----------------------
sema oco
as minhas literaturas
diário - 21.novembro.2011
----------------------
diário - 15.novembro.2011
15 novembro 2011
Hoje faltei ao trabalho. Não fui, não disse nada, não avisei, simplesmente acordei e não me levantei. Se começou por ser uma incapacidade, tornou-se, com a substância do próprio ato, numa necessidade e agora é uma totalidade. Amanhã lá terei de enfrentar o patronato e toda a sua ignorante forma de fingir que nos entende, como se os trabalhadores fossem uma massa única com um só pensamento e um só prazer e tudo, tudo estivesse relacionado com a maldita profissão para que a vida estupidamente nos empurrou. Ainda tenho colegas que se emocionam com pormenores profissionais, eu costumo embebedar-me com isto de fingir que concordo e adiro quase sempre ao processo da robotização comportamental. Passo as horas de trabalho sempre à espera do momento da repersonalização (aquele em que deixo de me prostituir laboralmente e volto à minha verdadeira vida). Amanhã lá enfrentarei as feras, mas ao menos hoje estive longe de tudo aquilo e o tempo que fruí e ainda fruo é meu!, só meu! O tempo que hoje vivi, de isolamento, foi mais importante que qualquer outro na funcionalidade da existência social. (Como diria Alberto Caeiro: Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, / Não há nada mais simples / Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte. / Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.) Resumindo, fiquei na cama a ver TV e a viajar na web. Resumindo, hoje não aconteceu nada. Resumindo, a neura foi constante ao longo do dia. Então, se hoje não aconteceu mesmo nada, só mesmo a rotina já física de escrever esta merda deste diário me impele a continuá-lo. Apetece-me destratar (como diria o Fernando Arriaga), falar mal, injuriar, blasfemar (segundo J. Saramago, o direito à heresia deveria estar consagrado na carta dos direitos humanos).
Será que ninguém se enxerga naquilo que é macro estrutural? A ideia da especialização tem interesse no desenvolvimento de competências profissionais, mas nunca na totalidade do puzzle desarmónico que é a vida de cada indivíduo. Como passei o dia enfiado em casa atrevi-me (de vez em quando acontece-me) a pensar na global picture. Quando o faço fico deprimido. Não aquelas depressões dos comprimidos e inconsciências, mas as outras, as reais, as que resultam de pensar a vida como se houvesse alguma lógica nisto da existência. A depressão advém da conclusão de que afinal não há! Aliás, a própria noção de vida para além da vida (reencarnada ou embarcada) deve ter sido criada por alguém que achou que era necessário inventar um sentido para as coisas e percebeu que tinha mesmo de ser inventado, porque de facto não havia. Decidi que o dia de hoje não haveria de ser comum. Poderia continuar nas alucinações coletivas que tanto caracterizam os que me rodeiam, os ditos meus semelhantes. Refiro-me às religiões, aos futebóis, às políticas, entre outros projetos mobilizadores e fundadores de esperanças. Há ainda os que têm filhos, muitos, e que, por isso mesmo, deixam de ter tempo para o presente, entretidos que andam nos futuros possíveis a precaver. Este meu estar visceral de revolta até me fez pensar em aderir à Igreja da Eutanásia, só para chatear... De referir que esta Igreja da Eutanásia tem como principal ideia a de não procriar (é por isso apologista de todas as relações naturalmente estéreis, como as homossexuais) e a de promover a morte. É natural que ande sempre envolvida em confrontos com os ativistas pró-vida cristãos, bem como com todas as associações homofóbicas. Inspira-se no excesso populacional planetário e as consequências daí surgidas, nomeadamente ao nível dos recursos e de problemas sociais. Criada em Boston pelo sacerdote Chris Korda, pretende criar o equilíbrio entre todas as formas de vida, promovendo o suicídio, o aborto, o canibalismo (mas nunca matando para esse fim) e a sodomia (termo usado tecnicamente como símbolo de qualquer tipo de sexualidade que não resulte em procriação).
Ainda a propósito de projetos mobilizadores, li num jornal online que foi hoje mesmo divulgado o relatório do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência. Do relatório falava-se pouco no artigo, mais se veiculava a opinião de um médico da sinistra Associação Portugal Livre de Drogas, um tal de Manuel Pinto Coelho. Segundo este, o tratamento que está a ser posto em prática erra, não só porque a opção é pelas drogas de substituição, o que mantém a dependência (não evitando situações de recaída, nem fornecendo aos pacientes os instrumentos psicológicos que lhes permitam algum controle emocional - já que parece ser esta a principal questão e não outras do foro médico), mas também porque está vocacionado para as clássicas heroína e cocaína (quando os problemas emergentes têm a ver com novas drogas sintéticas). Só espero que não seja mais um daqueles pensamentos bonitos, mas inúteis, que por aí tanto há sobre os temas da marginalidade. Lembro-me de ter assistido a uma sessão pública sobre drogas, aí na década de 1980 e de ter sido apresentado um argumento que defendia o não consumo, fundamentado na ideia de que se tomar drogas serve para fugir ao quotidiano, então de nada valerá, pois acaba-se sempre por ter de voltar e enfrentar a mesma (por vezes dura) realidade que deixamos momentos antes. Logo na altura achei isso uma absurdidade. Ora vejamos, de acordo com esta ideia, nunca se poderia fazer nada que servisse como distração, pois as distrações são efémeras... alargando o conceito, nunca ninguém iria de férias (pois acaba-se sempre por ter de voltar ao mundo que se deixa). O único argumento verdadeiramente válido é o da habituação e consequente incapacidade de se desligar da rotina consumista, o que se torna nefasto porque exagerado, com todas as consequências para a saúde individual. Aliás, vim depois a descobrir, que o orador dessa sessão era um engenheiro agrónomo que dava aulas, mas como tinha horário imcompleto acabou por ter de dinamizar um clube escolar relacionado com estes temas e que por isso sabia tanto da coisa como a minha avó. É incrível como põem estas pessoas a falar em público. Aliás, qualquer título serve, hoje em dia, para que a pessoa seja logo incorporada numa coisa qualquer, independentemente da sua área de formação. Sou capaz de (já que se vive tanto a cagança dos títulos) tirar uma porcaria de uma graduação qualquer, só para dizer que sim. Até ouvi dizer que quanto mais impercetível for o tema da tese defendida, mais portas se abrem. "A eficácia comparativa do morder e do lamber um gelado, enquanto momento digno de registo nas diferentes biografias sensoriais, nas perspetivas individual (consciente) e social (inconsciente), na sociedade da viragem do milénio" podia bem ser um título de uma tese de doutoramento. No fundo este estar da treta generalizado vem dos exemplos de cima. Refiro-me, obviamente, aos políticos. Vejamos, quando um político faz algo que se descobre estar errado, vem logo a público dizer que assume a culpa. É claro que se trata apenas de uma farsa pública pois, de culpado, apenas diz lá as palavrinhas mágicas, agora agir em conformidade é que nada! Eles esquecem-se que nós não funcionamos como confessionário e que não basta rezar umas avé-marias e a coisa esquece-se. Não, nós temos memória e NUNCA perdoamos.
