, terão avião aí umas 12 horas depois (aproximadamente - na agência disseram-nos que poderiam esperar, no máximo, até 15 horas depois do telefonema).
            Não foi difícil elaborar a lista de sugestões de lua-de-mel, uma vez que tanto a minha irmã, como o meu cunhado gostam de parques temáticos. Para além dos parques que a agência nos sugeriu ainda andámos (eu e o meu sobrinho) a fazer pesquisas sobre outros por esse mundo fora.  Encontrámos centenas e depois de uma seleção mais consciente, a lista ficou reduzida a: Napoleonland (Ainda me informei sobre este, mas desisti pois só abre portas em 2014. Será em Montereau, local emblemático de uma das suas vitórias bélicas. Incluirá atrações como as recriações da batalha de Trafalgar, dos confrontos de Waterloo e ainda da decapitação de Luis XVI.); Grutas (Parque lituano nostálgico da ex-URSS que inclui dezenas de esculturas da época e restaurantes inspirados no período soviético.); Parque Shijingshan (Neste parque em Pequim convive um número infindável de criaturas de ficção famosas. Sem nenhum tema, caracteriza-se justamente pelo amontoado de personagens promotoras de brincadeiras, desde as do universo Disney a outras - obviamente desrespeitando os direitos autorais - direito a que as autoridades locais não dão grande expressão.); Holy Land Experience (Na Flórida, este parque recria o Jerusalém do tempo de Cristo, onde até é possível observar uma encenação brutal da paixão de Cristo.); BonBon Land (Parque dinamarquês cheio de animais pouco convencionais, com montanhas russas e um famoso cachorro que dá peidos.); Hacienda Nápoles (parque para crianças e adultos na Colômbia que contém uma grande diversidade temática, que vai de carros antigos a estátuas de dinossauros em tamanho real. À entrada pode admirar o avião em que Pablo Escobar, 1949-1993, levou cocaína pela primeira vez para os EUA. Aliás, todo o parque está situado numa propriedade que antes pertencera ao traficante colombiano, o mesmo que recheou o parque daquilo que são hoje as suas atrações.); República de los Niños. (Este parque argentino permite brincadeiras financeiras às crianças que até podem pedir um empréstimo no banco do próprio parque.); Love Land, (Na Coreia do Sul, este parque erótico dedica-se às mais diversas possibilidades de explorar o tema sexo, através de lojas eróticas, exposições de arte erótica, comida afrodisíaca, etc.); Dickens World (Com ambiências e personagens do seu universo literário, este parque em Kent transporta-nos para o séc. XIX inglês); Dollywood (Situado no Tennessee, EUA, da cantora country Dolly Parton, inclui destruição de carros, animações com água e imensos concertos da proprietária e não só, entre outras atrações).
            Amanhã telefono-lhes a perguntar qual o que escolheram. Cá entre a família até fizemos apostas sobre qual o destino escolhido. Amanhã saberemos. 

Ivo Varela Cruz

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diário - 15.novembro.2011


15 novembro 2011


Hoje faltei ao trabalho. Não fui, não disse nada, não avisei, simplesmente acordei e não me levantei. Se começou por ser uma incapacidade, tornou-se, com a substância do próprio ato, numa necessidade e agora é uma totalidade. Amanhã lá terei de enfrentar o patronato e toda a sua ignorante forma de fingir que nos entende, como se os trabalhadores fossem uma massa única com um só pensamento e um só prazer e tudo, tudo estivesse relacionado com a maldita profissão para que a vida estupidamente nos empurrou. Ainda tenho colegas que se emocionam com pormenores profissionais, eu costumo embebedar-me com isto de fingir que concordo e adiro quase sempre ao processo da robotização comportamental. Passo as horas de trabalho sempre à espera do momento da repersonalização (aquele em que deixo de me prostituir laboralmente e volto à minha verdadeira vida). Amanhã lá enfrentarei as feras, mas ao menos hoje estive longe de tudo aquilo e o tempo que fruí e ainda fruo é meu!, só meu! O tempo que hoje vivi, de isolamento, foi mais importante que qualquer outro na funcionalidade da existência social. (Como diria Alberto Caeiro: Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, / Não há nada mais simples / Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte. / Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.) Resumindo, fiquei na cama a ver TV e a viajar na web. Resumindo, hoje não aconteceu nada. Resumindo, a neura foi constante ao longo do dia. Então, se hoje não aconteceu mesmo nada, só mesmo a rotina já física de escrever esta merda deste diário me impele a continuá-lo. Apetece-me destratar (como diria o Fernando Arriaga), falar mal, injuriar, blasfemar (segundo J. Saramago, o direito à heresia deveria estar consagrado na carta dos direitos humanos).

Será que ninguém se enxerga naquilo que é macro estrutural? A ideia da especialização tem interesse no desenvolvimento de competências profissionais, mas nunca na totalidade do puzzle desarmónico que é a vida de cada indivíduo. Como passei o dia enfiado em casa atrevi-me (de vez em quando acontece-me) a pensar na global picture. Quando o faço fico deprimido. Não aquelas depressões dos comprimidos e inconsciências, mas as outras, as reais, as que resultam de pensar a vida como se houvesse alguma lógica nisto da existência. A depressão advém da conclusão de que afinal não há! Aliás, a própria noção de vida para além da vida (reencarnada ou embarcada) deve ter sido criada por alguém que achou que era necessário inventar um sentido para as coisas e percebeu que tinha mesmo de ser inventado, porque de facto não havia. Decidi que o dia de hoje não haveria de ser comum. Poderia continuar nas alucinações coletivas que tanto caracterizam os que me rodeiam, os ditos meus semelhantes. Refiro-me às religiões, aos futebóis, às políticas, entre outros projetos mobilizadores e fundadores de esperanças. Há ainda os que têm filhos, muitos, e que, por isso mesmo, deixam de ter tempo para o presente, entretidos que andam nos futuros possíveis a precaver. Este meu estar visceral de revolta até me fez pensar em aderir à Igreja da Eutanásia, só para chatear... De referir que esta Igreja da Eutanásia tem como principal ideia a de não procriar (é por isso apologista de todas as relações naturalmente estéreis, como as homossexuais) e a de promover a morte. É natural que ande sempre envolvida em confrontos com os ativistas pró-vida cristãos, bem como com todas as associações homofóbicas. Inspira-se no excesso populacional planetário e as consequências daí surgidas, nomeadamente ao nível dos recursos e de problemas sociais. Criada em Boston pelo sacerdote Chris Korda, pretende criar o equilíbrio entre todas as formas de vida, promovendo o suicídio, o aborto, o canibalismo (mas nunca matando para esse fim) e a sodomia (termo usado tecnicamente como símbolo de qualquer tipo de sexualidade que não resulte em procriação).

Ainda a propósito de projetos mobilizadores, li num jornal online que foi hoje mesmo divulgado o relatório do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência. Do relatório falava-se pouco no artigo, mais se veiculava a opinião de um médico da sinistra Associação Portugal Livre de Drogas, um tal de Manuel Pinto Coelho. Segundo este, o tratamento que está a ser posto em prática erra, não só porque a opção é pelas drogas de substituição, o que mantém a dependência (não evitando situações de recaída, nem fornecendo aos pacientes os instrumentos psicológicos que lhes permitam algum controle emocional - já que parece ser esta a principal questão e não outras do foro médico), mas também porque está vocacionado para as clássicas heroína e cocaína (quando os problemas emergentes têm a ver com novas drogas sintéticas). Só espero que não seja mais um daqueles pensamentos bonitos, mas inúteis, que por aí tanto há sobre os temas da marginalidade. Lembro-me de ter assistido a uma sessão pública sobre drogas, aí na década de 1980 e de ter sido apresentado um argumento que defendia o não consumo, fundamentado na ideia de que se tomar drogas serve para fugir ao quotidiano, então de nada valerá, pois acaba-se sempre por ter de voltar e enfrentar a mesma (por vezes dura) realidade que deixamos momentos antes. Logo na altura achei isso uma absurdidade. Ora vejamos, de acordo com esta ideia, nunca se poderia fazer nada que servisse como distração, pois as distrações são efémeras... alargando o conceito, nunca ninguém iria de férias (pois acaba-se sempre por ter de voltar ao mundo que se deixa). O único argumento verdadeiramente válido é o da habituação e consequente incapacidade de se desligar da rotina consumista, o que se torna nefasto porque exagerado, com todas as consequências para a saúde individual. Aliás, vim depois a descobrir, que o orador dessa sessão era um engenheiro agrónomo que dava aulas, mas como tinha horário imcompleto acabou por ter de dinamizar um clube escolar relacionado com estes temas e que por isso sabia tanto da coisa como a minha avó. É incrível como põem estas pessoas a falar em público. Aliás, qualquer título serve, hoje em dia, para que a pessoa seja logo incorporada numa coisa qualquer, independentemente da sua área de formação. Sou capaz de (já que se vive tanto a cagança dos títulos) tirar uma porcaria de uma graduação qualquer, só para dizer que sim. Até ouvi dizer que quanto mais impercetível for o tema da tese defendida, mais portas se abrem. "A eficácia comparativa do morder e do lamber um gelado, enquanto momento digno de registo nas diferentes biografias sensoriais, nas perspetivas individual (consciente) e social (inconsciente), na sociedade da viragem do milénio" podia bem ser um título de uma tese de doutoramento. No fundo este estar da treta generalizado vem dos exemplos de cima. Refiro-me, obviamente, aos políticos. Vejamos, quando um político faz algo que se descobre estar errado, vem logo a público dizer que assume a culpa. É claro que se trata apenas de uma farsa pública pois, de culpado, apenas diz lá as palavrinhas mágicas, agora agir em conformidade é que nada! Eles esquecem-se que nós não funcionamos como confessionário e que não basta rezar umas avé-marias e a coisa esquece-se. Não, nós temos memória e NUNCA perdoamos.