Na única fase da minha vida em que me dediquei à política, fiz parte dos AgriCultura e uma das nossas políticas era a do discurso lapidar. Tínhamos sempre que estudar muito bem as palavras e nunca prolongar um discurso em figuras de estilo, paralelísticas, gradativas, metafóricas, enfim. Era absolutamente proibido e contra todos os nossos princípios imitar o estilo dos políticos das nossas praças. Até mesmo quando apresentei a minha proposta achei necessário dá-la a ler a alguns amigos para que me eliminassem quaisquer figuras de retórica, que teriam ido inconscientemente no texto, de tal forma nós somos condicionados a um certo tipo de texto politizado. Foi uma pena não ter sido aplicada, é claro que teria de ser apreciada na prática, avaliada e ir sendo corrigida aos poucos até à sublimação. Mas essa sublimação estava garantida, pelas avaliações anuais que o nosso programa político previa, tanto enquanto AgriCultura como no aglomerado Oklo. A minha proposta (rejeitada pelos meus próprios camaradas e que me fez afastar definitivamente da vida política ativa), tinha a ver com a gestão dos transportes urbanos. A principal estratégia da minha proposta consistia na nacionalização de todos os veículos privados, na criação de parques de estacionamento públicos especiais, na transformação de todos os veículos em híbridos com o recurso à eletricidade (para cujo efeito se construiriam as barragens necessárias) e na atribuição de um porta-chaves-crédito renovável a cada cidadão condutor. A cada cidadão seria cedido um porta-chaves eletrónico. Esse porta-chaves conteria um código interno, alterado periodicamente. A atribuição de um código a uma pessoa teria a ver com uma gestão de créditos. Os créditos periódicos corresponderiam aproximadamente a 1000 km. No entanto, revertido em pontos, esses 1000 km poderiam demorar menos tempo a gastar, caso o utente optasse por usar um veículo com uma maior cilindrada. Podia-se ainda aumentar o crédito atribuído, com pedidos especiais relacionados com atividades profissionais, bónus anuais, ou casos especiais a considerar. O registo de infrações rodoviárias (ou outras), bem como certas informações de nível psicológico, poderiam fazer reduzir o planfond. Como os carros seriam carregados eletronicamente, a sua energia esgotar-se-ia. Por isso, cada utente deveria levar o veículo para um parque de estacionamento especial. A criação desses parques de estacionamento públicos especiais que ficariam anexados aos Centros de Recursos (onde se fariam as trocas de bens) consistia na criação de parques com um sistema wireless. Bastaria que um veículo estivesse lá estacionado durante 10 horas para carregar o sistema com uma autonomia que iria até aos 5 dias. Era perfeito.
Termino o meu registo do (bizarro) dia de hoje refletindo sobre uma das minhas últimas atividades do dia: cortar as unhas, por analogia cortar qualquer coisa de mim. Se deixar cair alguma coisa em cima de um dedo, provoca-me dor, ao provocar-me dor produz um mal estar em mim que me afeta em termos de personalidade e comportamento. Ou seja, aquele dedo dói-me, logo faz parte de mim, portanto sou eu. No entanto, se vou cortar o dedo e o afastar de mim, fico a olhar para ele e chego à conclusão de que afinal já não sou eu: há uma divisão entre eu e algo (que deixou de me ser, que se tornou independente de mim, que já não me provoca dor). Falando de uma unha compreende-se, falando de um dedo também, poderíamos ainda considerar uma mão, um braço e uma perna que se compreenderia facilmente que aquele bocado de mim deixará facilmente de ser eu se me for cortado. A minha pergunta é: até onde vai essa possibilidade de corte? Até onde vai o limite que me permite deixar de ser eu, partindo da premissa de que o que fica prevalece existencialmente sobre o que vai? Até onde posso fazer o corte que separa a minha existência do que se pode independentizar de mim? Seria interessante fazer a experiência com vários graus de corte e ir experimentando a vida presente em ambas as partes (a cortada e a da qual se cortou) com abordagens esotéricas, científicas, filosóficas, cinéticas, etc.. É claro que seria necessário criar um ambiente à Frankenstein e procurar alguns voluntários da adrenalina da morte - aquelas pessoas em que o desejo do sucesso é alucinadamente superior ao medo do fracasso. Pessoas sem consciência da sua linearidade existencial, sem projetos mobilizadores... como eu em dias como hoje! (ehehe)
E assim me fico
Bruno Saraiva
diário - 08.abril.2011

8 de abril de 2011
Olá, meu querido diário
O dia de hoje teve dois acontecimentos principais. A minha aventura matinal com a Ritinha, a gata do meu irmão Carlos, e o jantar em casa da Francisca.
Hoje de manhã fui levar a Rita Amélia, a gata do meu irmão, à esterilização. Inicialmente foi uma carga de trabalhos convencê-lo de que os gatos têm de ser esterilizados. Só a partir do momento em que o Gil (um gato anterior) teve um cio quando ele estava a viver num apartamento fechado é que se apercebeu de que poderia haver benefícios para ambos. Dessa forma, assim que os gatinhos da primeira ninhada da Ritinha foram para novos donos, lá me ofereci para a levar à veterinária. Afinal a veterinária disse que não era necessário esperar pela primeira gestação, enfim, mitos urbanos.
Apesar da apreensão natural associada a uma cirurgia, a castração é uma intervenção rotineira, pelo que a grande prática dos profissionais permite vê-la com bastante tranquilidade. A vantagem mais imediata é evitar a mortandade nos gatis, pois a quantidade de pessoas que quer adotar gatos é imensamente inferior à quantidade de gatos passíveis de adoção. Convém também referir uma realidade que pode passar por não existente, mas que contribui grandemente para o aumento da população destes felinos: gatos domésticos que fogem de casa durante o cio e que entram em contacto, quer com outros na mesma situação, quer com os vadios, contribuindo para esse aumento populacional. Para além disso, ainda há o facto de algumas pessoas quererem que os seus animais de estimação reproduzam. Acabam por ter de arranjar donos para as ninhadas, concorrendo com os gatis que desesperam para encontrar adotantes. Quando um gato é castrado ou esterilizado só os comportamentos associados à sexualidade ficam alterados, nomeadamente, certos miados, atitudes mais violentas, ou as marcações de território. Não é verdade que o gato deixe de brincar ou altere o seu padrão individual de comportamento por ser esterilizado. A diminuição da agressividade entre gatos castrados é favorável, principalmente, aos machos que tenham acesso ao exterior, pois as lutas são a principal forma de transmissão de doenças entre eles. No caso das fêmeas, a esterilização realizada ainda antes do primeiro cio reduz em quase 100% a possibilidade de lhes aparecerem tumores, decorrentes das alterações hormonais associadas à gravidez - e eu que sempre esperei que as minhas gatas tivessem uma ninhada, porque pensava que era melhor.
A Ritinha é uma gata alentejana, mais propriamente de Colos. Uma senhora que o meu irmão conheceu falou-lhe na gatita e ele foi lá a Colos buscá-la. Na altura, lembro-me de me ter ligado a perguntar se sabia onde raio ficava Colos no mapa.