Na única fase da minha vida em que me dediquei à política, fiz parte dos AgriCultura e uma das nossas políticas era a do discurso lapidar. Tínhamos sempre que estudar muito bem as palavras e nunca prolongar um discurso em figuras de estilo, paralelísticas, gradativas, metafóricas, enfim. Era absolutamente proibido e contra todos os nossos princípios imitar o estilo dos políticos das nossas praças. Até mesmo quando apresentei a minha proposta achei necessário dá-la a ler a alguns amigos para que me eliminassem quaisquer figuras de retórica, que teriam ido inconscientemente no texto, de tal forma nós somos condicionados a um certo tipo de texto politizado. Foi uma pena não ter sido aplicada, é claro que teria de ser apreciada na prática, avaliada e ir sendo corrigida aos poucos até à sublimação. Mas essa sublimação estava garantida, pelas avaliações anuais que o nosso programa político previa, tanto enquanto AgriCultura como no aglomerado Oklo. A minha proposta (rejeitada pelos meus próprios camaradas e que me fez afastar definitivamente da vida política ativa), tinha a ver com a gestão dos transportes urbanos. A principal estratégia da minha proposta consistia na nacionalização de todos os veículos privados, na criação de parques de estacionamento públicos especiais, na transformação de todos os veículos em híbridos com o recurso à eletricidade (para cujo efeito se construiriam as barragens necessárias) e na atribuição de um porta-chaves-crédito renovável a cada cidadão condutor. A cada cidadão seria cedido um porta-chaves eletrónico. Esse porta-chaves conteria um código interno, alterado periodicamente. A atribuição de um código a uma pessoa teria a ver com uma gestão de créditos. Os créditos periódicos corresponderiam aproximadamente a 1000 km. No entanto, revertido em pontos, esses 1000 km poderiam demorar menos tempo a gastar, caso o utente optasse por usar um veículo com uma maior cilindrada. Podia-se ainda aumentar o crédito atribuído, com pedidos especiais relacionados com atividades profissionais, bónus anuais, ou casos especiais a considerar. O registo de infrações rodoviárias (ou outras), bem como certas informações de nível psicológico, poderiam fazer reduzir o planfond. Como os carros seriam carregados eletronicamente, a sua energia esgotar-se-ia. Por isso, cada utente deveria levar o veículo para um parque de estacionamento especial. A criação desses parques de estacionamento públicos especiais que ficariam anexados aos Centros de Recursos (onde se fariam as trocas de bens) consistia na criação de parques com um sistema wireless. Bastaria que um veículo estivesse lá estacionado durante 10 horas para carregar o sistema com uma autonomia que iria até aos 5 dias. Era perfeito.

Termino o meu registo do (bizarro) dia de hoje refletindo sobre uma das minhas últimas atividades do dia: cortar as unhas, por analogia cortar qualquer coisa de mim. Se deixar cair alguma coisa em cima de um dedo, provoca-me dor, ao provocar-me dor produz um mal estar em mim que me afeta em termos de personalidade e comportamento. Ou seja, aquele dedo dói-me, logo faz parte de mim, portanto sou eu. No entanto, se vou cortar o dedo e o afastar de mim, fico a olhar para ele e chego à conclusão de que afinal já não sou eu: há uma divisão entre eu e algo (que deixou de me ser, que se tornou independente de mim, que já não me provoca dor). Falando de uma unha compreende-se, falando de um dedo também, poderíamos ainda considerar uma mão, um braço e uma perna que se compreenderia facilmente que aquele bocado de mim deixará facilmente de ser eu se me for cortado. A minha pergunta é: até onde vai essa possibilidade de corte? Até onde vai o limite que me permite deixar de ser eu, partindo da premissa de que o que fica prevalece existencialmente sobre o que vai? Até onde posso fazer o corte que separa a minha existência do que se pode independentizar de mim? Seria interessante fazer a experiência com vários graus de corte e ir experimentando a vida presente em ambas as partes (a cortada e a da qual se cortou) com abordagens esotéricas, científicas, filosóficas, cinéticas, etc.. É claro que seria necessário criar um ambiente à Frankenstein e procurar alguns voluntários da adrenalina da morte - aquelas pessoas em que o desejo do sucesso é alucinadamente superior ao medo do fracasso. Pessoas sem consciência da sua linearidade existencial, sem projetos mobilizadores... como eu em dias como hoje! (ehehe)

E assim me fico

Bruno Saraiva

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diário - 08.abril.2011


8 de abril de 2011


Olá, meu querido diário

O dia de hoje teve dois acontecimentos principais. A minha aventura matinal com a Ritinha, a gata do meu irmão Carlos, e o jantar em casa da Francisca.

Hoje de manhã fui levar a Rita Amélia, a gata do meu irmão, à esterilização. Inicialmente foi uma carga de trabalhos convencê-lo de que os gatos têm de ser esterilizados. Só a partir do momento em que o Gil (um gato anterior) teve um cio quando ele estava a viver num apartamento fechado é que se apercebeu de que poderia haver benefícios para ambos. Dessa forma, assim que os gatinhos da primeira ninhada da Ritinha foram para novos donos, lá me ofereci para a levar à veterinária. Afinal a veterinária disse que não era necessário esperar pela primeira gestação, enfim, mitos urbanos.

Apesar da apreensão natural associada a uma cirurgia, a castração é uma intervenção rotineira, pelo que a grande prática dos profissionais permite vê-la com bastante tranquilidade. A vantagem mais imediata é evitar a mortandade nos gatis, pois a quantidade de pessoas que quer adotar gatos é imensamente inferior à quantidade de gatos passíveis de adoção. Convém também referir uma realidade que pode passar por não existente, mas que contribui grandemente para o aumento da população destes felinos: gatos domésticos que fogem de casa durante o cio e que entram em contacto, quer com outros na mesma situação, quer com os vadios, contribuindo para esse aumento populacional. Para além disso, ainda há o facto de algumas pessoas quererem que os seus animais de estimação reproduzam. Acabam por ter de arranjar donos para as ninhadas, concorrendo com os gatis que desesperam para encontrar adotantes. Quando um gato é castrado ou esterilizado só os comportamentos associados à sexualidade ficam alterados, nomeadamente, certos miados, atitudes mais violentas, ou as marcações de território. Não é verdade que o gato deixe de brincar ou altere o seu padrão individual de comportamento por ser esterilizado. A diminuição da agressividade entre gatos castrados é favorável, principalmente, aos machos que tenham acesso ao exterior, pois as lutas são a principal forma de transmissão de doenças entre eles. No caso das fêmeas, a esterilização realizada ainda antes do primeiro cio reduz em quase 100% a possibilidade de lhes aparecerem tumores, decorrentes das alterações hormonais associadas à gravidez - e eu que sempre esperei que as minhas gatas tivessem uma ninhada, porque pensava que era melhor.

A Ritinha é uma gata alentejana, mais propriamente de Colos. Uma senhora que o meu irmão conheceu falou-lhe na gatita e ele foi lá a Colos buscá-la. Na altura, lembro-me de me ter ligado a perguntar se sabia onde raio ficava Colos no mapa.

Colos fica no litoral alentejano. Com uma população aproximada de um milhar de habitantes, Colos já mudou várias vezes a sua relação administrativa com a zona onde se insere: no fim do séc. XV D. Manuel I concedeu-lhe o foral que elevou a localidade a vila e a sede de concelho, separando-a do concelho de Sines; no séc. XIX perde a sede concelhia e é integrada no então concelho de Vila Nova de Milfontes; ainda no séc. XIX viria a mudar de concelho e a pertencer, definitivamente, ao de Odemira. Inclui na sua freguesia povoações como Vale Rodrigo e Ribeira do Seissal (de Cima e de Baixo). Com a cortiça a liderar a atividade económica da freguesia, Colos apresenta, na parte mais antiga, alguns pontos arquitetónicos de interesse. Ainda para quem se interessar pelo património edificado, também se sugere um passeio à Ermida da Srª das Neves, no Cerro Queimado (que também serve como miradouro), pegadinho à Ribeira do Seissal de Cima. O aviador Brito Paes, natural da freguesia de Colos, é talvez o seu nome mais emblemático, por assinar (no início do séc XX), juntamente com Sarmento Beires e Manuel Gouveia, a primeira viagem aérea Portugal-Macau, com partida em Vila Nova de Milfontes. De assinalar a sua reconhecida importância na atribuição do seu nome à escola local. Uma outra figura a reter é Augusto da Fonseca Júnior (1895-1972), filho de comerciantes em Colos; gente com possibilidades para financiar os estudos de medicina do filho na Universidade de Coimbra. A sua personalidade irreverente e bem falante leva-o a envolver-se no episódio do 25 de novembro de 1920, conhecido por "tomada da Bastilha". No mesmo espírito de lutador de causas, nunca esqueceu a sua terra natal (chegando mesmo a apoiar financeiramente a vila), foi presidente do Sport Lisboa e Benfica, Governador Civil de Beja e manifestou-se publicamente contra o Estado Novo num momento de apoio à candidatura de Norton de Matos à presidência, para além de ter exercido medicina na armada. Ainda continuando na massa humana em Colos, é impossível não reparar na presença de estrangeiros, organizados em comunidades ou não. Aliás, Colos tem uma intensa atividade associativa, não só laica, com destaque para sociedades recreativas, associações culturais, clubes de caçadores e pescadores, como também religiosa, pelas presenças da Santa Casa da Misericórdia de Odemira (que gere o lar de idosos) e da Congregação das Irmãs do Bom Pastor. Ainda dentro da religiosidade local, a vila tem a Nossa Senhora da Assunção como padroeira, mas anualmente honra em procissão o Senhor dos Passos (sempre uma quinzena antes da Páscoa).