Colos fica no litoral alentejano. Com uma população aproximada de um milhar de habitantes, Colos já mudou várias vezes a sua relação administrativa com a zona onde se insere: no fim do séc. XV D. Manuel I concedeu-lhe o foral que elevou a localidade a vila e a sede de concelho, separando-a do concelho de Sines; no séc. XIX perde a sede concelhia e é integrada no então concelho de Vila Nova de Milfontes; ainda no séc. XIX viria a mudar de concelho e a pertencer, definitivamente, ao de Odemira. Inclui na sua freguesia povoações como Vale Rodrigo e Ribeira do Seissal (de Cima e de Baixo). Com a cortiça a liderar a atividade económica da freguesia, Colos apresenta, na parte mais antiga, alguns pontos arquitetónicos de interesse. Ainda para quem se interessar pelo património edificado, também se sugere um passeio à Ermida da Srª das Neves, no Cerro Queimado (que também serve como miradouro), pegadinho à Ribeira do Seissal de Cima. O aviador Brito Paes, natural da freguesia de Colos, é talvez o seu nome mais emblemático, por assinar (no início do séc XX), juntamente com Sarmento Beires e Manuel Gouveia, a primeira viagem aérea Portugal-Macau, com partida em Vila Nova de Milfontes. De assinalar a sua reconhecida importância na atribuição do seu nome à escola local. Uma outra figura a reter é Augusto da Fonseca Júnior (1895-1972), filho de comerciantes em Colos; gente com possibilidades para financiar os estudos de medicina do filho na Universidade de Coimbra. A sua personalidade irreverente e bem falante leva-o a envolver-se no episódio do 25 de novembro de 1920, conhecido por "tomada da Bastilha". No mesmo espírito de lutador de causas, nunca esqueceu a sua terra natal (chegando mesmo a apoiar financeiramente a vila), foi presidente do Sport Lisboa e Benfica, Governador Civil de Beja e manifestou-se publicamente contra o Estado Novo num momento de apoio à candidatura de Norton de Matos à presidência, para além de ter exercido medicina na armada. Ainda continuando na massa humana em Colos, é impossível não reparar na presença de estrangeiros, organizados em comunidades ou não. Aliás, Colos tem uma intensa atividade associativa, não só laica, com destaque para sociedades recreativas, associações culturais, clubes de caçadores e pescadores, como também religiosa, pelas presenças da Santa Casa da Misericórdia de Odemira (que gere o lar de idosos) e da Congregação das Irmãs do Bom Pastor. Ainda dentro da religiosidade local, a vila tem a Nossa Senhora da Assunção como padroeira, mas anualmente honra em procissão o Senhor dos Passos (sempre uma quinzena antes da Páscoa).
Lá deixei a gatita internada (vai lá ficar uma semana no mínimo, tadinha!). Enquanto lá estive reparei num jornal do dia, que se referia a uma feira de agências funerárias em Paris. É assunto a que, talvez por felicidade (dirão uns), nunca dediquei muito tempo de reflexão. Por isso, de cada vez que me cruzo com algo do género, não só me surpreende o facto de tal indústria existir mesmo, como acabo por ficar arrebatada com todos os pormenores que a caracterizam, destacando os que marcam a sua própria evolução (ao nível de novos materiais na construção das urnas - ao que parece agora estão na moda as urnas biodegradáveis). Dizia no artigo que para esta feira se esperam propostas inovadoras ao nível da forma de guardar as cinzas das cremações. Que bom!
No regresso, decidi ir fazer umas comprinhas ao Inter. Cortei pela avenida principal e logo após a primeira curva... trânsito interrompido. Uma fila de carros à minha frente, gente a pé, polícia, gritos, um pandemónio. Passados uns cinco minutos a polícia começou a desviar o trânsito para outra artéria e lá segui. Tive de dar uma volta enorme e, pelo que gastei no combustível, mais valia ter comprado aqui na mercearia da rua. Na altura não percebi o que estava a acontecer, só depois me disseram que tinha a ver com uma atividade multiculturalista, ligada às comemorações do 25 de abril, que está a dar alguma celeuma nos círculos que dão importância aos opinion makers.
A casa real britânica promoveu um encontro cá em Portugal entre o príncipe Philip e representantes do Movimento do Príncipe Philip. Partindo do princípio de que o príncipe Philip (marido da rainha de Inglaterra) corresponde a uma lenda da República de Vanuatu (Oceano Pacífico), na qual o filho branco do espírito de uma montanha viajaria de mares longínquos até eles, casado com uma mulher muito poderosa. O culto à pessoa terá começado nas décadas de 50 e 60 do séc XX, desde que o príncipe foi observado numa das suas viagens ao país. Então foi confirmado como a materialização da tal personagem lendária, dando origem ao Movimento do Príncipe Philip. Desde então que se têm multiplicado os presentes de ambas as partes, com o príncipe a enviar regularmente fotos suas atualizadas e autografadas, sendo o seu aniversário palco das mais emotivas comemorações pelos crentes de Vanatu, membros da tribo Yaohnanen. O encontro de hoje teve lugar aqui na avenida, num dos últimos prédios da Urbanização Leopardo Digital, cá em Sto André. Até aqui não haveria problema nenhum, não fosse terem sido convocadas duas manifestações racistas opostas para hoje, para o mesmo local (em frente ao prédio onde teve lugar o encontro, que contou com a presença do príncipe Philip, dos representantes do Movimento do Príncipe Philip, mas também outras individualidades), unidas contra tal evento, organizadas, curiosamente, também por movimentos religiosos (daqueles que aproveitam tudo para aparecer nos media, trabalhadores insistentes nisto das auto-promoções). Resumindo as posições oficiais, para os brancos a sujeição do príncipe Philip a tal culto é uma afronta à inteligência e uma heresia aos cultos ocidentais assumidos até pelo próprio príncipe; para os negros trata-se de um culto vergonhoso, pois é uma comunidade negra a prestar culto a um branco, em detrimento dos seus orgulhos tribais. A musculada presença policial impediu a confusão que seria inevitável quando estes grupos facilmente provocáveis se encontram. Tivemos, por um lado, a Igreja Movimento de Criatividade, presença para-militarizada, cheia de organização visual (com banda filarmónica e tudo). Desde 1973, chamada então Igreja Mundial do Criador, é uma instituição religiosa-racista, onde Criadores são os brancos. O seu não-teismo acaba por divinizar a supremacia branca, criando um calendário e festividades associadas ao próprio movimento. Defendendo a ingestão de alimentos crus orgânicos na dieta sugerida aos crentes, cria todo um sistema que entende como leis da natureza, joga com conceitos como o socialismo racial, sempre dedicado a promover o homem branco. Por outro lado, em grupo volumoso e ruidoso, manifestaram-se os membros e simpatizantes da Nação do Senhor. Yahweh Ben Yahweh é o nome que em 1979 criou a Nação do Senhor, em Miami. Composto por elementos da comunidade afro-americana e adaptado a uma lógica de supremacia negra, está associado a uma série de homicídios de cidadãos brancos, que consideram maléficos. Por acreditarem que o seu mentor é descendente direto de Deus, não seguem os textos bíblicos, ainda que se identifiquem com a religião hebraica, criando um sistema original e único de crenças.