Lá deixei a gatita internada (vai lá ficar uma semana no mínimo, tadinha!). Enquanto lá estive reparei num jornal do dia, que se referia a uma feira de agências funerárias em Paris. É assunto a que, talvez por felicidade (dirão uns), nunca dediquei muito tempo de reflexão. Por isso, de cada vez que me cruzo com algo do género, não só me surpreende o facto de tal indústria existir mesmo, como acabo por ficar arrebatada com todos os pormenores que a caracterizam, destacando os que marcam a sua própria evolução (ao nível de novos materiais na construção das urnas - ao que parece agora estão na moda as urnas biodegradáveis). Dizia no artigo que para esta feira se esperam propostas inovadoras ao nível da forma de guardar as cinzas das cremações. Que bom!

No regresso, decidi ir fazer umas comprinhas ao Inter. Cortei pela avenida principal e logo após a primeira curva... trânsito interrompido. Uma fila de carros à minha frente, gente a pé, polícia, gritos, um pandemónio. Passados uns cinco minutos a polícia começou a desviar o trânsito para outra artéria e lá segui. Tive de dar uma volta enorme e, pelo que gastei no combustível, mais valia ter comprado aqui na mercearia da rua. Na altura não percebi o que estava a acontecer, só depois me disseram que tinha a ver com uma atividade multiculturalista, ligada às comemorações do 25 de abril, que está a dar alguma celeuma nos círculos que dão importância aos opinion makers.

A casa real britânica promoveu um encontro cá em Portugal entre o príncipe Philip e representantes do Movimento do Príncipe Philip. Partindo do princípio de que o príncipe Philip (marido da rainha de Inglaterra) corresponde a uma lenda da República de Vanuatu (Oceano Pacífico), na qual o filho branco do espírito de uma montanha viajaria de mares longínquos até eles, casado com uma mulher muito poderosa. O culto à pessoa terá começado nas décadas de 50 e 60 do séc XX, desde que o príncipe foi observado numa das suas viagens ao país. Então foi confirmado como a materialização da tal personagem lendária, dando origem ao Movimento do Príncipe Philip. Desde então que se têm multiplicado os presentes de ambas as partes, com o príncipe a enviar regularmente fotos suas atualizadas e autografadas, sendo o seu aniversário palco das mais emotivas comemorações pelos crentes de Vanatu, membros da tribo Yaohnanen. O encontro de hoje teve lugar aqui na avenida, num dos últimos prédios da Urbanização Leopardo Digital, cá em Sto André. Até aqui não haveria problema nenhum, não fosse terem sido convocadas duas manifestações racistas opostas para hoje, para o mesmo local (em frente ao prédio onde teve lugar o encontro, que contou com a presença do príncipe Philip, dos representantes do Movimento do Príncipe Philip, mas também outras individualidades), unidas contra tal evento, organizadas, curiosamente, também por movimentos religiosos (daqueles que aproveitam tudo para aparecer nos media, trabalhadores insistentes nisto das auto-promoções). Resumindo as posições oficiais, para os brancos a sujeição do príncipe Philip a tal culto é uma afronta à inteligência e uma heresia aos cultos ocidentais assumidos até pelo próprio príncipe; para os negros trata-se de um culto vergonhoso, pois é uma comunidade negra a prestar culto a um branco, em detrimento dos seus orgulhos tribais. A musculada presença policial impediu a confusão que seria inevitável quando estes grupos facilmente provocáveis se encontram. Tivemos, por um lado, a Igreja Movimento de Criatividade, presença para-militarizada, cheia de organização visual (com banda filarmónica e tudo). Desde 1973, chamada então Igreja Mundial do Criador, é uma instituição religiosa-racista, onde Criadores são os brancos. O seu não-teismo acaba por divinizar a supremacia branca, criando um calendário e festividades associadas ao próprio movimento. Defendendo a ingestão de alimentos crus orgânicos na dieta sugerida aos crentes, cria todo um sistema que entende como leis da natureza, joga com conceitos como o socialismo racial, sempre dedicado a promover o homem branco. Por outro lado, em grupo volumoso e ruidoso, manifestaram-se os membros e simpatizantes da Nação do Senhor. Yahweh Ben Yahweh é o nome que em 1979 criou a Nação do Senhor, em Miami. Composto por elementos da comunidade afro-americana e adaptado a uma lógica de supremacia negra, está associado a uma série de homicídios de cidadãos brancos, que consideram maléficos. Por acreditarem que o seu mentor é descendente direto de Deus, não seguem os textos bíblicos, ainda que se identifiquem com a religião hebraica, criando um sistema original e único de crenças.

Durante a tarde fui surpreendida com um telefonema do meu Carlinhos a convidar-me para um jantar na casa da Francisca Luís porque iria anunciar algo muito importante. Realmente, ele praticamente não saiu de casa na última semana, encomendou comida pelo telefone e não quis ser incomodado. Ainda pensei que tivesse tido algum ataque de inspiração nessa sua atividade (pouco ativa) de escritor. Independentemente da razão do jantar, o meu receio, sempre que vou a um evento com o Carlos, é o seu problema com o álcool. Às vezes bebe demais, ainda que beba sempre muito.

Tendo várias origens e diferentes processos, as bebidas alcoólicas podem-se subdividir em diferentes categorias, por exemplo: tendo a uva como base, através da fermentação consegue-se o vinho e o champagne, através da destilação temos as bagaceiras, o Armagnac, os brandies e os conhaques; destilando a cana-de-açúcar temos a cachaça e o rum; já fermentando cereais obtemos cerveja e saquê, enquanto que a sua destilação permite-nos obter os gins, os whiskies e o vodka; Tequilla e Mezcal obtém-se da destilação da agave (também chamada de piteira); fermentando o mel temos o hidromel; destilando o anis obtém-se absinto; a fermentação da maçã origina Sidra; entre muitos outros ingredientes e resultados possíveis. Há relatos de há 6 milénios atrás sobre a produção e consumo de álcool (Egito e Babilónia, apesar de a destilação só ter sido introduzida pelos árabes) que hoje é bastante banal, exceto em ambientes religiosos que o proíbem (caso dos Mormons e dos Islâmicos). Os povos indígenas (por exemplo do Brasil) já produziam (antes da chegada dos europeus) uma grande variedade de bebidas alcoólicas a partir de raízes, folhas, sementes. As bebidas alcoólicas são a génese de um dos maiores problemas de saúde pública mundial, uma vez que corresponde à droga mais consumida no mundo inteiro. Nos adolescentes em particular, mas em todos em geral, prejudica a memória (criando aquela sensação angustiante de não se lembrar do que fez durante a bebedeira), a motivação e o autocontrole, bem como entorpece os reflexos (daí a má relação do álcool com atividades ligadas ao manuseio de máquinas em tempo real, como conduzir). Considera-se um consumidor moderado leve quem beber até 5 litros de cerveja (com 4% de álcool) por semana, um consumidor moderado quem beber até 10 litros de cerveja e acima desse valor chama-se um consumidor grave. Consumidores considerados graves estão mais expostos a fragilidades orgânicas, potenciadores de Alzheimer, diabetes, hepatite A, câncro no pâncreas, etc. Em termos calóricos, as bebidas alcoólicas vão do Whisky (com 500 Kcal e 43% de álcool) à cerveja (com 100 kcal e 5% de álcool). Há histórias ligadas ao consumo de álcool, que salientam esta ou aquela característica do mesmo. Uma delas evidencia o efeito da falta de memória e passou-se com o prémio Nobel da literatura, William Faulkner. Ao que parece o escritor viajou para São Paulo na sequência de um convite e por lá andou quatro dias, constante e intensamente embriagado. No fim, quando os seus anfitriões o levaram ao aeroporto e se despediram ele ter-lhes-á perguntado: "Qual é mesmo o nome da cidade onde estive?" Acaba por haver uma tradição entre os escritores e o consumo de álcool, ao ponto de Ernest Hemingway afirmar que todos os bons escritores bebem. Seria, segundo o mesmo, a única forma inteligente de conviver com os loucos e os idiotas. É antigo o mito de associar o consumo de bebidas alcoólicas à criatividade literária, pois já Horácio (Roma, séc. I a.C.) afirmava que quem só bebesse água não escreveria bons poemas. Para confundir ainda mais a poesia das coisas, acrescente-se que "essência" é o significado da palavra árabe "alkhul", da qual deriva "álcool". Aliás, atribui-se à sua tradicional presença nas mitologias mais diversas a responsabilidade pela continuidade do seu consumo desde, pelo menos, 6000 a.C., data dos registos mais antigos. Apesar de tudo, seriam os próprios escritores a desmistificar a ideia e a descrever o processo de alcoolização, como o fez Scott Fitzgerald ("Primeiro tomas uma bebida, depois a bebida toma-te a ti, depois a bebida toma outra bebida."), salientando essa incapacidade final de se auto-gerir, comum a todos os vícios aditivos (e não só), que transforma o livre pensador numa mera marioneta de rotinas compulsivas.

O meu irmão é um verdadeiro bon vivant. É viciado em debates online - debates filosóficos e literários, essencialmente. Compra comida, bebida e fecha-se em casa para filosofar em tempo real, como ele diz. Tem um projeto literário que é o de escrever um único livro ao longo da vida. Para isso obriga-se a escrever todos os meses um mínimo de 100 caracteres. Fá-lo, contudo, de forma organizada e usa a estratégia da expansão. Começou por escrever um pequeno texto e depois começou a aumentá-lo: ora inclui uma descrição, ora faz uma retrospetiva, ora acrescenta detalhes, ora inventa um diálogo, etc. Tenho aqui uma cópia do texto que serviu de base ao livro que, ao que me parece, já tem umas 70 páginas:

No início do século XIX desapareceu um bebé ruivo de uma caravana que atravessava uma floresta interior do Canadá. O seu desaparecimento acabou esquecido pelo tempo e pela incapacidade de encontrarem quaisquer pistas que o explicassem. A criança não morreu, mas foi adotada por uma família de símios. Por coincidência, uma fêmea que perdera a sua cria, viu na criança um substituo e tomou-a sua, alimentando-a, acarinhando-a e defendendo-a. A criança tornou-se um homem e acasalou com outras fêmeas símios. De um desses cruzamentos saiu uma criatura, meio homem, meio símio, cujos avistamentos têm assustado algumas pessoas e cuja marca de pé lhe deu o nome de "big-foot". Este espécime, que acaba por ser um certo tipo de primata muito alto (entre 2m e 4m) com um tom avermelhado, associado a um cheiro forte a enxofre. Ainda que durante muito tempo se pensasse que descenderia do gigantopithecus (um primata já desaparecido, com uma dentição muito semelhante à do Homo sapiens sapiens e uma estrutura física agorilada) esta criatura da América do Norte afinal viu a sua genealogia resolvida.

Conforme previsto, o meu irmão bebeu muito e até ficou a dormir no sofá da casa da Francisca, completamente entregue à rendição dos sentidos desfalecidos. O desfalecimento, contudo, só veio muito depois de nos ter contado o que motivou tal encontro.

Do quarteto que esperava encontrar na jantarada, apenas estavam três (a Jéssica não foi). Desde o dia em que o meu irmão defendeu a sua tese de mestrado que confraterniza regularmente com a Francisca Luis (doutorada em não-sei-quê, 45 anos, espiritista num grupo independente e coordenadora do programa de Doutoramentos em Áreas Combinadas da UNP) e a Jéssica Érica Cortes (doutorada em História, Historiadora Anualista, não sei a idade).

No dia em que ele defendeu a sua tese de mestrado, partilhou a sala com outras duas candidatas, em áreas completamente diferentes. Acabaram, pela coincidência do momento, a jantar juntos nessa mesma noite. Desde então que fazem uma jantarada mensal, juntamente com o Valter Zuse. O Valter (53 anos, alemão, radicado em Portugal desde tenra idade) já era amigo da Francisca há imenso tempo, mas quando começou a frequentar a UNP, lá para o final da década de 1990, conheceu o meu irmão, que, nessa altura, ainda andava às voltas com o mestrado. Escusado será dizer que empatizaram logo um com o outro, pois ambos são moços de fazer pouco. O meu irmão sempre foi pouco ativo, pois sempre tivemos algum conforto económico que nos permitiu nunca ter de trabalhar, talvez por isso ele ainda ande com isto de andar a estudar - acho que ele vai ser estudante a vida inteira (mas pouco estuda! - o álcool ocupa-lhe muito o tempo.) Já o Valter, desde que, já no início desde século, a caixa dourada se tornou num pote de ouro e ele ficou o único a gerir o espólio, que enriqueceu e acabou por se deixar levar por esta vida de hobbies, para a qual a companhia do meu irmão é inquestionavelmente má influência.

Bem, o jantar lá começou e o Carlos sempre a fazer suspense sobre o que contaria. Nem sei o ror de coisas que me passou pela cabeça, desde as mais afortunadas às mais trágicas (casamentos, cancros, etc.) Quando já íamos no segundo prato é que se desfez o mistério, afinal ele já escolhera o tema para o doutoramento. Louvado seja Deus!, pensava que isso nunca iria acontecer. Ele já tem 41, já não era sem tempo... agora deixa ver quantos anos vai levar a concluí-lo. (Não lhe perguntei se chegou a consultar o Cateda, como lhe sugeri.)

Não percebi bem o tema a que se vai dedicar (acho que ele próprio também ainda não tem a certeza), mas percebi que atravessa a psicologia, a política e qualquer coisa a ver com saúde pública. Parece que esteve a ouvir discursos de políticos na Assembleia da República e a coisa seguiu por aí.