Durante a tarde fui surpreendida com um telefonema do meu Carlinhos a convidar-me para um jantar na casa da Francisca Luís porque iria anunciar algo muito importante. Realmente, ele praticamente não saiu de casa na última semana, encomendou comida pelo telefone e não quis ser incomodado. Ainda pensei que tivesse tido algum ataque de inspiração nessa sua atividade (pouco ativa) de escritor. Independentemente da razão do jantar, o meu receio, sempre que vou a um evento com o Carlos, é o seu problema com o álcool. Às vezes bebe demais, ainda que beba sempre muito.
Tendo várias origens e diferentes processos, as bebidas alcoólicas podem-se subdividir em diferentes categorias, por exemplo: tendo a uva como base, através da fermentação consegue-se o vinho e o champagne, através da destilação temos as bagaceiras, o Armagnac, os brandies e os conhaques; destilando a cana-de-açúcar temos a cachaça e o rum; já fermentando cereais obtemos cerveja e saquê, enquanto que a sua destilação permite-nos obter os gins, os whiskies e o vodka; Tequilla e Mezcal obtém-se da destilação da agave (também chamada de piteira); fermentando o mel temos o hidromel; destilando o anis obtém-se absinto; a fermentação da maçã origina Sidra; entre muitos outros ingredientes e resultados possíveis. Há relatos de há 6 milénios atrás sobre a produção e consumo de álcool (Egito e Babilónia, apesar de a destilação só ter sido introduzida pelos árabes) que hoje é bastante banal, exceto em ambientes religiosos que o proíbem (caso dos Mormons e dos Islâmicos). Os povos indígenas (por exemplo do Brasil) já produziam (antes da chegada dos europeus) uma grande variedade de bebidas alcoólicas a partir de raízes, folhas, sementes. As bebidas alcoólicas são a génese de um dos maiores problemas de saúde pública mundial, uma vez que corresponde à droga mais consumida no mundo inteiro. Nos adolescentes em particular, mas em todos em geral, prejudica a memória (criando aquela sensação angustiante de não se lembrar do que fez durante a bebedeira), a motivação e o autocontrole, bem como entorpece os reflexos (daí a má relação do álcool com atividades ligadas ao manuseio de máquinas em tempo real, como conduzir). Considera-se um consumidor moderado leve quem beber até 5 litros de cerveja (com 4% de álcool) por semana, um consumidor moderado quem beber até 10 litros de cerveja e acima desse valor chama-se um consumidor grave. Consumidores considerados graves estão mais expostos a fragilidades orgânicas, potenciadores de Alzheimer, diabetes, hepatite A, câncro no pâncreas, etc. Em termos calóricos, as bebidas alcoólicas vão do Whisky (com 500 Kcal e 43% de álcool) à cerveja (com 100 kcal e 5% de álcool). Há histórias ligadas ao consumo de álcool, que salientam esta ou aquela característica do mesmo. Uma delas evidencia o efeito da falta de memória e passou-se com o prémio Nobel da literatura, William Faulkner. Ao que parece o escritor viajou para São Paulo na sequência de um convite e por lá andou quatro dias, constante e intensamente embriagado. No fim, quando os seus anfitriões o levaram ao aeroporto e se despediram ele ter-lhes-á perguntado: "Qual é mesmo o nome da cidade onde estive?" Acaba por haver uma tradição entre os escritores e o consumo de álcool, ao ponto de Ernest Hemingway afirmar que todos os bons escritores bebem. Seria, segundo o mesmo, a única forma inteligente de conviver com os loucos e os idiotas. É antigo o mito de associar o consumo de bebidas alcoólicas à criatividade literária, pois já Horácio (Roma, séc. I a.C.) afirmava que quem só bebesse água não escreveria bons poemas. Para confundir ainda mais a poesia das coisas, acrescente-se que "essência" é o significado da palavra árabe "alkhul", da qual deriva "álcool". Aliás, atribui-se à sua tradicional presença nas mitologias mais diversas a responsabilidade pela continuidade do seu consumo desde, pelo menos, 6000 a.C., data dos registos mais antigos. Apesar de tudo, seriam os próprios escritores a desmistificar a ideia e a descrever o processo de alcoolização, como o fez Scott Fitzgerald ("Primeiro tomas uma bebida, depois a bebida toma-te a ti, depois a bebida toma outra bebida."), salientando essa incapacidade final de se auto-gerir, comum a todos os vícios aditivos (e não só), que transforma o livre pensador numa mera marioneta de rotinas compulsivas.
O meu irmão é um verdadeiro bon vivant. É viciado em debates online - debates filosóficos e literários, essencialmente. Compra comida, bebida e fecha-se em casa para filosofar em tempo real, como ele diz. Tem um projeto literário que é o de escrever um único livro ao longo da vida. Para isso obriga-se a escrever todos os meses um mínimo de 100 caracteres. Fá-lo, contudo, de forma organizada e usa a estratégia da expansão. Começou por escrever um pequeno texto e depois começou a aumentá-lo: ora inclui uma descrição, ora faz uma retrospetiva, ora acrescenta detalhes, ora inventa um diálogo, etc. Tenho aqui uma cópia do texto que serviu de base ao livro que, ao que me parece, já tem umas 70 páginas:
No início do século XIX desapareceu um bebé ruivo de uma caravana que atravessava uma floresta interior do Canadá. O seu desaparecimento acabou esquecido pelo tempo e pela incapacidade de encontrarem quaisquer pistas que o explicassem. A criança não morreu, mas foi adotada por uma família de símios. Por coincidência, uma fêmea que perdera a sua cria, viu na criança um substituo e tomou-a sua, alimentando-a, acarinhando-a e defendendo-a. A criança tornou-se um homem e acasalou com outras fêmeas símios. De um desses cruzamentos saiu uma criatura, meio homem, meio símio, cujos avistamentos têm assustado algumas pessoas e cuja marca de pé lhe deu o nome de "big-foot". Este espécime, que acaba por ser um certo tipo de primata muito alto (entre 2m e 4m) com um tom avermelhado, associado a um cheiro forte a enxofre. Ainda que durante muito tempo se pensasse que descenderia do gigantopithecus (um primata já desaparecido, com uma dentição muito semelhante à do Homo sapiens sapiens e uma estrutura física agorilada) esta criatura da América do Norte afinal viu a sua genealogia resolvida.
Conforme previsto, o meu irmão bebeu muito e até ficou a dormir no sofá da casa da Francisca, completamente entregue à rendição dos sentidos desfalecidos. O desfalecimento, contudo, só veio muito depois de nos ter contado o que motivou tal encontro.
Do quarteto que esperava encontrar na jantarada, apenas estavam três (a Jéssica não foi). Desde o dia em que o meu irmão defendeu a sua tese de mestrado que confraterniza regularmente com a Francisca Luis (doutorada em não-sei-quê, 45 anos, espiritista num grupo independente e coordenadora do programa de Doutoramentos em Áreas Combinadas da UNP) e a Jéssica Érica Cortes (doutorada em História, Historiadora Anualista, não sei a idade).
No dia em que ele defendeu a sua tese de mestrado, partilhou a sala com outras duas candidatas, em áreas completamente diferentes. Acabaram, pela coincidência do momento, a jantar juntos nessa mesma noite. Desde então que fazem uma jantarada mensal, juntamente com o Valter Zuse. O Valter (53 anos, alemão, radicado em Portugal desde tenra idade) já era amigo da Francisca há imenso tempo, mas quando começou a frequentar a UNP, lá para o final da década de 1990, conheceu o meu irmão, que, nessa altura, ainda andava às voltas com o mestrado. Escusado será dizer que empatizaram logo um com o outro, pois ambos são moços de fazer pouco. O meu irmão sempre foi pouco ativo, pois sempre tivemos algum conforto económico que nos permitiu nunca ter de trabalhar, talvez por isso ele ainda ande com isto de andar a estudar - acho que ele vai ser estudante a vida inteira (mas pouco estuda! - o álcool ocupa-lhe muito o tempo.) Já o Valter, desde que, já no início desde século, a caixa dourada se tornou num pote de ouro e ele ficou o único a gerir o espólio, que enriqueceu e acabou por se deixar levar por esta vida de hobbies, para a qual a companhia do meu irmão é inquestionavelmente má influência.
Bem, o jantar lá começou e o Carlos sempre a fazer suspense sobre o que contaria. Nem sei o ror de coisas que me passou pela cabeça, desde as mais afortunadas às mais trágicas (casamentos, cancros, etc.) Quando já íamos no segundo prato é que se desfez o mistério, afinal ele já escolhera o tema para o doutoramento. Louvado seja Deus!, pensava que isso nunca iria acontecer. Ele já tem 41, já não era sem tempo... agora deixa ver quantos anos vai levar a concluí-lo. (Não lhe perguntei se chegou a consultar o Cateda, como lhe sugeri.)
Não percebi bem o tema a que se vai dedicar (acho que ele próprio também ainda não tem a certeza), mas percebi que atravessa a psicologia, a política e qualquer coisa a ver com saúde pública. Parece que esteve a ouvir discursos de políticos na Assembleia da República e a coisa seguiu por aí.
Anneken Barbosa e Cunha
diário - 08.outubro.2011
diário - 08.fevereiro.2011
Olá, experiência temporal
Antes de mais, deixo o desabafo de nunca ter pensado em escrever um diário, pois a noção de tempo em blocos de 24 horas nunca se me colocou como algo relevante, uma vez que na nossa história só costumamos deixar registados os acontecimentos importantes de um bisséculo. No entanto, a adoção desta forma de vida planetária implica uma adaptação que também passa por isto de viver cada dia. Assim se faz por cá, assim o faremos também sempre que possível.
Lá para setembro vou entrar numa fase Out e neste momento estou em grande expetativa pois integro uma equipa de apoio a uma campanha presidencial, cujos resultados daqui a uns dias serão conhecidos. Segundo as sondagens, o meu candidato sairá vencedor pelo que já começaram as movimentações de bastidores relativas a algumas áreas da governação, cuja continuação estratégica dependerá muito do presidente eleito, já que os candidatos se envolveram nalguns temas bastante específicos, nomeadamente: a educação, a economia, o ambiente e a cultura.
No meu caso, comecei por ser convidado para integrar um grupo de trabalho que está a elaborar uma forma de pagar a dívida que o país tem ao estrangeiro. Consiste esta proposta, em traços gerais, em determinar, em função dos rendimentos médios dos últimos 5 anos (à percentagem, portanto) o que é que cada cidadão tem de pagar para que o país nada deva. Depois, é só criar um imposto personalizado pago num período de 5 anos, com anualidades obrigatórias, mas com a possibilidade de amortização. Parece-me interessante pois permite a cada pessoa, em qualquer altura, consultar a página online onde consta a sua dívida e poder ir controlando o seu próprio processo.
Acabei por não aprofundar muito a minha participação neste grupo, não só porque não é um tema que me motive, mas também porque consegui encaixar-me num outro de reflexão sobre a educação. Contacto puxa contacto e lá fiquei a liderar essa outra equipa. Em vez de apenas elaborarmos uma reflexão (com sugestões) sobre o estado da educação, como estava inicialmente previsto, acabámos por propor alterações profundas, de tal forma eram negativas as conclusões a que chegamos.
Apesar de ter desde sempre intenções de participar apenas nesta secção sobre a educação nacional, aceitei todos os convites que me foram sendo feitos pela equipa da campanha presidencial, para assim ter uma maior área de atuação e, consequentemente, de influência. Por isso, antes de conseguir dedicar-me exclusivamente à minha área favorita, ainda assumi alguns compromissos que tenho de honrar, mesmo que já não ocupe os respetivos cargos. É claro que fui aceitando aqueles que, de alguma forma, poderiam estar relacionados com a cultura espacial terrestre e este que tenho em mãos trata-se da criação de uma associação onde todo o conhecimento espacial possa estar reunido (o que é ótimo, pois torna-se-me mais fácil a tarefa de ir controlando os seus desenvolvimentos). A cultura espacial está bastante espalhada, o que quer dizer que os interessados têm dificuldade em ter acesso a tudo o que se vai fazendo, o que também impede qualquer tentativa de dar seriedade à coisa e de distinguir o trigo do joio. A criação dessa associação passa por esta fase inicial, composta por um festival de 4 dias de conferências e que se pretende que aconteça uma vez em cada dois anos. Este ano, para arrancar, optámos por um determinado formato; na próxima edição os próprios membros da associação decidirão como o fazer. Decidimos dividir os dias por temas a culminar diariamente com um concerto. Para o primeiro dia destinámos as artes, os cultos para o dia de hoje, amanhã virão os cientistas e no último dia eu intervenho, apresentando um documento com os estatutos da associação. Este documento servirá apenas como base de trabalho e discussão para o texto final que, formalmente, definirá a associação. Espero que todos colaborem nos trabalhos e que não haja divergências suficientemente grandes para impedir a criação desta plataforma comum. Na minha proposta está também considerada a criação de um espaço físico (onde possa haver encontros pelo menos uma vez por ano e onde esteja reunido algum espólio informativo, uma mediateca que reúna as diferentes sensibilidades com que contamos à partida) e um online. Para o espaço físico já há uma proposta da autarquia local (no Bairro Leopardo Azul, cá em V N Sto André) que até permite a colocação de um disco voador com um diâmetro de 12 metros criado por um artista local e que servirá de emblema da associação. O espaço online servirá como arquivo de dados, mas também como boletim informativo onde todas as mais diversas atividades possam ser divulgadas sem demoras. Para além dessas funções, permitirá também ir trocando saberes em tempo real, num formato parecido com o do facebook, mas numa versão mais privada, só para associados. Desta forma religiosos, artistas, cientistas ou pensadores livres terão um espaço próprio e não se sentirão tão desamparados. Proponho que se chame "Ar.C.Clar" como forma de homenagear um homem que reúne nas sua obras todas as áreas do saber espacial, Arthur C Clarke.