Anneken Barbosa e Cunha



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diário - 08.outubro.2011





Quando ainda em 2010 mudei as minhas funções na loja, passei a ter sossego e tempo livre. Não só porque tenho horário para entrar e sair (coisa que não tinha antes), mas também porque não estou constantemente a pensar na loja - quando se é gerente de um estabelecimento, ele não nos sai da cabeça. Ganho dez vezes menos do que o que ganhava antes, mas também... nunca tinha tempo para gozar o dinheiro que fazia. Quando comprei o trespasse pareceu-me um bom negócio e até foi, ao menos a nível financeiro. No entanto, a insuficiente capacidade de me desligar da profissão levou-me a desesperar por sufocamento. Três anos depois apareceu alguém interessado em comprar-me o negócio e eu vendi, com a condição de me manter lá como empregada.
Nos tempos livres dedico-me à História da Vida Privada contemporânea, nomeadamente a uma zona específica de estudo: a comunicação emocional no chamado período digital (relacionado com o advento das culturas chat, rede social, telemóvel, etc.). Não ganho muito com isto, apesar de me ajudar (de vez em quando) a equilibrar o meu magro orçamento. Não tenho nenhuma carreira académica, apenas o 11º ano incompleto. Nunca tive grande tendência para o estudo na altura em que etariamente o deveria fazer. As notas não eram muito famosas e como já tinha reprovado algumas vezes, achei por bem ir trabalhar.
Uns anos depois, numa feira da ladra em Lisboa, comprei a coleção toda da História da Vida Privada (HVP) do José Mattoso. Comprei-a por razão nenhuma, estava barata, estava completa, enfim, pendi para ali. Pouco tempo depois comecei a lê-la toda, de uma ponta à outra, como se fosse um romance. A-do-rei! Adorei tudo, o tema, a forma de o expor, as conclusões, os detalhes, mas principalmente a surpresa por ter ficado a saber da existência de uma HVP. Achei que podia contribuir e comecei de imediato a investigar por mim. Descobri inúmeras revistas de variadíssima temática (mobiliário, arquitetura, comunicação, culinária, etc.) que publicavam esporadicamente artigos de HVP. Li bastantes, apercebi-me do estilo e imitei.
Ainda comecei a investigar uma área que me pareceu pouco desenvolvida que é a da cabeça capilar, ou seja, todas as manifestações pilosas que podem acontecer na cabeça (penteados, sobrancelhas, pestanas, barbas, bigodes, etc.). Tenho um tio que não corta teimosamente as sobrancelhas desde os 20 anos, o que lhe confere um ar de União Soviética, que me inspirou nesse sentido. Ainda investiguei algumas curiosidades sobre o assunto e descobri, por exemplo, um Campeonato Mundial de Barba e Bigode em Trodheim (Noruega), onde mais de uma dezena de países se fazem representar. Neste desporto (que tem na camaradagem dos participantes a sua mais-valia) a que os envolvidos chamam de bearding, conta com modalidades como freestyle, bigode húngaro, barba imperial, etc.. Como personagens antológicas do certame, destaca-se o alemão (tri-campeão) Elmar Weisse que, numa das vezes, surpreendeu pela escultura de um alce na e com a própria barba. Impossível não referir é o nome de Hans Langseth (morreu em 1927), um norueguês residente nos EUA que, este sim, é o detentor da maior barba registada desde sempre (com aproximadamente 5 metros). Por sua vez, em termos de comprimento contemporâneo, temos o indiano Sarwan Singh com uma barba de quase dois metros de comprimento, o que lhe permitiu a entrada no guiness de 2009. Com a categoria de pelo fatal, temos o caso curioso de Hans Steininger cuja barba (de um metro e meio) acabou por levá-lo à morte, pois ele enrolou-se inadvertidamente nela quando um incêndio deflagrou na cidade em que se encontrava e tentava escapar. Refiro-me ainda a Phineas Taylor Barnum (séc. XIX), um entertainer de época (tendo também sido político, filantropo, etc.). Fundador de artes ilusionistas (não no conceito moderno de mágicos em palco, mas numa intenção de criar no espetador a ilusão da maravilha, promovendo números fingidos, fenómenos alterados, convencendo as sensibilidades mais incrédulas, etc.), a sua primeira incursão no mundo do espetáculo (com enorme sucesso) foi a apresentação de uma falsa velha, supostamente com 161 anos de idade. Acabou por definir a base do que viria a ser o circo moderno e uma das suas muitas atrações era uma mulher com barba grande e, talvez por isso, o nome de P. T. Barnum me tenha aparecido algumas vezes enquanto pesquisava bizarrias capilares.
Achei que, apesar das flutuações formais dos cabelos aceitáveis, o tema se esgotaria rapidamente. Mudei para algo mais contemporâneo e lá encontrei no mundo digital a minha área de eleição. Foi quando publiquei uma série de artigos com reconhecida qualidade sobre a comunicação digital que começaram as solicitações para participar em conferências, mesas redondas, mais artigos, mais artigos. Foi nesse contexto que fui convidada para participar num festival de cultura eletrónica organizado pela UNP. Este festival teve como pano de fundo a invenção do Z3. A UNP decidiu comemorar o 70º aniversário da invenção do Z3, uma vez que está muito ligada à figura do seu inventor (Klaus Zuse), por ser a tutora da Caixa Dourada, cujo recheio tem elevado internacionalmente o nome desta instituição. Dentro da caixa estão as quase 500 cartas escritas por Klaus Zuse, com variados e valiosos conteúdos. O convite que a UNP me dirigiu teve a ver com a intenção de marcar documentalmente, através de testemunhos inovadores e teóricos, esta comemoração. Ocorreu-me então a ideia de publicar uma coleção, (gerindo até algum património humano da universidade, já que esta tem uma centro de estudos digitais na sua Faculdade de Ruturas e Reconstruções), em 10 cadernos mensais. Dada a importância da caixa, concordámos em publicar uma carta no primeiro volume dessa coleção, enquanto para as restantes foram elaborados estudos temáticos na linha de todo o certame, reveladores da importância de tal invenção. Em maio saiu o primeiro volume. No mês passado saiu o número 5 e, tal como decidimos previamente, consideramos por esta altura que a coleção já está devidamente divulgada. Por política de marketing elaborámos uma planificação de lançamentos (alguns com autógrafos), com concertos, exposições temáticas, sempre a marcar a publicação de um novo caderno até ao quinto. Este mês sairá o sexto caderno e tanto este como os restantes 4 já foram entregues na tipografia devidamente revistos. Como a minha colaboração com a UNP se baseou em 3 pontos fundamentais (criar a atividade, concretizá-la e promovê-la) e está tudo encaminhado para que continue sem mim, entro de férias. Falei com a minha patroa da loja (a Dra Jória Costa, também é proprietária de uma tradutora) e consegui marcar férias também para esta altura.
Por essa mesma razão saí de Vila Nova de Santo André e vim passar uns dias a Arganil. É hoje o último dia que cá passo e por isso registo algumas coisas que não posso deixar em branco. Antes de mais, se cá vim foi por uma razão: um insistente convite sempre renovado por amigos que por cá tenho e que nunca antes tivera oportunidade para aceitar. Aproveitando a viagem, apliquei uma conversa que tive há uns anos com um crítico contextualista de arte na qual me disse que se se devem ouvir sevilhanas em Espanha, black metal na Noruega e trance em Israel, então deveriam ler-se obras de certos escritores, preferencialmente nas bibliotecas que os escolheram como patronos. Como a biblioteca de Arganil se chama Miguel Torga, claro está que acabei por ler vários livro do dito cujo. Numa média de 5 horas diárias devorei várias obras de Torga e fiquei absolutamente siderada com o prazer que me proporcionou. Miguel Torga sempre foi daqueles autores que, sem razão nenhuma (agora sei-o!), nunca incluí nas minhas prioridades literárias, talvez por não me apetecer perder tempo de vida dedicado a uma causa de possível desagrado (sou muito esquisita nisso dos livros), sendo que irrecuperável todo o tempo o é.
Nestas miniférias que agora findam fui extremamente bem acolhida e os meus anfitriões levaram-me a conhecer com alguma profundidade a localidade e arredores. É claro que acabo sempre por reparar nos traços linguísticos locais, dos quais destaco "já não trago este casaco" em vez de "já não uso este casaco" e "ia para comer, mas estava fechado", em vez de "ia comer, mas estava fechado".
Sede de concelho, a vila de Arganil pertence ao distrito de Coimbra, tem aproximadamente 4000 habitantes e festeja o seu feriado municipal a 7 de setembro. Teve um primeiro foral concedido em meados do séc. XII, mas revogado. O foral definitivo só surgiu no séc. XVI, pela mão de D. Manuel I. Destaca-se-lhe, com vista sobre a vila, a Mata da Casa da Misericórdia, que permite passeios tranquilos pelo verde com paragens previstas para a prática de exercícios físicos e locais aprazíveis para um pic-nic, não sendo rara a observação de raposas, esquilos e até javalis, na cumplicidade de carvalhos, sobreiros, medronheiros, etc.. O 15 de agosto marca a celebração anual da Senhora do Mont'Alto que leva os arganilenses ao cume do monte com o mesmo nome (Mont'Alto) e que reúne por tradição os familiares ausentes, abundantes nos processos de migração ou emigração.
Troca influências de vizinhança com os concelhos de Penacova, Tábua, Oliveira do Hospital, Seia, Covilhã, Pampilhosa da Serra, Góis e Vila Nova de Poiares e tem visto o número da sua população concelhia diminuir desde o início do séc XX (21.000 pessoas), até aos dias de hoje (13.000), estabelecendo atualmente uma densidade populacional aproximada de 40 habitantes por km2. Conta com testemunhos civilizacionais ainda anteriores às ocupações romanas e é apontado como um dos concelhos mais sofridos pelas invasões francesas. A primeira metade do séc. XX traz benefícios infraestruturais ao concelho, resultado da influência dos movimentos Regionalistas.
O concelho tem atrativos naturais como a Serra do Açor (xistosa), com a presença habitual da coruja do mato, o gavião de asa redonda e o dom-fafe, entre outros e o serpenteante rio Alva (afluente do Mondego) com a sua Albufeira das Fronhas (ideal para o turismo de verão, tal como as praias fluviais de Côja Secarias, Barril de Alva, etc.). No campo arquitetónico, destaca-se a Benfeita como "aldeia do xisto" (com a curiosa Feltrosofia - produção de peças de feltro de design vanguardista) e a "aldeia histórica" do Piódão, classificada como Imóvel de Interesse Público (à semelhança de Idanha-a-Nova, Trancoso, Sortelha, etc.), igualmente caracterizada pela abundância do xisto. É claro que provei tudo o que me foi apresentado como iguarias locais, das quais destaco o bucho, a broa de milho, a compota de maçã, as chouriças, o bacalhau à S. Martinho, a chanfana, a canja de galinha à serrana e, claro, a belíssima tigelada.
Impossível foi não reparar na comunidade de estrangeiros que abunda na zona, gente de vestires coloridos, onde há uma nítida presença das artes nas formas de estar, quer na erudição dos momentos de criação ou fruição, quer na ultrapassagem de pequenos obstáculos do quotidiano.
Há inclusive dois pólos associativos de apoio aos carenciados de afeto, entidades peculiares, inspiradas em obras de arte, nomeadamente, cinematográficas e literárias.
O primeiro que visitei é um centro Jedaista (Religião Jedi - Jedaismo). Baseada unicamente no filme Star Wars, esta religião acredita que há forças dentro de nós que devemos escutar e que unem todas as coisas que existem (que serão as Forças dos Cavaleiros Jedi). Com um número declarado de 70 mil seguidores (australianos) que acreditam na Força, os Jedaistas relevam a importância da autodisciplina e da procura da iluminação, misturando o cristianismo com o pensamento oriental.
O segundo tratava-se da Igreja de Todos os Mundos. Misturando variadíssimas origens das entidades divinas (como a grécia antiga, o egito, etc.) que se fundem com fadas e uma singular interpretação de deus-pai, a Igreja de Todos os Mundos descende diretamente da obra ficcionada "Um estranho numa terra estranha", de Robert A Heinlein, mantendo inclusive o mesmo nome. Fundada em 1962 por Oberon Zell-Ravenheart, segue a mesma linha de inspiração literária que o levou também a criar a Escola de Magia de Grey, desta vez tendo como base a escola Hogwarts da série Harry Potter.
Este ambiente concelhio pró-artes não é recente, havendo até o caso do Teatro Alves Coelho. É interessante a presença deste edifício modernista da década de 1950 (com intervenções dos artistas Aureliano Lima e Guilherme Filipe), pois revela o interesse da população na cultura artística. De saber que a sua construção resultou dos esforço e iniciativa conjuntos de grande parte da população local, na medida proporcional das suas possibilidades.
Para além de me terem fornecido bastantes informações em jeito de viagens guiadas, os meus amigos arganilenses falaram-me, igualmente, de Arganil se orgulhar de ter tido o médico Adolfo Rocha nos seus serviços públicos, conhecido nos meios culturais como Miguel Torga (que também escreveu de forma inspirada sobre a zona), ao ponto de tê-lo nomeado patrono da biblioteca local e de ter comemorado o centenário do seu nascimento a 12 de agosto de 2007. Chegou a ser lançada uma obra reveladora do trabalho que por lá desenvolveu ao nível da medicina, mas também síntese das referências a Arganil na sua obra literária, agrupando num só trabalho Adolfo Rocha e Miguel Torga, as duas facetas da mesma existência.
Adolfo Correia da Rocha (1907-1995) desenvolveu uma multifacetada atividade de escritor, embora tenham sido os contos que o notabilizaram. A partir de 1934 passaria a assinar toda a sua obra literária com o nome Miguel Torga (Miguel em homenagem à cultura ibérica, representada nas personalidades de Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno; Torga talvez para simbolizar a força rude da natureza, pois é o nome de uma planta de montanha que nasce em qualquer rocha árida por causa das suas raízes poderosas).
Tendo estudado num seminário em Lamego, cedo decidiu que não havia de seguir a vida eclesiástica. (Também foi, episodicamente, estudante no Brasil.) Um tio financia-lhe os estudos que a família não poderia suportar e acabou por entrar na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra no mesmo ano em que publicou o seu primeiro livro de poemas, Ansiedade (1928). Imediatamente a seguir incursa na revista Presença e no seu universo cultural, mas rapidamente abandona estes revolucionários modernistas (José Régio, Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, etc.) para seguir o seu caminho independente, sempre fiel à luta pela valorização do trabalhador rural (digno de louvores e admiração ao contrário das divindades, que recusa cantar) e pela justiça, denunciando os excessos dos poderosos (chegou mesmo a ser preso por críticas feitas ao franquismo).
Vive e exerce a sua profissão de médico em Coimbra e arredores, onde produz a maioria da sua obra literária e onde também ficará conhecido pela oposição às tradições académicas: "farda" é o termo que usa para nomear negativamente a estudantil capa e batina.
Também exerce em Trás-os-Montes e de lá absorve cenários naturais e culturais que contribuiriam de forma significativa para criar o universo que caracteriza a sua vasta obra (publicou mais de cinquenta livros traduzidos pelo mundo todo, como, por ex., de poesia Libertação, de prosa Novos Contos da Montanha, de teatro O Paraíso). Chegou a ter uma pequena participação na vida política nacional (após o fim do estado novo), mas a sua personalidade reservada afasta-o das agitações sociais do pós-25 de Abril.
Faleceu de cancro em 1995 pouco depois de ter sido atribuído o Prémio da Crítica à sua obra literária.
Hoje (para marcar a minha última noite por cá) os meus amigos convidaram alguns familiares para jantar, entre os quais um primo que é médico e que reforçou a importância de Miguel Torga nas gentes locais. Num discurso com cheiro a adega, daqueles com palavras enroladas e enrolhadas, lá me falou da importância da medicina e da forma de intervir na vida. Andou sempre à volta da relação corpo/mente, que amiúde trocava (talvez voluntariamente) por medicina/filosofia. Começou por me dizer que em 2001 saiu uma definição de saúde pela OMS (Organização Mundial de Saúde), que a definia como "não simplesmente ausência de doença ou enfermidade, mas como um estado de completo bem-estar físico, mental e social". De seguida defendeu Hipócrates e atacou Platão e os seus dualismos. Focou o ponto central da atenção no corpo enquanto um todo e não em individualizadas distorções particulares patológicas, entendendo-se a noção de equilíbrio como a súmula da totalidade existencial. Falou-me da sua discordância com o pharmacon cosmético (remédios), e de como socialmente se entende que parece ser a chave de todos os males da existência, como se fosse o único elemento interventivo que permite remediar, curar, etc.. Por isso era um saudosista dos tempos em que a quadrissabedoria (corpo, mente, natureza, sociedade) definia a integralidade do ser humano. Não da fase da exclusividade mitológica, aquela em que toda a intervenção curativa se baseava na relação com o sobrenatural. A outra, a seguir, quando se começou isto do pensar a sério. Revoltava-se contra esta modernidade que cava só no seu quintal e que se esquece de olhar à volta. Já quase a espumar ainda me disse que é necessário investigar tudo num paciente, a sua religião, os seus hábitos alimentares, sociais, rotinas profissionais, etc. Só depois se deverá dar atenção à doença propriamente dita. Por isso cada paciente tem uma cura própria que só pode ser única, pois cada pessoa é uma reconstrução do conceito de pessoa. Chegou a defender o relativismo separatista de Artaud no conceito de "corpo sem órgãos", na possibilidade de grandes recriações funcionais dos próprios órgãos por não se terem de subjugar à funcionalidade convencionada, criando novas aplicações (casos do experimentalismo artístico onde o gesto criativo se reinventa em resultados de som, de cinema, de dança, de contorcionismo circense, de pintura).
Amanhã arranco logo pela manhã, quero ainda passar na Nazaré para almoçar e depois, como cantaria o Vitorino, "nada me prende, vou-me embora, vou para o Sul".
O sono já me tocou.
Toco-te a marcha de saída
pa-pa-pa-prrra-pa-pa