Ontem foi o dia dos artistas e foi dinamizado pelo casal residente nos EUA Julie Bell e Boris Vallejo: ela, pintora texana, nascida em 1958, conhecida principalmente pelas centenas de capas que assinou de publicações ligadas ao tema da ficção científica; ele, peruano, nascido em 1941, discípulo de um certo surrealismo, bem como das ilustrações de Frank Frazetta (emblemático autor da fantasy art conhecido principalmente pelas suas ilustrações de Conan, o Bárbaro). Ainda houve a intervenção de dois realizadores de cinema, um dramaturgo, um escritor de ficção alienígena e um músico dos Current 93, a banda que atuou ontem no certame. Ainda que todos os outros estejam diretamente ligados à abordagem espacial, este músico dos Current 93 representa um movimento-fusão (TOPY) que, não pretendendo integrar a associação, participará nas conferências a título de convidado especial. Tanto os Current93 como os Psychic TV (o grupo que atuou hoje) quando perceberam o tema do certame e me informaram que ambos integravam os TOPY (o tal grupo de mágicos a que pertencem) mostraram interesse em participar de alguma forma. Acabei por convidá-los a discursar, pois por várias vezes esta sigla me apareceu à frente e sempre ligado a interessantes movimentações culturais, pelo que não perdi a oportunidade. Contendo erros voluntários, determinados em recriar processos comunicativos com vista a compreender melhor o interior de cada um, TOPY (Thee Temple ov Psychick Youth) resulta de uma combinação entre arte e magia (tendo sido criada por elementos de grupos musicais como os Current93, os Coil e os Psychic TV). Apesar do recurso a um certo misticismo mágico, concentram-se em aspetos psíquicos do ser humano, tendencialmente libertadores de sentimentos de culpa. Funcionam em rede dinâmica (em evolução constante) e têm Aleister Crowley como uma das suas influências. Têm tido um certo peso nos meios mais underground da cena mágica pró-caos.
O Astor é que gostaria de ter assistido, ele sempre foi um interessado pela forma como o tema alienígena é tratado na arte - eu sempre me senti mais atraído pelas organizações.
Apesar das intervenções dos artistas, ainda há a exposição de quadros dos próprios, patente durante todo o certame, com a particularidade de contar ainda com obras clássicas de alguns surrealistas consagrados e outras nunca expostas do hiper-realista Hubert De Lartigue. Este francês que se diz viciado na beleza feminina também tem trabalhado para capas de livros de ficção científica e de tal forma a sua arte é incorrigível que é sempre necessário pensarmos, ao olhá-las, que não são fotografias.
Destaco com surpresa, a intervenção do tal escritor, já no fim do dia, o algarvio José Vieira Calado, nascido em Lagos em 1938. A publicar livros desde a década de 1960 (que chegaram a ser censurados pelo regime de então), Vieira Calado estudou em Lagos, Portimão, Faro e Lisboa, mas também em Londres e Paris. Aliando a literatura à astronomia, este autor, que ainda hoje intervém com regularidade em diferentes publicações, apresentou uma comunicação muito curiosa, um misto de ficção, ciência, futurologia e mitologia, salpicada de poesia new age.
Ontem ainda almocei com a minha amiga Olinda Gil com o intuito de levá-la a ver a exposição de arte espacial, para ver se a influenciava a adotar outros temas para os seus quadros (é que o étnico que ela desenvolve não é o que mais me atrai na arte), mas não creio ter tido sucesso. Estes artistas por convicção são difíceis de mudar, mas ainda bem. Que haja alguém com determinação neste mundo flutuante das artes. A minha amiga Olinda Gil é um dos mais dinâmicos nomes portugueses do movimento contemporâneo da Arte Privada, que conhece na internet um dos seus momentos de maior apogeu por dispensar intermediários na comunicação global. Este movimento artístico espontâneo de indivíduos autónomos que vive e se estende fora dos circuitos oficiais, sem recurso a júris, críticos ou avaliadores presunçosos (e que a internet tanto permite) é composto, quase na totalidade, por artistas que não têm na arte a sua fonte de rendimento principal e que, por isso, acabam por ser mais honestos pois não se submetem ao capricho do mundo financeiro, não se "vendem". De origem beirã (Covilhã), esta residente no concelho de Odemira (distrito de Beja) que também viveu em Moçambique, reflete, sem dúvida, uma certa influência do moçambicano Malangatana. Do seu traço, carregado de uma ingenuidade voluntária, volumetrizam-se multiplicidades cromáticas. Olinda, a professora de História, mistura-se com Olinda, a pintora, e de ambas as sensibilidades saem temáticas como o mitológico-tribal, o sacro-cristão e o natural-psicadélico, aliados a uma vontade pessoal de intervenção social na contemporaneidade. Essa vontade é apanágio da pessoa que assina as obras, dotada de personalidade forte, mas doce, salpicada por um omnipresente sentido de humor e uma capacidade de agradecer e iluminar os que a rodeiam.
O dia de hoje foi então marcado pela presença dos representantes de diversos cultos relacionados com o nosso tema, a saber: Igreja da Cientologia, Nuwaubinismo, Pessoas com Poderes Cósmicos de Luz e Raelianos. A todos foi pedida a apresentação da parte da sua teoria que se identifica com a relação interplanetária, bem como dos seus programas de interpretação e ação. Começou com a "Igreja da Cientologia". Tendo criado um sistema de auto-ajuda denominado Dianética, a igreja da Cientologia, que surge em 1952, estabelece patamares de evolução nos quais o crente vai tendo acesso a informação mística, própria e exclusiva de cada patamar. No nível mais elevado consolidará informações relacionadas com a capacidade de isolar do corpo os efeitos nocivos da ação dos espíritos que habitam os seres humanos, os thetans, mas também com a odisseia de Xenu, da Confederação Galática, que há 75 milhões de anos trouxera para a Terra milhares de pessoas para assassinar em vulcões com bombas de hidrogénio (os sobreviventes povoaram o planeta). Após os cientologistas, seguiu-se o Nuwaubinismo. Tendo iniciado atividades como um grupo islâmico negro, em Nova York, nos anos 70 (séc XX), este grupo segue o pensamento de Dwight York. Sofreram imensas mudanças, tendo o seu mentor chegado a ser preso por lavagem de dinheiro e pedofilia. A sua forma de pensar foi influenciada pela Teosofia, Rosacruzes, numerologia de Rashad Khalifa e a teoria dos astronautas antigos de Zecharia Sitchin (a parte mais desenvolvida na intervenção de hoje). Nos seus dogmas encontram-se curiosidades como a importância de se sepultar a placenta, evitando assim que Satanás a use para fazer um duplicado da criança; a existência de sete clones vivos de cada pessoa espalhados pelo mundo; a manipulação genética do Homo Erectus, em Marte, de cujas experiências resultou o Homo Sapiens. Depois de almoço falaram os representantes das PPCL (Pessoas com Poderes Cósmicos de Luz). Tendo como nome principal o checo Ivo A. Benda, as PPCL desde 1997 que baseiam as suas crenças na interação entre seres humanos e extraterrestres, quer de forma telepática, quer mesmo ao nível do contacto direto. Naves espaciais comandadas por Ashtar Sheran aguardam para levar os crentes a outra dimensão e a outros planetas, num contexto de catástrofe cósmica, mas no entretanto, atuam no sentido de precaver os seres humanos contra ataques de extraterrestres maléficos, os Saurians. Chamaram a atenção dos média por serem um potencial culto de suicídio coletivo. Em termos de fontes, há um pouco de tudo nos seus ensinamentos, desde a teoria da conspiração (em que as forças do mal pretendem controlar todas as nossas ações através de chips), do cristianismo (estabelecendo Cristo como um entidade de vibração especial) às próprias teorias alienígenas. Terminámos em beleza com os Raelianos. Tudo começou em 1973, quando o francês Claude Vorilhon avistou um OVNI cuja criatura lhe passou uma mensagem sobre a origem da vida, fazendo com que mudasse o seu nome para Raël ("mensageiro") e passasse a ser sustentado pelos crentes na regra do dízimo. Este afirmou ter sido levado ao planeta dos Elohim num disco voador e lá conheceu terráqueos famosos, como Jesus, Buda, Joseph Smith (fundador dos Mormons) e Confúcio, tendo sido informado que seria o derradeiro profeta a levar uma mensagem de paz e meditação sensual à humanidade até ao ano de 2025, ano em que os Elohim retornarão a Jerusalém. Entendem a clonagem como o caminho para a imortalidade, recusando a existência de Deus e de alma e sublinham a ideia de termos de viver uma vida livre de limitações morais, hedonistas, sexuais, etc. Oferecem um serviço de clonagem humana aos seus 50.000 seguidores (serviço considerado pura fantasia pela comunidade científica) espalhados por 85 países. Nas provas históricas da sua tese da criação do mundo, misturam lendas e teorias da conspiração com as visões de OVNI por todo o mundo, usadas como confirmação de que uma raça superior nos terá criado em laboratório, bem como toda a vida na Terra, a partir de DNA alien. Opositores das teorias evolucionistas, sustentam-se na alegada descoberta de um mecanismo no DNA que, funcionando como restaurador do sistema, impede mutações e a consequente evolução e diversificação das espécies.