Lurdes Almeida Ganchinho
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diário - 08.fevereiro.2011


Olá, experiência temporal

Antes de mais, deixo o desabafo de nunca ter pensado em escrever um diário, pois a noção de tempo em blocos de 24 horas nunca se me colocou como algo relevante, uma vez que na nossa história só costumamos deixar registados os acontecimentos importantes de um bisséculo. No entanto, a adoção desta forma de vida planetária implica uma adaptação que também passa por isto de viver cada dia. Assim se faz por cá, assim o faremos também sempre que possível.

Lá para setembro vou entrar numa fase Out e neste momento estou em grande expetativa pois integro uma equipa de apoio a uma campanha presidencial, cujos resultados daqui a uns dias serão conhecidos. Segundo as sondagens, o meu candidato sairá vencedor pelo que já começaram as movimentações de bastidores relativas a algumas áreas da governação, cuja continuação estratégica dependerá muito do presidente eleito, já que os candidatos se envolveram nalguns temas bastante específicos, nomeadamente: a educação, a economia, o ambiente e a cultura.

No meu caso, comecei por ser convidado para integrar um grupo de trabalho que está a elaborar uma forma de pagar a dívida que o país tem ao estrangeiro. Consiste esta proposta, em traços gerais, em determinar, em função dos rendimentos médios dos últimos 5 anos (à percentagem, portanto) o que é que cada cidadão tem de pagar para que o país nada deva. Depois, é só criar um imposto personalizado pago num período de 5 anos, com anualidades obrigatórias, mas com a possibilidade de amortização. Parece-me interessante pois permite a cada pessoa, em qualquer altura, consultar a página online onde consta a sua dívida e poder ir controlando o seu próprio processo.

Acabei por não aprofundar muito a minha participação neste grupo, não só porque não é um tema que me motive, mas também porque consegui encaixar-me num outro de reflexão sobre a educação. Contacto puxa contacto e lá fiquei a liderar essa outra equipa. Em vez de apenas elaborarmos uma reflexão (com sugestões) sobre o estado da educação, como estava inicialmente previsto, acabámos por propor alterações profundas, de tal forma eram negativas as conclusões a que chegamos.

Apesar de ter desde sempre intenções de participar apenas nesta secção sobre a educação nacional, aceitei todos os convites que me foram sendo feitos pela equipa da campanha presidencial, para assim ter uma maior área de atuação e, consequentemente, de influência. Por isso, antes de conseguir dedicar-me exclusivamente à minha área favorita, ainda assumi alguns compromissos que tenho de honrar, mesmo que já não ocupe os respetivos cargos. É claro que fui aceitando aqueles que, de alguma forma, poderiam estar relacionados com a cultura espacial terrestre e este que tenho em mãos trata-se da criação de uma associação onde todo o conhecimento espacial possa estar reunido (o que é ótimo, pois torna-se-me mais fácil a tarefa de ir controlando os seus desenvolvimentos). A cultura espacial está bastante espalhada, o que quer dizer que os interessados têm dificuldade em ter acesso a tudo o que se vai fazendo, o que também impede qualquer tentativa de dar seriedade à coisa e de distinguir o trigo do joio. A criação dessa associação passa por esta fase inicial, composta por um festival de 4 dias de conferências e que se pretende que aconteça uma vez em cada dois anos. Este ano, para arrancar, optámos por um determinado formato; na próxima edição os próprios membros da associação decidirão como o fazer. Decidimos dividir os dias por temas a culminar diariamente com um concerto. Para o primeiro dia destinámos as artes, os cultos para o dia de hoje, amanhã virão os cientistas e no último dia eu intervenho, apresentando um documento com os estatutos da associação. Este documento servirá apenas como base de trabalho e discussão para o texto final que, formalmente, definirá a associação. Espero que todos colaborem nos trabalhos e que não haja divergências suficientemente grandes para impedir a criação desta plataforma comum. Na minha proposta está também considerada a criação de um espaço físico (onde possa haver encontros pelo menos uma vez por ano e onde esteja reunido algum espólio informativo, uma mediateca que reúna as diferentes sensibilidades com que contamos à partida) e um online. Para o espaço físico já há uma proposta da autarquia local (no Bairro Leopardo Azul, cá em V N Sto André) que até permite a colocação de um disco voador com um diâmetro de 12 metros criado por um artista local e que servirá de emblema da associação. O espaço online servirá como arquivo de dados, mas também como boletim informativo onde todas as mais diversas atividades possam ser divulgadas sem demoras. Para além dessas funções, permitirá também ir trocando saberes em tempo real, num formato parecido com o do facebook, mas numa versão mais privada, só para associados. Desta forma religiosos, artistas, cientistas ou pensadores livres terão um espaço próprio e não se sentirão tão desamparados. Proponho que se chame "Ar.C.Clar" como forma de homenagear um homem que reúne nas sua obras todas as áreas do saber espacial, Arthur C Clarke.

Ontem foi o dia dos artistas e foi dinamizado pelo casal residente nos EUA Julie Bell e Boris Vallejo: ela, pintora texana, nascida em 1958, conhecida principalmente pelas centenas de capas que assinou de publicações ligadas ao tema da ficção científica; ele, peruano, nascido em 1941, discípulo de um certo surrealismo, bem como das ilustrações de Frank Frazetta (emblemático autor da fantasy art conhecido principalmente pelas suas ilustrações de Conan, o Bárbaro). Ainda houve a intervenção de dois realizadores de cinema, um dramaturgo, um escritor de ficção alienígena e um músico dos Current 93, a banda que atuou ontem no certame. Ainda que todos os outros estejam diretamente ligados à abordagem espacial, este músico dos Current 93 representa um movimento-fusão (TOPY) que, não pretendendo integrar a associação, participará nas conferências a título de convidado especial. Tanto os Current93 como os Psychic TV (o grupo que atuou hoje) quando perceberam o tema do certame e me informaram que ambos integravam os TOPY (o tal grupo de mágicos a que pertencem) mostraram interesse em participar de alguma forma. Acabei por convidá-los a discursar, pois por várias vezes esta sigla me apareceu à frente e sempre ligado a interessantes movimentações culturais, pelo que não perdi a oportunidade. Contendo erros voluntários, determinados em recriar processos comunicativos com vista a compreender melhor o interior de cada um, TOPY (Thee Temple ov Psychick Youth) resulta de uma combinação entre arte e magia (tendo sido criada por elementos de grupos musicais como os Current93, os Coil e os Psychic TV). Apesar do recurso a um certo misticismo mágico, concentram-se em aspetos psíquicos do ser humano, tendencialmente libertadores de sentimentos de culpa. Funcionam em rede dinâmica (em evolução constante) e têm Aleister Crowley como uma das suas influências. Têm tido um certo peso nos meios mais underground da cena mágica pró-caos.

O Astor é que gostaria de ter assistido, ele sempre foi um interessado pela forma como o tema alienígena é tratado na arte - eu sempre me senti mais atraído pelas organizações.

Apesar das intervenções dos artistas, ainda há a exposição de quadros dos próprios, patente durante todo o certame, com a particularidade de contar ainda com obras clássicas de alguns surrealistas consagrados e outras nunca expostas do hiper-realista Hubert De Lartigue. Este francês que se diz viciado na beleza feminina também tem trabalhado para capas de livros de ficção científica e de tal forma a sua arte é incorrigível que é sempre necessário pensarmos, ao olhá-las, que não são fotografias.