Amanhã é o dia das ciências, em que várias universidades e fundações se farão representar, bem como nomes independentes (não alinhados, controversos - veremos como vai ser). É o dia que tem mais intervenções previstas e os temas vão da Radioastronomia à Astronomia Ótica, passando pela Mecânica Celestial, Raios Gama, Ciências Planetárias, Astronomia Solar e Cosmologia.
Se ontem almocei com a Olinda, por seu intermédio almocei hoje com uma amiga sua que ontem não pôde vir ver a exposição, mas que veio hoje. Gostei de a conhecer e fiquei interessado em, ainda este ano (antes de entrar em Out), recorrer aos serviços da agência de viagens onde trabalha, nomeadamente ao pacote bienal chamado PIHTE (Património Imaterial da Humanidade Tour Experience).
A sua agência de viagens aproveitou o facto de saber que o fado pode vir a ser incluído na lista das obras do Património Oral e Imaterial da Humanidade e candidatou-se com sucesso a um subsídio concedido pela secção para a Educação, Ciência e Cultura (entidade que distingue as obras a incluir na já longa lista de expressões a manter para a eternidade) da ONU. Nesta lista estão incluídos costumes, lendas, festividades e um sem número de expressões (danças, músicas, poemas, etc.) Sem dúvida que é uma atitude anti-globalizante, mas simultaneamente pró-globalizante, pois se impede que a uniformização se instale e que façamos tudo da mesma maneira (promovendo os orgulhos locais), também permite que todo o mundo passe a conhecer e quiçá adotar a forma de estar particular de um grupo específico. Enaltece-se o orgulho de uma tradição e, simultaneamente, a sua banalização porque passa a estar exposta em todo o mundo. Promove-se esse bizarro (mas adorável) fenómeno social chamado de paralelismo cultural.
A ideia partiu do princípio de que para se compreender uma determinada atividade cultural há que apreender 3 quadros: 1, pré Vivência (momento de grande criatividade, muito experimental, pouco fixo e com variadíssimas influências), 2, Vivência (período auge em que já é adorado e em que cristalizou num determinado formato, apesar das alterações contextuais que se verificaram desde o seu surgimento) e 3, o seu período de sobre Vivência (a fase contemporânea, em que já foram completamente alteradas as condicionantes, não só da sua emergência, como do seu período auge e em que começam a surgir as fusões com outras formas de estar). Tudo funciona ou por recriações históricas, ou por visitas a locais emblemáticos, basicamente.
Falou-me, não só dos programas de viagens que já têm em funcionamento neste biénio, bem como dos projetos que estão a desenvolver para o próximo, 2013 e 2014. Como se trata de um pacote de viagens diferente do habitual, é necessário pelo menos dois anos para preparar tudo. Na tentativa de me convencer a tornar-me cliente do PIHTE, falou-me dos destinos que têm para oferecer. Em África, podemos ir ao Malawi apreciar o uso dos "ng'oma" (que poderíamos traduzir como "tambores de aflição") ligados a um certo tipo de prática curandeira nativa; ao Egito, para fruir o poema épico Hilali, ainda interpretado de forma ancestral, com acompanhamento de percussão ou rabab (um género de rabeca com duas cordas apenas); a Marrocos, para visitar a praça Jama el Fna (em Marrakesh), enquanto espaço privilegiado para as mais diversas manifestações culturais (música e dança ao vivo, encantadores de serpentes, tatuadores de henna, contadores de histórias, etc.) Se preferirmos as Américas, temos o México, na altura das festas nativas dedicadas aos mortos - importantes ainda nas ramificações culturais contemporâneas e dispersas (por influência) por inúmeras outras manifestações mexicanas; à Colômbia, para o Carnaval de Barranquilla, cidade de grande miscelânea cultural (este carnaval caracteriza-se por misturar músicas e danças nativas com outras oriundas do Congo africano e de Espanha) e quer ao Equador, quer ao Peru pela herança cultural do povo Zápara, dos mais antigos da Amazónia, cuja cultura oral se ramifica no entendimento da floresta, da mitologia e da arte. Finalmente ainda têm pacotes de viagens para a Ásia, nomeadamente ao Camboja, para assistir à dança clássica khmer, integrada milenarmente no folclore local, com participações regulares em casamentos, funerais e coroações e com um formato fixo de 4 personagens, a saber: o macaco Sva, o gigante Yeak, a mulher Neang e o homem Neayrong; ao Bangladesh, para os Bauls que, não se resumindo a um conceito religioso organizado (ainda que com influência de quase todas as devoções locais, caso dos hinduismo, budismo, sufismo, etc.) nem pactuando com o rigoroso sistema de castas, vivem das canções que interpretam acompanhadas pela ektara, um instrumento de uma única corda; ainda ao Iémene, cuja música tradicional está presente nas mais importantes festividades nacionais e conta com um intérprete vocal acompanhado por um género de alaúde chamado qanbus e um instrumento de percussão feito de cobre (o improviso é um dos seus mais emblemáticos ingredientes).
Pela rapidez com que quiseram pôr a coisa em prática, só conseguiram pacotes para estes três continentes, no entanto, para o próximo biénio já andam a tentar abranger o mundo todo, incluindo Portugal, se o fado for mesmo incluído na lista do Património Imaterial.
Mostrei curiosidade sobre o que é que já tinham pensado para o próximo biénio. Mostrou-me alguma documentação que me permitiu saber alguns nomes que andam a preparar e reparei que para a Europa têm o fado (assim se confirme a sua integração), os contadores de histórias turcos (os Meddah), os rituais e artes da região de Shoplouk (Bulgária) e o canto polifónico gutural a quatro vozes italiano. Para a Oceania apontam para a possibilidade de proporcionar a fruição dos complexos padrões geométricos desenhados na areia pelos Vanuatu e dos discursos cantados de Tonga. Ainda não me quis dar mais informações, pois, não só não me quer desviar a atenção do programa que têm em funcionamento, como também ainda não têm as garantias de segurança por parte das entidades locais, condição necessária para organizarem as visitas.