Destaco com surpresa, a intervenção do tal escritor, já no fim do dia, o algarvio José Vieira Calado, nascido em Lagos em 1938. A publicar livros desde a década de 1960 (que chegaram a ser censurados pelo regime de então), Vieira Calado estudou em Lagos, Portimão, Faro e Lisboa, mas também em Londres e Paris. Aliando a literatura à astronomia, este autor, que ainda hoje intervém com regularidade em diferentes publicações, apresentou uma comunicação muito curiosa, um misto de ficção, ciência, futurologia e mitologia, salpicada de poesia new age.

Ontem ainda almocei com a minha amiga Olinda Gil com o intuito de levá-la a ver a exposição de arte espacial, para ver se a influenciava a adotar outros temas para os seus quadros (é que o étnico que ela desenvolve não é o que mais me atrai na arte), mas não creio ter tido sucesso. Estes artistas por convicção são difíceis de mudar, mas ainda bem. Que haja alguém com determinação neste mundo flutuante das artes. A minha amiga Olinda Gil é um dos mais dinâmicos nomes portugueses do movimento contemporâneo da Arte Privada, que conhece na internet um dos seus momentos de maior apogeu por dispensar intermediários na comunicação global. Este movimento artístico espontâneo de indivíduos autónomos que vive e se estende fora dos circuitos oficiais, sem recurso a júris, críticos ou avaliadores presunçosos (e que a internet tanto permite) é composto, quase na totalidade, por artistas que não têm na arte a sua fonte de rendimento principal e que, por isso, acabam por ser mais honestos pois não se submetem ao capricho do mundo financeiro, não se "vendem". De origem beirã (Covilhã), esta residente no concelho de Odemira (distrito de Beja) que também viveu em Moçambique, reflete, sem dúvida, uma certa influência do moçambicano Malangatana. Do seu traço, carregado de uma ingenuidade voluntária, volumetrizam-se multiplicidades cromáticas. Olinda, a professora de História, mistura-se com Olinda, a pintora, e de ambas as sensibilidades saem temáticas como o mitológico-tribal, o sacro-cristão e o natural-psicadélico, aliados a uma vontade pessoal de intervenção social na contemporaneidade. Essa vontade é apanágio da pessoa que assina as obras, dotada de personalidade forte, mas doce, salpicada por um omnipresente sentido de humor e uma capacidade de agradecer e iluminar os que a rodeiam.

O dia de hoje foi então marcado pela presença dos representantes de diversos cultos relacionados com o nosso tema, a saber: Igreja da Cientologia, Nuwaubinismo, Pessoas com Poderes Cósmicos de Luz e Raelianos. A todos foi pedida a apresentação da parte da sua teoria que se identifica com a relação interplanetária, bem como dos seus programas de interpretação e ação. Começou com a "Igreja da Cientologia". Tendo criado um sistema de auto-ajuda denominado Dianética, a igreja da Cientologia, que surge em 1952, estabelece patamares de evolução nos quais o crente vai tendo acesso a informação mística, própria e exclusiva de cada patamar. No nível mais elevado consolidará informações relacionadas com a capacidade de isolar do corpo os efeitos nocivos da ação dos espíritos que habitam os seres humanos, os thetans, mas também com a odisseia de Xenu, da Confederação Galática, que há 75 milhões de anos trouxera para a Terra milhares de pessoas para assassinar em vulcões com bombas de hidrogénio (os sobreviventes povoaram o planeta). Após os cientologistas, seguiu-se o Nuwaubinismo. Tendo iniciado atividades como um grupo islâmico negro, em Nova York, nos anos 70 (séc XX), este grupo segue o pensamento de Dwight York. Sofreram imensas mudanças, tendo o seu mentor chegado a ser preso por lavagem de dinheiro e pedofilia. A sua forma de pensar foi influenciada pela Teosofia, Rosacruzes, numerologia de Rashad Khalifa e a teoria dos astronautas antigos de Zecharia Sitchin (a parte mais desenvolvida na intervenção de hoje). Nos seus dogmas encontram-se curiosidades como a importância de se sepultar a placenta, evitando assim que Satanás a use para fazer um duplicado da criança; a existência de sete clones vivos de cada pessoa espalhados pelo mundo; a manipulação genética do Homo Erectus, em Marte, de cujas experiências resultou o Homo Sapiens. Depois de almoço falaram os representantes das PPCL (Pessoas com Poderes Cósmicos de Luz). Tendo como nome principal o checo Ivo A. Benda, as PPCL desde 1997 que baseiam as suas crenças na interação entre seres humanos e extraterrestres, quer de forma telepática, quer mesmo ao nível do contacto direto. Naves espaciais comandadas por Ashtar Sheran aguardam para levar os crentes a outra dimensão e a outros planetas, num contexto de catástrofe cósmica, mas no entretanto, atuam no sentido de precaver os seres humanos contra ataques de extraterrestres maléficos, os Saurians. Chamaram a atenção dos média por serem um potencial culto de suicídio coletivo. Em termos de fontes, há um pouco de tudo nos seus ensinamentos, desde a teoria da conspiração (em que as forças do mal pretendem controlar todas as nossas ações através de chips), do cristianismo (estabelecendo Cristo como um entidade de vibração especial) às próprias teorias alienígenas. Terminámos em beleza com os Raelianos. Tudo começou em 1973, quando o francês Claude Vorilhon avistou um OVNI cuja criatura lhe passou uma mensagem sobre a origem da vida, fazendo com que mudasse o seu nome para Raël ("mensageiro") e passasse a ser sustentado pelos crentes na regra do dízimo. Este afirmou ter sido levado ao planeta dos Elohim num disco voador e lá conheceu terráqueos famosos, como Jesus, Buda, Joseph Smith (fundador dos Mormons) e Confúcio, tendo sido informado que seria o derradeiro profeta a levar uma mensagem de paz e meditação sensual à humanidade até ao ano de 2025, ano em que os Elohim retornarão a Jerusalém. Entendem a clonagem como o caminho para a imortalidade, recusando a existência de Deus e de alma e sublinham a ideia de termos de viver uma vida livre de limitações morais, hedonistas, sexuais, etc. Oferecem um serviço de clonagem humana aos seus 50.000 seguidores (serviço considerado pura fantasia pela comunidade científica) espalhados por 85 países. Nas provas históricas da sua tese da criação do mundo, misturam lendas e teorias da conspiração com as visões de OVNI por todo o mundo, usadas como confirmação de que uma raça superior nos terá criado em laboratório, bem como toda a vida na Terra, a partir de DNA alien. Opositores das teorias evolucionistas, sustentam-se na alegada descoberta de um mecanismo no DNA que, funcionando como restaurador do sistema, impede mutações e a consequente evolução e diversificação das espécies.

Amanhã é o dia das ciências, em que várias universidades e fundações se farão representar, bem como nomes independentes (não alinhados, controversos - veremos como vai ser). É o dia que tem mais intervenções previstas e os temas vão da Radioastronomia à Astronomia Ótica, passando pela Mecânica Celestial, Raios Gama, Ciências Planetárias, Astronomia Solar e Cosmologia.

Se ontem almocei com a Olinda, por seu intermédio almocei hoje com uma amiga sua que ontem não pôde vir ver a exposição, mas que veio hoje. Gostei de a conhecer e fiquei interessado em, ainda este ano (antes de entrar em Out), recorrer aos serviços da agência de viagens onde trabalha, nomeadamente ao pacote bienal chamado PIHTE (Património Imaterial da Humanidade Tour Experience).

A sua agência de viagens aproveitou o facto de saber que o fado pode vir a ser incluído na lista das obras do Património Oral e Imaterial da Humanidade e candidatou-se com sucesso a um subsídio concedido pela secção para a Educação, Ciência e Cultura (entidade que distingue as obras a incluir na já longa lista de expressões a manter para a eternidade) da ONU. Nesta lista estão incluídos costumes, lendas, festividades e um sem número de expressões (danças, músicas, poemas, etc.) Sem dúvida que é uma atitude anti-globalizante, mas simultaneamente pró-globalizante, pois se impede que a uniformização se instale e que façamos tudo da mesma maneira (promovendo os orgulhos locais), também permite que todo o mundo passe a conhecer e quiçá adotar a forma de estar particular de um grupo específico. Enaltece-se o orgulho de uma tradição e, simultaneamente, a sua banalização porque passa a estar exposta em todo o mundo. Promove-se esse bizarro (mas adorável) fenómeno social chamado de paralelismo cultural.

A ideia partiu do princípio de que para se compreender uma determinada atividade cultural há que apreender 3 quadros: 1, pré Vivência (momento de grande criatividade, muito experimental, pouco fixo e com variadíssimas influências), 2, Vivência (período auge em que já é adorado e em que cristalizou num determinado formato, apesar das alterações contextuais que se verificaram desde o seu surgimento) e 3, o seu período de sobre Vivência (a fase contemporânea, em que já foram completamente alteradas as condicionantes, não só da sua emergência, como do seu período auge e em que começam a surgir as fusões com outras formas de estar). Tudo funciona ou por recriações históricas, ou por visitas a locais emblemáticos, basicamente.