Perguntei-lhe por que razão não promovia viagens ao património espanhol, já que, que eu saiba, há pelo menos duas referências na ONU: o Patum de Berga (festividade medieval que mistura o cristianismo e o paganismo e que consiste numa manifestação processional com cavalos, demónios, dragões, anões macrocéfalos, etc., todos a caminho de uma dança final chamada Tirabol) e o Mistério de Elx (encenação cantada em valenciano e latim de influência barroca e renascentista, em dois atos, que recria episódios da vida da Virgem Maria). Disse-me que sim, que já tinham pensado nisso, mas que apesar de já terem enviado solicitações protocolares às entidades espanholas, ainda não obtiveram qualquer resposta. Se até meados do próximo ano não houver feedback, avança só com os que já estiverem assegurados.
Mostrou-me então o que pode estar previsto para uma possível viagem ao mundo do fado Falou-me de um projeto de 3 dias (e noites), em que num primeiro se visitará Lisboa, terminando a noite em casas típicas de fado; num segundo os turistas poderão optar por ir, ou a Coimbra assistir ao chamado fado estudantil ou fazer o mesmo, mas numa adega típica de Évora, para ouvir um tipo de fado mais aristocrático; no último dia, poder-se-á proporcionar um regresso a Lisboa ou a outra cidade portuguesa qualquer, desde que esteja programado algum concerto de fado esticado (conceito seu, aplicado aos que esticam o conceito fado até aos seus limites, quer estilizando-o numa certa forma de usar a voz ou pelo simples facto de promoverem a sonoridade da guitarra portuguesa, culturalmente associada ao fado). Apontou-me nomes como os Deolinda, A Naifa, os Trilhos, entre outros, e frisou que todo o projeto do fado ainda está em estudo, pois vai depender do sucesso da candidatura.
No fim do dia voltei a casa e vi um e-mail do Astor. Fiquei curioso pois decidimos já há um tempo que não entraríamos em contacto. Depois de aberta a mensagem fiquei a saber que no dia 8 de setembro o meu amigo vai passar o testemunho da sua Centoze, em cerimónia pública para a qual estou convidado.
Deve ser a última vez que nos encontramos durante uma valente temporada pois até ao final do ano ambos passaremos a Out, o que implica, no meu caso, grandes biotransformações. Após se ter verificado a irreversibilidade da deterioração atmosférica e a nossa comunidade se ter dividido, os que já nasceram e foram criados no interior do planeta passaram a beneficiar do refinamento do ar marciano interno e deixaram de envelhecer. Algum tempo depois, começaram as pesquisas genéticas e descobriu-se o efeito de um nutriente desconhecido (ainda hoje) na Terra, que funciona, não só como um economizador de proteínas, mas também, quando combinado com algumas plantas nativas (na sua última fase da passagem de animal a planta), como um elemento de gestão celular. Na Terra este produto não teria muito sucesso, pois o seu efeito transformador necessita de um período aproximado de 200 anos para se verificar em pleno e a vida do Homem Contemporâneo (HC), como é sabido, gere-se em períodos de 8 décadas.
Assim, uma vez em cada dois séculos cada um de nós pode optar por um processo diferenciador, submetendo-se apenas a uma única intervenção injetável. Ou seja, em cada dois séculos as nossas existências poderão levar um input decisivo - se quisermos qualquer tipo de transformação é suposto decidirmos, nessa altura, por onde caminharemos, se queremos seguir pelo remorfismo, ou pelo monomorfismo.
O Astor optou pela monomorfização. A monomorfização é a manutenção da mesma estrutura física com ligeiras adaptações exteriores num processo muitíssimo lento de remorfização. Por se tratar de um processo que dura dois séculos, o acompanhamento quotidiano dessas alterações torna-as absolutamente imperceptíveis, muito semelhantes ao conceito de crescimento do HC, mas ainda mais lento. A outra grande diferença é que enquanto no HC essa evolução tem um percurso degenerativo, no Homem Antigo (HA) essa evolução é apenas remorfizadora. Por haver apenas algumas alterações exteriores (por exemplo, mudança de nariz, cor da pele, tipo de cabelo, forma do corpo mais esguia ou mais encorpada, etc.), a estrutura física interna da pessoa é mais resistente e duradoura. Só mesmo um acidente muito trágico poderá levar à sua morte, pois todos os outros tipos de perturbação são completamente regenerados. Por norma a mortalidade dos monomorfizados é de apenas 3% por milénio. Eu optei pela remorfização, que acaba por me dar uma estrutura mais débil, já que chega aos 26% por milénio a mortalidade dos remorfizados. Como podemos mudar completamente a nossa fisicalidade (interior e exterior), de cada vez que o fazemos há um período de adaptação existencial (de aproximadamente 20 anos) durante o qual estamos mais frágeis e mais expostos a acidentes irrecuperáveis. Daí que muitos HA se refugiem durante esses períodos em zonas de hibernação.
Apesar de ter começado por uma ou duas experiências de monomorfização, rapidamente passei para a remorfização e remorfizado me tenho mantido desde então. Não sei já em quantos milénios vou, pois não costumamos contar o tempo de vida individual. Temos um sistema de arquivo central que nos permite saber todas as nossas opções bicentenárias, bem como a data exata do nosso nascimento e todas as ocorrências que registámos. A coisa funciona assim: de cada vez que somos chamados a decidir pela morfose desejada, dirigimo-nos ao serviço central e deixamos registada uma ou duas informações do nosso bisséculo anterior, que consideremos dignas de registo. É a única forma que temos de ir escrevendo a nossa história individual e, consequentemente, a coletiva. De referir que a nossa sociedade não é composta por acontecimentos coletivos, pois não há projetos mobilizadores, pela ausência de qualquer necessidade de gerir tempos, já que ninguém morre por qualquer tipo de noção relacionada com a passagem do tempo.
Desde cedo virei-me para a remorfização que, apesar do relativo risco, me permite uma diversidade existencial muito mais intensa. Personalidades mais conservadoras como o Astor (muito ligado às questões históricas, filosóficas e culturais) são tendencialmente monomórficos, já personalidades mais exploradoras (mais racionais, lógicas e pragmáticas), como é o meu caso, acabam por optar pela remorfização. Coincide a minha renovação bicentenária com este momento em que estou prestes a sair do Juan de San Episus e agora vou me transformar numa ave (deixarei então de escrever este diário, razão que me leva a fazê-lo agora com mais detalhes). De referir que só há uma coisa que nunca fica alterada com as nossas transformações, que é a memória total da nossa existência. Ainda não decidi o tipo de ave em que me quero transformar, apenas que quero muito sentir a sensação de voar, ter penas, bico, ver as coisas do alto. Tenho de ter cuidado com predadores (se for muito grande, só tenho as pessoas como predadoras, se for muito pequeno, posso até passar despercebido às pessoas, tenho é de estar atento aos outros predadores animais). Ando a considerar a hipótese de me transformar num pombo, pois parece-me uma ave que facilmente se passeia pelas cidades e que pode assistir ao que quiser sem dar nas vistas. Isso permitir-me-á observar a atividade humana.
Ca Pal
------------------------------