Falou-me, não só dos programas de viagens que já têm em funcionamento neste biénio, bem como dos projetos que estão a desenvolver para o próximo, 2013 e 2014. Como se trata de um pacote de viagens diferente do habitual, é necessário pelo menos dois anos para preparar tudo. Na tentativa de me convencer a tornar-me cliente do PIHTE, falou-me dos destinos que têm para oferecer. Em África, podemos ir ao Malawi apreciar o uso dos "ng'oma" (que poderíamos traduzir como "tambores de aflição") ligados a um certo tipo de prática curandeira nativa; ao Egito, para fruir o poema épico Hilali, ainda interpretado de forma ancestral, com acompanhamento de percussão ou rabab (um género de rabeca com duas cordas apenas); a Marrocos, para visitar a praça Jama el Fna (em Marrakesh), enquanto espaço privilegiado para as mais diversas manifestações culturais (música e dança ao vivo, encantadores de serpentes, tatuadores de henna, contadores de histórias, etc.) Se preferirmos as Américas, temos o México, na altura das festas nativas dedicadas aos mortos - importantes ainda nas ramificações culturais contemporâneas e dispersas (por influência) por inúmeras outras manifestações mexicanas; à Colômbia, para o Carnaval de Barranquilla, cidade de grande miscelânea cultural (este carnaval caracteriza-se por misturar músicas e danças nativas com outras oriundas do Congo africano e de Espanha) e quer ao Equador, quer ao Peru pela herança cultural do povo Zápara, dos mais antigos da Amazónia, cuja cultura oral se ramifica no entendimento da floresta, da mitologia e da arte. Finalmente ainda têm pacotes de viagens para a Ásia, nomeadamente ao Camboja, para assistir à dança clássica khmer, integrada milenarmente no folclore local, com participações regulares em casamentos, funerais e coroações e com um formato fixo de 4 personagens, a saber: o macaco Sva, o gigante Yeak, a mulher Neang e o homem Neayrong; ao Bangladesh, para os Bauls que, não se resumindo a um conceito religioso organizado (ainda que com influência de quase todas as devoções locais, caso dos hinduismo, budismo, sufismo, etc.) nem pactuando com o rigoroso sistema de castas, vivem das canções que interpretam acompanhadas pela ektara, um instrumento de uma única corda; ainda ao Iémene, cuja música tradicional está presente nas mais importantes festividades nacionais e conta com um intérprete vocal acompanhado por um género de alaúde chamado qanbus e um instrumento de percussão feito de cobre (o improviso é um dos seus mais emblemáticos ingredientes).

Pela rapidez com que quiseram pôr a coisa em prática, só conseguiram pacotes para estes três continentes, no entanto, para o próximo biénio já andam a tentar abranger o mundo todo, incluindo Portugal, se o fado for mesmo incluído na lista do Património Imaterial.

Mostrei curiosidade sobre o que é que já tinham pensado para o próximo biénio. Mostrou-me alguma documentação que me permitiu saber alguns nomes que andam a preparar e reparei que para a Europa têm o fado (assim se confirme a sua integração), os contadores de histórias turcos (os Meddah), os rituais e artes da região de Shoplouk (Bulgária) e o canto polifónico gutural a quatro vozes italiano. Para a Oceania apontam para a possibilidade de proporcionar a fruição dos complexos padrões geométricos desenhados na areia pelos Vanuatu e dos discursos cantados de Tonga. Ainda não me quis dar mais informações, pois, não só não me quer desviar a atenção do programa que têm em funcionamento, como também ainda não têm as garantias de segurança por parte das entidades locais, condição necessária para organizarem as visitas.

Perguntei-lhe por que razão não promovia viagens ao património espanhol, já que, que eu saiba, há pelo menos duas referências na ONU: o Patum de Berga (festividade medieval que mistura o cristianismo e o paganismo e que consiste numa manifestação processional com cavalos, demónios, dragões, anões macrocéfalos, etc., todos a caminho de uma dança final chamada Tirabol) e o Mistério de Elx (encenação cantada em valenciano e latim de influência barroca e renascentista, em dois atos, que recria episódios da vida da Virgem Maria). Disse-me que sim, que já tinham pensado nisso, mas que apesar de já terem enviado solicitações protocolares às entidades espanholas, ainda não obtiveram qualquer resposta. Se até meados do próximo ano não houver feedback, avança só com os que já estiverem assegurados.

Mostrou-me então o que pode estar previsto para uma possível viagem ao mundo do fado Falou-me de um projeto de 3 dias (e noites), em que num primeiro se visitará Lisboa, terminando a noite em casas típicas de fado; num segundo os turistas poderão optar por ir, ou a Coimbra assistir ao chamado fado estudantil ou fazer o mesmo, mas numa adega típica de Évora, para ouvir um tipo de fado mais aristocrático; no último dia, poder-se-á proporcionar um regresso a Lisboa ou a outra cidade portuguesa qualquer, desde que esteja programado algum concerto de fado esticado (conceito seu, aplicado aos que esticam o conceito fado até aos seus limites, quer estilizando-o numa certa forma de usar a voz ou pelo simples facto de promoverem a sonoridade da guitarra portuguesa, culturalmente associada ao fado). Apontou-me nomes como os Deolinda, A Naifa, os Trilhos, entre outros, e frisou que todo o projeto do fado ainda está em estudo, pois vai depender do sucesso da candidatura.

No fim do dia voltei a casa e vi um e-mail do Astor. Fiquei curioso pois decidimos já há um tempo que não entraríamos em contacto. Depois de aberta a mensagem fiquei a saber que no dia 8 de setembro o meu amigo vai passar o testemunho da sua Centoze, em cerimónia pública para a qual estou convidado.

Deve ser a última vez que nos encontramos durante uma valente temporada pois até ao final do ano ambos passaremos a Out, o que implica, no meu caso, grandes biotransformações. Após se ter verificado a irreversibilidade da deterioração atmosférica e a nossa comunidade se ter dividido, os que já nasceram e foram criados no interior do planeta passaram a beneficiar do refinamento do ar marciano interno e deixaram de envelhecer. Algum tempo depois, começaram as pesquisas genéticas e descobriu-se o efeito de um nutriente desconhecido (ainda hoje) na Terra, que funciona, não só como um economizador de proteínas, mas também, quando combinado com algumas plantas nativas (na sua última fase da passagem de animal a planta), como um elemento de gestão celular. Na Terra este produto não teria muito sucesso, pois o seu efeito transformador necessita de um período aproximado de 200 anos para se verificar em pleno e a vida do Homem Contemporâneo (HC), como é sabido, gere-se em períodos de 8 décadas.

Assim, uma vez em cada dois séculos cada um de nós pode optar por um processo diferenciador, submetendo-se apenas a uma única intervenção injetável. Ou seja, em cada dois séculos as nossas existências poderão levar um input decisivo - se quisermos qualquer tipo de transformação é suposto decidirmos, nessa altura, por onde caminharemos, se queremos seguir pelo remorfismo, ou pelo monomorfismo.

O Astor optou pela monomorfização. A monomorfização é a manutenção da mesma estrutura física com ligeiras adaptações exteriores num processo muitíssimo lento de remorfização. Por se tratar de um processo que dura dois séculos, o acompanhamento quotidiano dessas alterações torna-as absolutamente imperceptíveis, muito semelhantes ao conceito de crescimento do HC, mas ainda mais lento. A outra grande diferença é que enquanto no HC essa evolução tem um percurso degenerativo, no Homem Antigo (HA) essa evolução é apenas remorfizadora. Por haver apenas algumas alterações exteriores (por exemplo, mudança de nariz, cor da pele, tipo de cabelo, forma do corpo mais esguia ou mais encorpada, etc.), a estrutura física interna da pessoa é mais resistente e duradoura. Só mesmo um acidente muito trágico poderá levar à sua morte, pois todos os outros tipos de perturbação são completamente regenerados. Por norma a mortalidade dos monomorfizados é de apenas 3% por milénio. Eu optei pela remorfização, que acaba por me dar uma estrutura mais débil, já que chega aos 26% por milénio a mortalidade dos remorfizados. Como podemos mudar completamente a nossa fisicalidade (interior e exterior), de cada vez que o fazemos há um período de adaptação existencial (de aproximadamente 20 anos) durante o qual estamos mais frágeis e mais expostos a acidentes irrecuperáveis. Daí que muitos HA se refugiem durante esses períodos em zonas de hibernação.

Apesar de ter começado por uma ou duas experiências de monomorfização, rapidamente passei para a remorfização e remorfizado me tenho mantido desde então. Não sei já em quantos milénios vou, pois não costumamos contar o tempo de vida individual. Temos um sistema de arquivo central que nos permite saber todas as nossas opções bicentenárias, bem como a data exata do nosso nascimento e todas as ocorrências que registámos. A coisa funciona assim: de cada vez que somos chamados a decidir pela morfose desejada, dirigimo-nos ao serviço central e deixamos registada uma ou duas informações do nosso bisséculo anterior, que consideremos dignas de registo. É a única forma que temos de ir escrevendo a nossa história individual e, consequentemente, a coletiva. De referir que a nossa sociedade não é composta por acontecimentos coletivos, pois não há projetos mobilizadores, pela ausência de qualquer necessidade de gerir tempos, já que ninguém morre por qualquer tipo de noção relacionada com a passagem do tempo.

Desde cedo virei-me para a remorfização que, apesar do relativo risco, me permite uma diversidade existencial muito mais intensa. Personalidades mais conservadoras como o Astor (muito ligado às questões históricas, filosóficas e culturais) são tendencialmente monomórficos, já personalidades mais exploradoras (mais racionais, lógicas e pragmáticas), como é o meu caso, acabam por optar pela remorfização. Coincide a minha renovação bicentenária com este momento em que estou prestes a sair do Juan de San Episus e agora vou me transformar numa ave (deixarei então de escrever este diário, razão que me leva a fazê-lo agora com mais detalhes). De referir que só há uma coisa que nunca fica alterada com as nossas transformações, que é a memória total da nossa existência. Ainda não decidi o tipo de ave em que me quero transformar, apenas que quero muito sentir a sensação de voar, ter penas, bico, ver as coisas do alto. Tenho de ter cuidado com predadores (se for muito grande, só tenho as pessoas como predadoras, se for muito pequeno, posso até passar despercebido às pessoas, tenho é de estar atento aos outros predadores animais). Ando a considerar a hipótese de me transformar num pombo, pois parece-me uma ave que facilmente se passeia pelas cidades e que pode assistir ao que quiser sem dar nas vistas. Isso permitir-me-á observar a atividade humana.

Ca Pal

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